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Lili Reinhart, de Riverdale, diz não ser ativista e que discute depressão para superá-la

Estrela da série adolescente diz ser só honesta sobre seus problemas

Lili Reinhart Lindsay Ellary/News York Times

Sanam Yar

Lili Reinhart, 24, fala com franqueza praticamente desde o momento em que se tornou famosa. A estrela da popular série adolescente “Riverdale” discute abertamente sua luta com a ansiedade, depressão e dismorfia corporal. Ela também se pronunciou sobre os direitos reprodutivos das mulheres, o privilégio branco, sua desaprovação ao presidente Donald Trump, e sobre a fascinação interminável do público com Brad Pitt e Jennifer Aniston.

Reinhart não planejava fazer da franqueza a sua marca. “Eu não tinha ideia, três anos atrás, que ficaria conhecida como a menina que fala de depressão o tempo todo”, disse Reinhartem uma conversa por vídeo do quintal da casa de Airbnb em que ela está hospedada em Vancouver, onde “Riverdale” é filmada. “Isso é algo que eu procuraria, normalmente? Não, mas fico feliz por ter acontecido”.

Em sua opinião, ela está só sendo honesta. “Sou o tipo de pessoa que, se estou enfrentando um problema com alguma coisa, preciso falar a respeito. É a única maneira que tenho de superar”, disse Reinhart.

Em um poema de seu novo livro, “Swiming Lessons”, que chegou às livrarias esta semana, ela expressa a situação de outro modo: “Eu só disse ao mundo/ como me sinto/ e não como superar./ Parece fraudulento/ levar um tapinha nas costas/ por simplesmente dizer a verdade”.

ASCENSÃO AO ESTRELATO

Reinhart cresceu em Cleveland, como filha do meio entre duas irmãs. O pai dela era vendedor e sua mãe era enfermeira em domicílio. Ela desde pequena foi fascinada pelo teatro, algo que a família encorajou. Isso acabou por conduzi-la a testes de elenco, e a viagens de carro de oito horas a Nova York para audições.

“Eu não venho de uma família que conhecesse qualquer coisa sobre o setor”, ela disse. “Preciso dar crédito à minha mãe, que fez mais do que devia para me ajudar a lutar por essa escolha quando eu tinha só 13 ou 14 anos e passava o tempo todo dizendo que só queria atuar”.

Quando ela tinha 16 anos, a família se mudou do Ohio para a Carolina do Norte. Ela decidiu concluir a escola online, para poder se concentrar na atuação, e gravava uma sucessão de vídeos para audições. “Eu odiava ser adolescente”, ela disse. “Odiava ir à escola. Odiava um monte de coisas. Àquela altura, eu não curtia a vida”.

Reinhart tentou diversos empregos. Ela trabalhou cinco horas em uma padaria, mas se demitiu depois de um ataque de pânico severo em seu primeiro turno. Foi hostess em um restaurante por algumas horas, mas teve outro ataque de pânico e pediu demissão. Conseguiu segurar um emprego como vendedora assistente na Pier 1 Imports, onde podia se esconder em uma sala nos fundos, montando caixas. “Atuar era genuinamente a única coisa que não me causava ansiedade”, ela disse. “Foi mais ou menos isso. Eu não tenho um plano alternativo”.

Ela se mudou sozinha para Los Angeles aos 18 anos, e passava os dias esperando chamadas para audições. Para Reinhart, que lutava contra a depressão desde os 13 anos, isso causava uma sensação de isolamento. Ela não conhecia pessoa alguma na cidade e não estava ganhando dinheiro suficiente para sobreviver. “Eu não estava nada bem, mentalmente”, ela disse. “Vomitava toda noite, por depressão”.

Cinco meses mais tarde, ela voltou para casa e para a terapia. Trabalhou no comércio para juntar dinheiro. Decidiu que tentaria de novo, por mais um ano em Los Angeles, e planejou que, se o trabalho como atriz não desse certo, se tornaria maquiadora. Um mês depois de retornar a Los Angeles, aos 19 anos, ela conquistou um dos papéis principais em “Riverdale”, como Betty Cooper, que nos quadrinhos originais de Archie era a garota ensolarada da casa ao lado mas na série se tornou uma detetive adolescente durona.

“A pobre Betty passa o tempo todo pelos maiores sofrimentos emocionais”, disse Roberto Aguirre-Sacasa, o produtor que comanda a série. “Parte do motivo é que Lili é uma atriz fenomenal, com muita alma, e consegue encarar as cenas. Tentamos acrescentar um lado mais escuro a alguns personagens e isso às vezes não funciona. Mas no caso de Betty, descobrimos que Lili era capaz de absorver todos os traumas e desafios que aparecessem e transformá-los em desempenhos incríveis”.

Reinhart se define frequentemente como “a garota CW”, mas “Riverdale” abriu outras portas para ela: um papel importante no cinema em “As Golpistas”, com Jennifer Lopez; ela conseguiu comprar uma casa; começou a trabalhar como produtora de cinema; e agora lançou seu primeiro livro.

“POESIA SE TORNANDO IMPORTANTE”

A produção de “Riverdale” foi suspensa em março por causa da pandemia. Para Reinhart, foi um alívio. “Eu honestamente estava esgotada, trabalhando seis dias por semana, 16 horas por dia. Estava mais que exausta”, ela disse. “Estava chegando ao ponto do colapso e aí veio a Covid, e passei cinco meses sem trabalhar”.

Ela dedicou a quarentena a cuidar de si mesma, e se mudou para sua primeira casa, no vale de San Fernando, em junho. Fazia terapia todas as semanas, leu livros de autoajuda, e aproveitou para conviver com os amigos. Ela recorreu a um curandeiro, e aprendeu a meditar. E escreveu mais poemas –uma paixão que descobriu aos 16 anos enquanto estava em busca de palavras “bonitas o suficiente” para enviar a um namorado que morava longe.

“A poesia está se tornando importante, hoje. Pessoas leem poetas como Rupi Kaur e Lang Leav”, ela disse. “Você vê livros de poesia na Urban Outfitters, só poemas, e adoro isso. E aí pensei que era hora de participar disso, era hora de entrar nessa parada”.

Leav é fã do trabalho de Reinhart, e de sua força interior. “Ter a emoção de ver seu trabalho gerando uma conexão com as pessoas, mas ao mesmo tempo atrair trolls de internet, especialmente como mulher, ser uma pessoa vulnerável mas ao mesmo tempo se pronunciar –ela lidou muito bem com tudo isso, para alguém tão jovem”, disse a poeta. “Eu não sei como teria me comportado se tivesse recebido esse tipo de atenção com pouco mais de 20 anos”.

Muitos dos poemas de “Swimming Lessons”, escritos ao longo de cinco anos, giram em torno de amor, decepções amorosas, pesar e da natureza fugaz do tempo. “Eu queria sair daquela caixa de ser uma atriz da CW”, disse Reinhart. “Eu podia ser vulnerável, e meus poemas vinham de minhas emoções reais, mas eu os vejo como histórias de ficção e não como páginas de meu diário”. (No começo do livro, há uma notificação nesse sentido.)

As pessoas que acompanharam o relacionamento entre Reinhart e seu colega de elenco em “Riverdale”, Cole Sprouse, podem encontrar no livro motivos para especulação sobre o romance relativamente privativo entre eles. Sprouse escreveu no Instagram que eles tinham terminado seu relacionamento em março.

Quando perguntada como se sentia caso os fãs misturassem esse relacionamento aos seus poemas sobre perda –especialmente os que falam de infidelidade-, Reinhart parou para pensar.

“Eu decidi que não teria mais medo das conexões que as pessoas podem fazer”, disse Reinhart. “E acho, sabe, que fui traída. Não vou oferecer detalhes, mas é algo por que passei. Cole não é o único ser humano que esteve em minha vida, mas as pessoas podem presumir que é ele. Não vou confirmar ou negar”.

FALANDO CLARO

Em junho, Reinhart revelou aos seus 25 milhões de seguidores no Instagram que é bissexual. “Acho que o motivo para não ter falado sobre isso é que eu tinha medo de as pessoas acharem que só o fiz para chamar atenção”, ela disse.

Reinhart conta que começou a questionar sua sexualidade na quinta série. “Lembro-me de procurar ‘Playboy’ e ‘peitos’ no Google. Eu queria ver mulheres, ou seja, estava interessada”, ela disse. “E depois, quando fui ficando mais velha, percebi que sentia atração por aquelas mulheres. Eu queria ser parecida com elas, mas também sentia atração por elas”.

Revelar sua bissexualidade também foi uma forma de mostrar solidariedade à comunidade mais ampla dos ativistas. Em seu anúncio no Instagram, ela incluiu detalhes de um protesto LGBTQ em favor do movimento Black Lives Matter a que compareceria.

Em maio, Vanessa Morgan, colega de elenco de Reinhart em “Riverdale”, publicou diversos tuites sobre o tratamento de personagens negros pelo cinema e TV, onde eles costumam ser relegados a papéis secundários ou estereotipados. Aguirre-Sacasa, de “Riverdale”, publicou um pedido de desculpas e prometeu fazer melhor.

“Roberto falou com todos nós depois que aquilo que aconteceu, e disse que queria nos contar que tinha conversado com Vanessa, ouvido tudo que ela tinha a dizer, e que eles fariam todo o possível para corrigir aquele erro”, disse Reinhart. “Acho que a série com certeza vai tentar fazer melhor em termos de diversidade racial e de garantir que os personagens secundários tenham linhas narrativas reais e não sejam só um acessório para os personagens brancos”.

Ter milhões de seguidores também significa que as ações de Reinhart são alvo de intenso escrutínio. Em junho ela postou uma foto topless no Instagram, com a legenda: “Agora que meus peitos chamaram sua atenção... os assassinos de Breonna Taylor não foram presos. Exija justiça”.

A reação negativa foi imediata. Muita gente classificou o “post” como insensível, apontando que era só mais um exemplo de trivializar a morte de Taylor ao fazer dela um meme. Reinhart rapidamente retirou o “post” e pediu desculpas.

“Antes de postar aquilo, perguntei a uma amiga se as pessoas não iriam entender a mensagem errado. Eu queria atrair a atenção das pessoas para o acontecido”, ela disse.

“Se eu postasse sobre Breonna Taylor, teria atraído 500 mil likes ou menos. Com uma foto minha, atrairei três milhões”, ela disse. “Mas foi uma atitude ignorante. Foi uma coisa ignorante que fiz”.

Depois disso, ela tirou o Twitter de seu telefone. “Não é a primeira vez que sou alvo de ódio na internet”, disse Reinhart. “Já passei por isso muitas vezes. E acho que é porque me pronuncio sobre as coisas, e com isso atraio inerentemente alguma atenção negativa”.

Antes disso, ela tinha começado a transmitir uma série de discussões ao vivo com ativistas e artistas negros, entre os quais Asha Bromfield, que foi sua colega em “Riverdale” e disse que também se sentia desvalorizada na série.

“Foi intimidador expor minha ingenuidade em público”, disse Reinhart sobre essas conversas. “Sou uma mulher branca e loira, jamais vou experimentar a discriminação que uma mulher negra ou uma mulher trans enfrenta”.

Mas ela ainda assim sente a necessidade de oferecer espaço para as vozes das pessoas que viveram essas experiências. “O que eu tinha a oferecer nessa situação? Uma plataforma”, disse Reinhart. “E foi assim que decidi o que fazer. Usar minha plataforma”.

The New York Times

Tradução Paulo Migliacci

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