Cinema e Séries

Fãs de filmes antigos procuram títulos em plataformas de streaming para rever e matar a saudade

Mubi, Oldflix e Looke dão mais espaço a clássicos do cinema

O arquiteto aposentado Silvio Breno de Souza, 85, tem um catálogo de 6.000 títulos, organizados em fichas
O arquiteto aposentado Silvio Breno de Souza, 85, tem um catálogo de 6.000 títulos, organizados em fichas - Rubens Cavallari/Folhapress
São Paulo

Tem na Netflix? Essa pergunta ficou frequente depois que as locadoras se aposentaram e ficou mais difícil encontrar filmes, principalmente os clássicos. O jornalista aposentado Shigueyuki Yoshikumi, 80, fala com saudade de seus títulos preferidos que vai desde “Dance Comigo” (1938), com Fred Astaire, até “Em Algum Lugar do Passado” (1980) e, o mais recente, "Sempre ao Seu Lado" (2009). 

"A gente não encontra mais, infelizmente. O duro é que locadora, principalmente no interior, acabou. Eu comprava fitas na [rua] Sete de Abril, antigamente”, conta o aposentado, ao citar a rua do centro de São Paulo. "Hoje, a gente troca filmes com os amigos e convida o pessoal para a assistir em casa, mas fica um pouco caro porque o uísque também entra na conta”, brinca Yoshikumi, que mora em Lins (a 430 Km de São Paulo).

Cinéfilo desde criança, o arquiteto aposentado Silvio Breno de Souza Santos, 85, não perdia uma matinê. Há 20 anos, ele teve a ideia de criar o seu próprio acervo. Ele passou a gravar filmes que passavam na TV e a comprar DVDs. O resultado é uma DVDteca com um acervo de 6.000 títulos. "Tenho tudo em fichas, escritas à mão. Posso consultá-las pelo nome do filme, pelos atores e pelos diretores”, conta Santos, que nasceu em Araguari (MG), mas vive em São Paulo com a mulher, Leila.

Santos, que tem toda a coleção de Ingmar Bergman (1918-2007), diz que adora o faroeste “Shane - Os Brutos Também Amam” (1953) e sempre revê “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles. "É aquele tipo de filme que sempre vamos pegar algo novo", diz o arquiteto. Ele também tem filmes mudos em seu acervo, mas só os empresta para amigos. "Anoto direitinho no caderno, até hoje sumiram uns cinco filmes."

A decadência do DVD e o fim das locadoras fez o aposentado Luis Cento Azambuja Contreiras Rodrigues, 59, acreditar que seria salvo pelas plataformas digitais. Ele é fã do ator Charlton Heston (1923-2008) e esperava que os serviços de streaming pudessem suprir seu saudosismo, mas isso não aconteceu.

"O streaming dá preferência aos filmes novos”, reclama Rodrigues. Longas como “55 dias em Pequim” (1963), “Khartoum” (1966) e “El Cid” (1961) são exemplos de produções que ele gostaria de rever. "Vi esses filmes quando era criança no cinema e não entendia muito bem. Hoje, eu tenho a maturidade para rever e entender melhor a história de El Cid [Charlton Heston], por exemplo", afirma ele, sobre o filme que retrata as disputas de unificação da Espanha no século 11, e tem no elenco Sophia Loren, hoje com 84 anos.

Hoje morador de Taubaté, o paulistano chegou a comprar filmes em lojas da Livraria Cultura e coleções em banca de jornal. “Comprei um box do ‘Túnel do Tempo’, série que gostava muito, mas sempre evitei acumular em casa, mesmo no tempo do VHS."

 

CLÁSSICOS NAS PLATAFORMAS DE STREAMING

A TV por assinatura e as locadoras perderam espaço para as plataformas digitais, mas os filmes antigos ficaram perdidos na transição e ainda não encontraram seu lugar. A Netflix tem alguns títulos clássicos como “Star Wars e uma Nova Esperança” (1977 e “Mary Poppins” (1974) em seu catálago. Já a Prime Video oferece, por exemplo, a trilogia de “O Poderoso Chefão” (1972-1990), “Um Estranho no Ninho” (1975) e o “O Bebê de Rosemary” (1968). 

Essa demanda por títulos antigos fez com que Manoel Ramalho de Oliveira, e do filho dele, Wagner de Oliveira criassem o Oldflix. Ex-programador de um canal de TV no Rio Grande do Norte, onde vive, Manoel diz que sempre exibia filmes antigos na programação da madrugada, e viu que o interesse do público era grande. "Não queremos ser um Netflix, não temos estrutura para isso. Quero oferecer um serviço bom aos apreciadores do cinema”, explica Manoel.

O professor Joselias Santos da Silva, 62, é uma dessas pessoas que via os filmes na madrugada. “Houve uma época em que a Globo passava todos os clássicos. ‘E o Vento Levou...’ [1940] foi dividido em episódios. Fiquei a semana toda assistindo”, lembra, Silva, que hoje tenta criar um arquivo próprio em sua casa.

Já o serviço Mubi tem na sua lista clássicos franceses como "O Pequeno Soldado" (1960) e "Uma Mulher é Uma Mulher" (1961), de Jean Luc-Godard. Um dos problemas da plataforma é que nem todo filme possui legenda, mas isso deve ser resolvido até agosto, diz a gerente de marketing do Brasil, Juliana Barbieri.

A plataforma quer investir em produções nacionais e está sempre de olho em festivais pelo mundo todo. "Todo dia tem filme novo e ele fica na plataforma por um mês e isso cria um fluxo interessante de títulos”, afirma Barbieri. 

Filmes de Bruce Lee, John Wayne e da juventude de Clint Eastwood estão entre os destaques da Oldflix, que tem quase 2.000 títulos e espera chegar, em breve, a 5.000, incluindo documentários. O serviço de assinatura da plataforma custa R$ 12,90 por mês e tem 110 mil inscritos, a maioria jovens. "Engraçado que os quarentões para cima ainda não nos descobriram", diz Oliveira. 

Um exemplo de jovem que gosta de clássicos antigos é o desenhista William Mur, 34. “Brinco com a minha namorada que eu queria um Netflix todo branco e preto." Fãs de filmes clássicos americanos, europeus e até as produções de terror trash, Mur já frequentou a Cinemateca em busca de sessões de filmes antigos, e vai muito a mostras especiais, como as promovidas pelo CineSesc.

"Eu curti o tempo das locadoras, mas depois comecei a comprar VHS, DVD e vinil. Acumulei coisa demais e decidi deixar tudo com o meu irmão. Hoje, tenho tudo no computador", afirma Mur, que tem interesse em conhecer a plataforma Mubi e só não assinou por não ter legendas, problema que já está sendo resolvido.

PRODUÇÃO NACIONAL E DIVERSIDADE

Os filmes clássicos brasileiros têm espaço na plataforma criada pelo Circuito Spcine de salas de cinema da prefeitura de São Paulo. A Spcineplay oferece títulos clássicos e produções que circulam nas mostras especiais, como o Festival Varilux de Cinema Francês e o In-Edit Brasil, esse último só com produções que têm a música como tema.

O acervo tem os longas de terror de Zé do Caixão e produções como “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), de Hector Babenco (1946-2016), “O Homem que Virou Suco” (1979), de João Batista de Andrade ou “A Dama do Cine Shanghai”, de Guilherme de Almeida Prado. 

A Looke é outra plataforma de filmes clássicos e ainda serve de estrutura para o conteúdo da Spcine. Luiz Bannitz, diretor de Conteúdo e Negócios, afirma que o catálogo do serviço de streaming tem de filmes clássicos, nacional e internacional, a cinema europeu passando pelos mais modernos, como "Robocop" (1987) e "Tubarão" (1975). " O público quer diversidade", diz Bannitz, que acrescentar que a empresa que investir em curta-metragens e mais clássicos brasileiros. 

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