Cinema e Séries

Inspirado em poema de Jorge de Lima, 'O Grande Circo Místico' conta saga de família circense

Filme de Diegues foi escolhido para disputar uma vaga no Oscar

A atriz Bruna Linzmeyer em cena do longa 'O Grande Circo Místico', de Cacá Diegues
A atriz Bruna Linzmeyer em cena do longa 'O Grande Circo Místico', de Cacá Diegues - Divulgação
Descrição de chapéu Agora
Leandro Vieira
São Paulo

Um circo, uma família, um século e muitas histórias. O filme “O Grande Circo Místi­co”, que chega às salas de cinema hoje, conta a saga dos Knieps, que fundaram um circo que foi passando de geração para geração. 

O longa é inspirado em um musical, criado em 1983 com músicas de Edu Lobo e Chico Buarque, e que foi montado em cima do poema de mesmo nome do alagoano Jorge de Lima (1893-1953). “Não vi o espetáculo, que teve poucas sessões, mas tomei conhecimento da trilha sonora, que é maravilhosa. Como adoro o trabalho do Jorge, tive a ideia de transformar em filme”, conta o diretor Cacá Diegues.

O diretor fez questão de afastar a obra do realismo. "Queríamos que o filme fosse o contrário do naturalismo. Também era a chance de recuperar um pouco da arte barroca brasileira, que é uma belíssima expressão artística", diz Diegues.

De forma suave e no tom certo, com doses de sensualidade, “O Grande Circo Mís­tico” vai mostrando uma gama variada de personagens. Começa com o apaixonado Fred (Rafael Lozano), que monta o circo por conta de sua paixão pela artista Beatriz (Bruna Linzmeyer), passando pelo frio Jean Paul (VincentCassel), o conservador Oto (Juliano Cazarré) e a forte Margarete (Mariana Ximenes), responsável por algumas das cenas mais fortes.  ​

“A Margarete tem um jeito muito próprio de se expressar. Ela cria uma dor física para suportar a dor psicológica. Ela se mutila para apaziguar a dor”, conta Mariana.

"Quem costura todos esses anos é o mestre de cerimônia Celavi (Jesuíta Barbosa), único personagem que permanece por todo o filme. “Ele não aparece no poema nem no musical. Precisamos criá-lo para fazer essa costura”, conta Diegues.

Filmado em um circo em Portugal, “O Grande Circo Místico” ainda tem no elenco Antonio Fagundes, Marcos Frota, Luiza Mariani, as gêmeas Amanda e Louise Britto, o polonês Dawid Ogrodnik e a francesa Catherine Mouchet.

CHANCE NO OSCAR

O filme “O Grande Circo Místico”, que estreia na próxima quinta (15), vive outro momento de expectativa. Ele será o representante brasileiro para disputar uma vaga no Oscar do ano que vem, como melhor filme estrangeiro. “Vamos trabalhar por ele. Logo após o lançamento, vamos viajar para Los Angeles e fazer alguns encontros”, conta o diretor, Cacá Diegues.

Ele acredita que o prêmio seria importante para a produção de cinema nacional, mas não vê derrota caso o filme não entre na disputa. “É um troféu importante, que ajuda a dar visibilidade à nossa produção, mas não é o fim do mundo se não acontecer. Não tenho nada contra ganhar, mas também não tenho nada contra não ganhar”, afirma Diegues.

Um dos destaques do filme está na forte presença das personagens femininas na história. O diretor Cacá Diegues, que dividiu o roteiro com George Moura, ressaltou a presença das mulheres. “Quando comecei a trabalhar na história, há cerca de dez anos, não pensamos em um filme feminista. Mas, olhando o filme pronto, sem dúvida as mulheres têm o destaque”, afirma.

Diegues lembra que a história acabou sendo um resultado natural da importância da valorização das mulheres ganharam na sociedade. “Isso acontece desde o começo. O Fred [Rafael Lozano] monta um circo por conta da paixão que ele tem pela Beatriz [Bruna Linzmeyer]”, completa.

 

POEMA "O GRANDE CIRCO MÍSTICO"

O médico de câmara da imperatriz Teresa, Frederico Knieps
Resolveu que seu filho também fosse médico
Mas o rapaz, fazendo relações com a equilibrista Agnes,
Com ela se casou, fundando a dinastia de circo Knieps
De que tanto se tem ocupado a imprensa

Charlote, filha de Frederico, se casou com o clown,
De que nasceram Marie e Oto.
E Oto se casou com Lily Braun a grande deslocadora
Que tinha no ventre um santo tatuado.
A filha de Lily Braun, a tatuada no ventre
Quis entrar para um convento,
mas Oto Frederico Knieps não atendeu,
e Margarete continuou a dinastia do circo
de que tanto se tem ocupado a imprensa

Então, Margarete tatuou o corpo sofrendo muito por amor de Deus,
Pois gravou em sua pele rósea a Via-Sacra do Senhor dos Passos
E nenhum tigre a ofendeu jamais;
E o leão Nero que já havia comido dois ventríloquos,
Quando ela entrava nua pela jaula adentro,
Chorava como um recém-nascido.
Seu esposo, o trapezista Ludwig, nunca mais a pôde amar,
Pois as gravuras sagradas afastavam a pele dela o desejo dele.
Então, o boxeur Rudolf que era ateu
E era homem fera derrubou Margarete e a violou
Quando acabou, o ateu se converteu, morreu

Margarete pariu duas meninas que são o prodígio do Grande Circo Knieps
Mas o maior milagre são as suas virgindades
Em que os banqueiros e os homens de monóculo têm esbarrado;
São as suas levitações que a platéia pensa ser truque;
É a sua pureza em que ninguém acredita;
São as suas mágicas que os simples dizem que há o diabo;
Mas as crianças crêem nelas, são seus fiéis, seus amigos, seus devotos

Marie e Helene se apresentam nuas,
Dançam no arame e deslocam de tal forma os membros
Que parece que os membros não são delas
A platéia bisa coxas, bisa seios, bisa sovacos
Marie e Helene se repartem todas, se distribuem pelos homens cínicos,
Mas ninguém vê as almas que elas conservam puras.
E quando atiram os membros para a visão dos homens,
Atiram a alma para a visão de Deus
Com a verdadeira história do grande circo Knieps
Muito pouco se tem ocupado a imprensa.

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