Cinema e Séries
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'Maniac', da Netflix, usa jornadas fantásticas para expor a sociedade

Produção aborda a falência das relações humanas com humor

Jonah Hill e Emma Stone conversam em cena de série
Jonah Hill e Emma Stone brilham em cena da série 'Maniac', nos papéis de Owen e Annie - Divulgação
Isabela Rosemback
São Paulo

“Maniac”, novidade exibida na plataforma de vídeos sob demanda Netflix, é daquelas séries que fazem o telespectador querer voltar cenas para apreender referências —e, ainda assim, perder muitas delas.

Centrada nas experiências de Owen (Jonah Hill) e Annie (Emma Stone), é uma imersão em profundezas psíquicas dos personagens, com alusão ao universo literário, sem perder o tom do humor.

Com estética dos anos 1980, embora situada em um tempo futuro, desprende-se do realismo e conduz o público a jornadas fantásticas, que muito sugerem sobre a existência vazia e virtual da sociedade de hoje. Faz isso por meio da rotina e dos traumas da dupla.

Na trama, tanto Owen quanto Annie se sentem deslocados no meio em que vivem. Também têm em comum a ideia de não pertencimento à família. Solitários e depressivos, acabam virando cobaias de um medicamento que promete sanar transtornos mentais.

O tratamento a ser testado por um excêntrico laboratório é feito em três fases e promete acabar com a forma tradicional de terapia: a pastilha A é o diagnóstico, o resgate de histórias pessoais; a B expõe os mecanismos de defesa de quem a toma, o chamado ponto cego; e a C coloca os pacientes em confronto com conflitos internos.

Sempre que toma as pílulas, o casal protagonista convida o público a embarcar em um lúdico mundo de sonhos e símbolos que dão pistas do que os aflige na vida real. Uma peculiaridade, porém, instiga os cientistas: no transe, uma ligação incomum faz com que Annie e Owen acessem a mente um do outro —logo eles, tão descrentes nas relações humanas (“Duas pessoas se cuidando? É estúpido”, diz o jovem, a certa altura da série).

Quando Annie entra em uma rodoviária que é também biblioteca pública, uma direção é dada a quem a acompanha. Não à toa, suas histórias são ricas em referências literárias. Já as de Owen, que encara com parentes ricos um embate jurídico, estão em ambientes requintados e mafiosos. Constante, nos dez episódios da produção, é a questão familiar. 

A direção é de Cary Fukunaga, da bem-sucedida primeira temporada da série “True Detective” (2014). A premissa de “Maniac” não é exatamente original (os filmes “Quero Ser John Malkovich” e “A Origem”, entre inúmeras referências, já visitaram cômodos da mente humana). Nem por isso, deixa de ser irresistível percorrer seus capítulos.

A construção visual da série, algo entre a distopia [ambiente caótico de um estado falido] e uma visão retrô de cyberpunk [quando personagens são oprimidos diante de avanços tecnológicos], ajuda a narrativa, de modo que todos parecem presos ao passado —até mesmo o saudosista telespectador.

A angústia de uma sociedade doente e exposta se manifesta em tom crítico, e nem um computador sai ileso de um bug emocional. Vale atentar às soluções arcaicas dadas a facilidades modernas: GPS, anúncios de internet, buscadores online e redes sociais são representados de forma curiosa ao longo da série.

PARCERIA DE EMMA STONE E JONAH HILL É LENDÁRIA

A dupla Emma Stone e Jonah Hill, que brilha muito em “Maniac”, já é saudosista e carregada de significado por si só: os astros despontaram juntos no cinema, lançados ao estrelato na marcante comédia adolescente “Superbad” (2007) —uma das vitrines do produtor Judd Apatow.

A amizade, desde então, gera bons frutos: nesta nova minissérie da Netflix, Emma e Hill são coprodutores. Em premiações, os dois também sempre demonstraram apoio um ao outro.

Vale lembrar que Emma Stone tem no currículo uma estatueta do Oscar, por sua protagonista de "La La Land" (2016), e que Jonah Hill já foi indicado ao prêmio como coadjuvante em "O Lobo de Wall Street" (2013). 

Fortes candidatos a novas indicações, desta vez em premiações de TV, ambos reforçam, com a atuação em "Maniac", o talento pelo qual têm sido reconhecidos. Nesta ficção científica que mistura drama e humor, deixam claro essa versatilidade além da comédia.

Destaque, ainda, para a participação de Sally Field na série. Justin Theroux e Sonoya Mizuno interpretam os líderes dos experimentos do laboratório da trama.

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