Cinema e Séries

Filme 'O Paciente' promete desvendar mistérios do presidente que nunca tomou posse

Com estreia nesta quinta, longa mostra últimos dias de Tancredo

Ator Othon Bastos, 85, como Tancredo Neves
Ator Othon Bastos, 85, como Tancredo Neves - Desirée do Valle/Divulgação
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Karina Matias
São Paulo

​Um país vive 21 anos sob uma ditadura militar. Quando enfim elege (ainda que indiretamente), um presidente civil, da oposição, uma tragédia acontece: ele adoece um dia antes de tomar posse. As informações são confusas e desencontradas: apendicite? diverticulite? câncer? atentado?

As notícias falsas ecoam ainda hoje. A história parece cinema. É Brasil, 1985. E o final você já sabe: Tancredo Neves (PMDB) morre e seu vice, José Sarney (PDS), assume.

Mesmo com desfecho conhecido, “O Paciente - O Caso Tancredo Neves”, longa de Sérgio Rezende que estreia amanhã em 60 salas do país, mantém o clima de suspense ao se propor a narrar, com base em registros médicos, a verdade sobre os 38 dias que antecederam a morte do político (1910-1985) –e a sucessão de erros médicos responsáveis por isso. 

O filme entra em cartaz uma semana após o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), líder das pesquisas, ser esfaqueado em atentado em Juiz de Fora (MG). Para Rezende, apesar de tanto o longa quanto a atual corrida às eleições representarem momentos críticos da política brasileira, hoje o país está muito mais polarizado.

“De uma certa maneira, o Tancredo conseguiu unir o Brasil em dois momentos. Primeiro, na esperança [pela volta da democracia], e depois no desespero, na dor da sua morte”, diz.

Embora tenha forte fundo político, a produção é centrada no atendimento médico prestado ao político. Logo no início é mostrada sua primeira operação do paciente. Segundo os registros, havia 20 políticos dentro dessa sala de cirurgia. Depois, é ainda retratada a inacreditável falta de materiais cirúrgicos adequados, enquanto sobram arrogância e disputa médica.

“Tudo o que você achar que é mentira no filme é verdade”, garante Rezende. O longa foi feito com base no livro de mesmo nome, escrito pelo pesquisador Luís Mir, que investigou detalhadamente os prontuários médicos de Tancredo Neves. “Ele foi mal diagnosticado, mal operado e mal acompanhado”, diz Mir.
Para conferir realismo à trama, Rezende optou por uma câmera só, utilizada de forma documental.

Também preferiu inserir imagens reais da época. Há várias cenas que mostram a comoção real das pessoas nas ruas e até entrevistas de políticos, como Ulisses Guimarães (1916-1992). Nesta mesma linha, o longa não tem trilha sonora. “A não ser no final, em que entra um hino de Milton Nascimento e que não podia faltar na história.”

BOATOS MUDARAM A HISTÓRIA

Informações desencontradas e mentiras repassadas em grande velocidade atropelaram a real história da internação de Tancredo Neves na década de 1980 _muito embora naquela época ainda não houvesse a internet para potencializar as “fake news”, como são chamadas as notícias falsas que se propagam principalmente pelas redes sociais.

O ator Emilio Dantas, que faz o papel de Antonio Brito, assessor de imprensa do então presidente, diz que se surpreendeu com a forma com que as notícias corriam tão rapidamente nos anos 1980.

“O paralelo que existe com os dias de hoje são as ‘fake news’. Era 1985, mas parecia agora. Um lance de escada que você subia no hospital e já tinha mudado o cenário inteiro. Muitas vezes, o assessor dele passava informações à imprensa que já estavam velhas, passadas”, afirma o ator. “Fiquei pensando como seria tudo isso hoje. No dia em que o Tancredo colocou o pé naquele hospital, alguém já teria tirado uma foto, com certeza.”

Com 35 anos, o ator não tem memórias da época, mas acredita que o filme sirva de reflexão política. “Ele traz exatamente o que falta para a gente hoje. Nos falta tratar política como política e não só como bandeira. E deixa a pergunta de como nós realmente nos mobilizaríamos por um ideal. Foi como se realmente eu tivesse entendido tudo que foi passado naquela época, a dor das pessoas, o grau de ignorância que existia.”

Já Leonardo Medeiros, que interpreta o médico Pinheiro Rocha, tinha 18 anos na morte de Tancredo. “Esse roteiro me impactou na hora em que li, principalmente por causa da situação familiar, de toda a retaguarda por trás dos motivos da internação. São personagens conhecidos para mim. Foi incrível termos reproduzido imagens impregnadas na minha memória”, avalia.

Autor do livro que inspirou o filme, Luís Mir diz que ficou muito feliz com a adaptação da obra ao cinema. E elogia a fidelidade aos fatos. “Estou vivendo um sonho.”

'SOFRI MUITO', DIZ O ATOR

Com 85 anos de vida e mais de 65 anos como ator, Othon Bastos encarou o desafio de humanizar o mineiro Tancredo Neves, eleito presidente em 1985, mas que morreu antes de tomar posse. “Eu não quis ser o Tancredo, peguei muito mais pelo lado humano dele. Não estou contando a vida dele, mas um determinado período: a doença e a morte.”

Bastos diz que nem os trejeitos do presidente ele quis recriar. “Nem no andar, nem no sentar, nem no falar. Não coloco sotaque mineiro. Eu teria medo de ficar ridículo.”

O ator afirma que o público poderá se identificar com o filme. “Poderia ser qualquer pessoa. O espectador pode ligar os momentos pelos quais Tancredo passa a qualquer parente seu”, conta. “Sofri muito, fiquei horas e horas deitado, horas e horas de braço aberto. Até hoje me emociono com o trabalho”, diz Bastos, que não fez caracterização: só raspou a parte de cima da cabeça para evidenciar os cabelos nas laterais.

PRONTUÁRIO LACRADO EM COFRE

Autor do livro “O Paciente: O Caso Tancredo Neves” (R$ 59, 384 pág., De Cultura, 2010), que deu origem ao filme, o escritor e pesquisador Luís Mir afirma que Tancredo Neves (1910-1985) poderia ter tomado posse, em 15 de abril de 1985, não fosse a sucessão de erros médicos.

“Não havia sangramento, não havia urgência. Ele foi mal diagnosticado”, afirma. Para chegar a essa conclusão, Mir analisou os prontuários médicos do político, desde a sua primeira consulta, em Brasília, até a morte no Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas), em São Paulo. “A partir dessa investigação, é possível entender a escalada de eventos que levou a óbito o presidente.”

A pesquisa não foi fácil. O prontuário estava guardado em um cofre e foi cedido ao escritor por um amigo, que fez parte da equipe que atendeu o presidente e lhe disse: “Chega de esconder essa história. Você quer contar a verdade, Luís? Aqui está o prontuário.”

Mir, então, explicou à família de Tancredo Neves o que tinha descoberto. “Eles ficaram chocados.” O escritor conseguiu autorização irrestrita para a pesquisa. “Não foi desmentida uma vírgula do livro.” Segundo ele, a classe médica “acolheu a obra e lhe agradeceu por dar luz aos fatos.”

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