Carnaval

Sem status de celebridade, rainha da Mangueira ouviu de professora que não teria profissão

Hoje na segunda graduação, Evelyn Bastos escutou de docente que só conseguiria 'se casar com gringo'

Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira, durante desfile no dia 4.mar.2019 Sergio Moraes/Reuters

Sarah Mota Resende
São Paulo

Na contramão das escolas de samba que convidam artistas e celebridades para ocupar o posto de rainha de bateria, um dos ofícios mais visados antes e durante os desfiles, a Mangueira mantém na função, desde 2014, a passista Evelyn Bastos, 25 anos, profissão professora e estudante. 

"Eu sempre vejo isso [de ser rainha de bateria] por um lado de responsabilidade cultural. A nossa cultura precisa ser alimentada, precisa ser nutrida para as crianças que acompanham a gente. Cada mulher que tem a coroa de rainha de bateria precisa ter essa consciência. Ter uma rainha da comunidade é a forma mais bonita de manter essa cultura viva no coração das crianças da própria comunidade", defende Evelyn.

Na Mangueira desde que tinha quatro anos, Evelyn é filha de uma ex-rainha de bateria da escola, Valéria Bastos, que esteve à frente dos ritmistas da agremiação de 1987 a 1989. 

"Comecei na Mangueira quando era muito pequenininha, seguindo a minha mãe, que sempre teve uma história toda vinculada ao samba. Ela me fez crescer ali dentro da escola de samba, dentro dos projetos sociais da escola. Então quando eu me dei conta por gente eu já conhecia a Mangueira e a escola já fazia parte da minha vida. Eu cresci ali dentro", disse ao F5. 

Formada em educação física pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Evelyn agora cursa história numa instituição particular. Em paralelo, ela também toca um projeto de dança chamado "Quadril de Mola", uma espécie de workshop de samba que corre o mundo ensinando o ritmo. 

 

"No ensino médio, uma vez uma professora perguntou aos alunos o que queríamos ser, qual profissão queríamos seguir. Na minha vez, ela olhou para mim e disse, como se eu fosse um objeto: 'Eu não te vejo em nenhuma profissão, eu te vejo casando com um gringo e morando fora do Brasil'. Eu tinha 16 anos e fiquei quieta. Eu estava naquele colégio desde que tinha 11 anos e não queria que meus colegas me vissem daquela maneira que ela me reduziu."

Sexta escola a desfilar na Sapucaí, no Rio de Janeiro, na segunda noite de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, a Mangueira entrará no sambódromo na madrugada desta terça-feira (5) com um enredo de cunho político intitulado "História para Ninar Gente Grande", que homenageia mulheres corajosas do Brasil —o que inclui a ex-vereadora Marielle Franco, assassinada há quase um ano.

"Eu venho representando Esperança Garcia, que foi a primeira advogada do Piauí. Ela foi uma das primeiras escravas alfabetizadas. Então ela tem uma história de muita coragem, de muita bravura", afirma Evelyn. ​

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