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No Limite: Ariadna tem razão ao dizer que trans não tem privilégio no Brasil

Influenciadora discutiu com Íris ao falar que precisou se prostituir

Ariadna Arantes

Ariadna Arantes Gabriela Nascimento/Globo

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Gonçalves (MG)

Ariadna Arantes, 36, estava certa. O simples fato de ela ser uma pessoa transgênero já a deixa numa posição bem abaixo da pirâmide social no Brasil.

A ex-BBB e hoje integrante do reality “No Limite” (Globo) discutiu no segundo episódio do programa com sua parceira de equipe Íris Stefanelli, 41, sobre o fato de ela ter se prostituído por falta de oportunidades de emprego. “Só o fato de ser uma mulher trans já me tira todos os privilégios”, afirmou.

Sem concordar com a opinião de Ariadna, Íris argumentou que a influenciadora digital tinha, sim, outras opções de sobrevivência na vida. Ariadna, então, afirmou que Íris não poderia julgá-la, uma vez que ela é “uma mulher loira, branca, cisgênero, de olhos claros e que teve acesso a muitas oportunidades”.

Nascida no Rio de Janeiro, Ariadna conseguiu projeção nacional após ser a primeira trans a participar do Big Brother Brasil, na 11ª edição do programa. Foi capa da revista Playboy e hoje tem residência fixa na Itália. Mas pessoas iguais a ela, no Brasil, ainda vivem sob o peso da violência, do preconceito e da invisibilidade.

Sem conseguir posições de trabalho formal, a maioria das pessoas trans são expulsas de casa quando revelam sua identidade de gênero para a família. E isso acontece, geralmente, na adolescência. Na rua e sem escolaridade completa ou profissão definida, acabam tendo na prostituição a única opção de sobrevivência. Caso de Ariadna.

E é na rua que o calvário das pessoas trans que se prostituem começa. Mais vulneráveis, são expostas ao tráfico de drogas e a todo tipo de violência. Poucas são as que sobrevivem aos espancamentos, aos linchamentos e aos massacres promovidos por pessoas que têm ódio de suas existências.

O crime de transfobia, equiparado ao racismo pelo STF (Supremo Tribunal Federal), muitas vezes não é investigado como deveria pela polícia e a marginalização contra a vida das pessoas transgênero só se aprofunda.

O Brasil é considerado em diversos rankings internacionais como o país que mais mata a população trans entre as grandes nações. E nem a pandemia de Covid-19 freou essa matança.

Segundo a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), ao menos 175 assassinatos contra pessoas trans foram registrados em 2020 –uma alta de 41% em relação ao ano anterior. Nos quatro primeiros meses deste ano, a entidade já anotou mais 56 mortes violentas contra travestis e homens e mulheres trans.

O fator racial é ainda mais decisivo. Cerca de 80% dos casos de assassinato, ainda segundo a Antra, são praticados contra pessoas trans pardas e pretas que vivem da prostituição. “Pois esse grupo representa a maioria dos assassinatos e está diretamente expostas a diversas formas de violência, negação de acesso a direitos e, consequentemente, da precarização de suas vidas”, diz o relatório da entidade.

Apesar da trágica realidade, os governos que se sucederam no Palácio do Planalto pouco fizeram para saber como é e como vive essa parcela da população.

O governo federal tem minimizado as questões relacionadas à LGBTfobia por causa das posições do atual presidente, Jair Bolsonaro (sem partido), que declarou já durante o seu mandato, em 2019, que o Brasil “não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay” porque aqui “temos famílias”.

O preconceito institucionalizado, como as entidades classificam a morosidade dos governos na promoção de políticas para esse público, se revela no apagão de dados estatísticos que, por sua vez, respaldariam iniciativas para elevar a escolaridade e a inserção de pessoas trans no mercado de trabalho formal mais digno e seguro.

Tudo o que se sabe sobre a população de homens e mulheres trans e das travestis é embasado em estimativas. A Antra calcula que 1,9% da população brasileira seja composta por pessoas trans. O Grupo Gay da Bahia diz que o país possui, ao menos, 1 milhão de transgêneros.

Outra estimativa, ainda mais cruel, diz respeito à expectativa de vida das pessoas trans. No Brasil, elas vivem, em média, 35 anos. A idade é 38,1 anos menor em relação aos homens cisgênero, que podem atingir até os 73,1 anos; e 45,1 anos abaixo das mulheres cis, de acordo com dados, de 2019, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A cidade de São Paulo é a única que faz um mapeamento social da população trans. Mesmo realizado por amostragem, ou seja, nem todas as pessoas trans que vivem na metrópole foram pesquisadas, os dados mostraram o fosso social pelo qual essas pessoas são submetidas.

Entre as pesquisadas, 43% declararam ter sido vítima de violência física devido à sua identidade de gênero. A prevalência das agressões é ainda maior entre travestis (58%) e mulheres trans (45%) que responderam à pesquisa.

Ambos os tipos de violência —física e verbal— ocorreram principalmente nas ruas e nas escolas, dois ambientes fundamentais para o convívio social e o exercício da cidadania.

São poucas as pessoas trans nas escolas e, tampouco, no ensino superior. A Andifes (entidade que representa os reitores das universidades federais) localizou apenas 0,1% de homens trans e 0,1% de mulheres trans entre os estudantes nas federais do país.

É por tudo isso que Ariadna esboçou preguiça na discussão que teve com a colega de confinamento. “Eu acho muito chato ter quer ficar debatendo isso. Ficou chato e eu preferi sair de perto. Eu gosto dela [Íris] e ela tem muito o que aprender ainda sobre isso”.

A equipe que coordena as redes sociais de Íris pediu desculpas públicas à Ariadna. O primeiro passo foi dado.

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