Celebridades

Ellen DeGeneres não é tão boazinha quanto você imagina

Especial lançado na Netflix satiriza imagem da apresentadora como pessoa acessível e simples

Ellen DeGeneres - NYT

Ellen DeGeneres está cansada de dançar, e, pensando bem, alguém pode culpá-la? Ela deve ser a única mulher de 60 anos de idade nos Estados Unidos que tem a obrigação de dançar com completos desconhecidos onde quer que vá. "Há momentos em que alguém quer uma foto, estou lá posando para o selfie, e de repente a pessoa reclama que não estou dançando", disse DeGeneres em seu escritório no estúdio da Warner Bros. em Burbank, Califórnia. "Estou andando pela rua, é claro que não estou dançando".

Ao se preparar para o lançamento de seu primeiro especial de comédia em 15 anos, DeGeneres está pensando em uma mudança muito maior: abandonar o talk show que leva seu nome, e está em cartaz há muito tempo. Ela vem recebendo conselhos conflitantes da mulher, a atriz Portia de Rossi, e de seu irmão mais velho, Vance DeGeneres, comediante, e já mudou de ideia sobre o assunto mais de uma vez.

Em um momento de transição em sua notável carreira, DeGeneres aceitou conceder uma série de entrevistas, ao longo de dois dias. Ela se tornou a sucessora de Oprah Winfrey como rainha dos talk shows motivadores exibidos em horário diurno - na medida que em substituir Winfrey é possível - e oferece um oásis de sentimentos positivos e humor escapista, em uma cultura na qual as duas coisas estão em falta.

Mas a posição de DeGeneres como figura símbolo do otimismo traz certas restrições e certas cargas, como a expectativa de que ela dance, o que ela por fim deixou de fazer em seu programa cerca de dois anos atrás, depois de se preocupar muito com a possível reação da audiência.

Em pessoa, ela é mais direta, introspectiva e interessante do que no programa, e se dispõe a expressar momentos amenos de irritação que pareceriam dissonantes diante de uma audiência.

Ela também parece mais dispostas a explorar os desvãos sombrios de sua psique, a falar de arrependimentos, de reconsiderações, de ansiedades persistentes. E se mostra simpaticamente aberta quanto às tensões em sua carreira, entre oferecer um espaço cultural seguro e causar risadas, e diz que aprendeu a se importar menos com que as pessoas gostem dela.

Satirizando sua imagem como uma pessoa acessível e simples, seu surpreendente novo especial ("Relatable", lançado dia 18 de dezembro na Netflix) não só revela uma versão refrescantemente irreverente de Ellen DeGeneres como também oferece uma janela para seu estado de espírito.

Em forte contraste com sua imagem pública como boa amiga de todo mundo, sempre disposta a ouvir, ela se retrata - caricatamente - como uma pessoa isolada e indiferente, aprisionada em uma bolha de privilégios, e brinca diversas vezes sobre sua fortuna fabulosa, por exemplo. (A revista Forbes estima que ela tenha faturado US$ 87.5 milhões este ano, o que torna a 15ª celebridade mais bem paga do planeta.)

Ao mencionar um assento na décima fileira de um avião, ela admite, de um jeito bem sem noção, que a parte traseira dos aviões é um mistério para ela, e pergunta se há assentos lá nos fundos.

Para uma apresentadora de talk show famosa pela cordialidade, é um material arriscado. Mas os gracejos mais chocantes no especial são aqueles que subvertem sua reputação de ser gentil. Depois de toda uma vida de comédia limpinha, ela choca a plateia com um palavrão. A humorista Tig Notaro define o especial como "uma oportunidade que ela estava esperando há décadas". E acrescenta: "E aí você começa a pensar que Ellen é uma pessoa real, e bem boca suja".

Notaro, amiga de DeGeneres e codiretora do especial, com Joel Gallen, disse que embora ela esteja fazendo piadas, todas têm base na honestidade. "Estar aprisionada em um mundo no qual todo mundo pede que ela dance, e as pessoas esperam que seja boazinha - isso acontece, mesmo", disse Notaro por telefone, depois de apontar que DeGeneres na verdade é muito grata pelo sucesso que conquistou.

"Tenho certeza que existem pessoas que acham que tudo isso é brincadeira. Ou que ela nunca tem um dia ruim. Mas ela tem dias ruins. É um dilema interessante que ela enfrenta".

Perguntado sobre os motivos da irmã para voltar ao stand-up, Vance DeGeneres, que foi correspondente do "Daily Show" e ajudou a criar os quadros da série de curtas "Mr. Bill", no "Saturday Night Live", disse que "depois de fazer o programa por 16 anos, isso era inevitável. Ela queria sair não de uma pasmaceira, mas daquele molde".

DeGeneres mesma descreve a coisa de outra maneira, enfatizando o tipo de expressão que o humor stand-up permite. "Eu queria mostrar tudo de mim", ela disse. "O talk show sou eu, mas também interpreto a personagem da apresentadora. Existe uma pequena diferença, pequena mas real".

Porque um talk show diurno atrai menos atenção que os programas simulares exibidos à noite, DeGeneres costuma ser desconsiderada nas discussões sobre os melhores apresentadores.

Mas pode ter certeza: nenhum dos apresentadores de talk shows diários em atividade teve mas sucesso, ou foi mais premiado. A vasta coleção de prêmios de DeGeneres inclui a medalha presidencial da liberdade, o Prêmio Mark Twain de humor americano e 32 Emmys.

E excetuado Conan O'Brien, nenhum outro apresentador tem longevidade semelhante à sua (ela está à frente de seu programa diurno pelo mesmo número de temporadas que Jon Stewart comandou o "Daily Show"), ou influência comparável. Anos antes que Jimmy Fallon transformasse jogos em elemento permanente do "The Tonight Show", DeGeneres já jogava com seus convidados.

Fallon ficou famoso por esses segmentos, e eles foram imitados em outros programas, todos os quais claramente devem alguma coisa a DeGeneres. (No ano passado, ela criou um game show de muito sucesso, "Ellen's Game of Games", que volta para uma segunda temporada em janeiro.) "Fico lisonjeada por ele ter roubado coisas", me disse DeGeneres, acrescentando que "ele disse que roubaria tudo, e portanto está tudo bem".

Durante uma gravação de seu programa em outubro, o maior destaque era o contraste entre o carisma discreto de DeGeneres e a energia caótica, frenética, de sua audiência. Os espectadores são encorajados a sair de seus lugares e dançar, mas não precisam de estímulo; estão prontos para a festa, enquanto DeGeneres projeta uma mistura paradoxal de calor humano e reserva, se engajando ativamente, acenando para as pessoas, ouvindo os convidados atentamente, fazendo um gracejo aqui e ali, mas sem jamais forçar demais.

Com a suprema confiança de uma profissional que já passou por tudo aquilo, ela salta de um monólogo com brincadeiras sobre temas atuais para uma entrevista com um chefe de cozinha que está morrendo de câncer, de uma troca de gracinhas com Sean Hayes, de "Will & Grace", para uma conversa com a diretora assistente de uma escola no Tennessee cujo vídeo de dança ganhou circulação viral.

Alguns convidados choram. Mais de um sai do set com um cheque polpudo. DeGeneres está claramente se divertindo, mas sua energia não varia muito. Ela não parece alguém que está lá só para cumprir um contrato, pronta para se aposentar, e tampouco parece se sentir especialmente motivada.

Depois do programa - mesmo sem maquiagem, ela ainda parece 10 anos mais moça do que é, e seus olhos azuis penetrantes são seu traço mais marcante -, ela se acomoda em um escritório elegante e espaçoso, decorado com quadros, e analisa seu desempenho passo a passo, com a autoridade de um médico que esteja explicando resultados de laboratório.

Na discussão sobre a gravação, ela diz que um de seus maiores desafios envolveu um segmento em que uma menina de seis anos cantou "Meant to Be" em dueto com o pai. Depois de ouvir a menininha cantar para o pai sobre seu coração partido, DeGeneres riu, fora da câmera, deu as costas para a cena e escondeu o sorriso. Foi o momento em que ela pensou em uma brincadeira para usar no final da canção. "Isso foi adorável, e... e... e...", ela disse, com seu gaguejo característico, "muito, muito perturbador".

Ela sabia que a linha causaria uma grande risada, mas será que embaraçaria a menina? Será que ela ficaria magoada? DeGeneres optou por não usar a linha, concluindo que não combinava com seu programa. "Nós procuramos o escapismo, uma hora de boas sensações", ela disse. "No cerne somos um programa de humor, mas mesmo que as coisas não sejam engraçadas, pelo menos fazemos com que as pessoas se sintam bem".

Na manhã seguinte, DeGeneres, usando jeans e uma camisa branca casual, contemplava o oceano de uma mesa em sua casa, na cidade de Carpinteria, perto de Los Angeles, de onde se vê os golfinhos saltando da água. George Lucas vive a duas casas de distância, e Conan O'Brian está no mesmo quarteirão, assim como Ashton Kutcher e Mila Kunis. Ela tem uma fazenda ali perto, e uma casa na cidade, mas parece preferir esse lugar tranquilo, onde pode passear com os cachorros e papear com os vizinhos. "Nunca tinha me sentido tão parte de uma comunidade", ela disse.

O cozinheiro de Ellen nos serviu um drinque, e ela explicou que tinha batalhado por um ano para encontrar um tema sobre o qual valesse a pena fazer comédia. "Eu costumava falar de comida de avião", ela disse, resumindo seu estilo gentil de comédia de observação sobre assuntos cotidianos. "Faço o que, agora?"

Enquanto ela falava, DeGeneres olhou para seu telefone sobre o balcão da cozinha, o apanhou e fez uma ligação.Ela imediatamente ficou tensa. "O que aconteceu?", ela perguntou, em tom preocupado. "Quebrou alguma coisa? Baby". Ela desligou e explicou que de Rossi estava cavalgando e havia caído do cavalo durante um salto e sofrido uma concussão. Ela tinha sido levada ao hospital, e agora estava sendo transportada para a casa da praia.  "Esse é o meu maior medo", disse DeGeneres, em tom preocupado. "Tenho medo por ela o tempo todo".

O clima se tornou mais sombrio, e a entrevista parecia dispensável; mas do mesmo jeito que costuma fazer em seu programa, DeGeneres mudou de marcha, pediu um chá gelado ao cozinheiro e explicou que sua mulher havia ajudado em seu novo especial, indo a todas as apresentações, subindo ao palco e comentando os resultados mais tarde.

Minutos depois, como se por ordem de um roteiro, de Rossi chegou em traje de montaria, glamorosa em calças de equitação e óculos escuros. DeGeneres a abraçou e gritou: "Baby, pare de cavalgar!"

De Rossi parecia ilesa, ainda que sua condição viesse a piorar no dia seguinte, quando ela começou a ter problemas para se concentrar. (Ela está melhorando, mas ainda não está restabelecida.) E ao conversar carinhosamente com a mulher, DeGeneres parecia charmosa e relaxada, e falou efusivamente do especial. "Ela é um pouquinho mais complicada do que parece ser no programa", disse de Rossi. "A gama de emoções é maior".

DeGeneres recentemente exerceu a opção de estender seu contrato - até a metade de 2020 -, ainda que tenha ficado perto de recusar a oferta. Quanto a deixar o programa, ela muda de ideia o tempo todo. O irmão de DeGeneres defende que ela fique, argumentando que, na era de Trump, o país precisa de sua voz positiva e unificadora na televisão a cada dia.

"Só acho que ela é uma atriz e humorista brilhante e que pode usar sua criatividade para outra coisa que não esse talk show", disse de Rossi. "Há outras coisas que ela poderia fazer".

DeGeneres, que no cinema trabalhou principalmente em dublagens de filmes de animação, com destaque para "Procurando Nemo", onde ela fez a voz de Dory, disse que adoraria fazer um filme e interpretar "alguém nada atraente". A mulher dela sugere que ela faça um programa de rádio ou podcast.

"Não vejo o fim do programa como o fim de sua carreira", disse de Rossi. DeGeneres sorriu e pensou sobre o comentário por um segundo. Mas deixou de lado a resposta gentil e partiu direto para a risada: "Você está com uma concussão e não sabe do que está falando".

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacc

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