Celebridades

Depoimento: Ator Hugo Bonemer afirma que a 'sexualidade se descobre, não se constrói'

No Dia do Orgulho LGBT, ele fala sobre medo, mentira e preconceito

O ator Hugo Bonemer
O ator Hugo Bonemer - Gabriel Felix/Divulgação

Hugo Bonemer, 30, primo do âncora do Jornal Nacional William Bonner, aproveitou a pergunta de uma repórter sobre sua suposta namorada para deixar claro: "Não, é ele". Foi assim que o ator tornou pública sua orientação sexual, em março deste ano.

Em suas redes sociais, Bonemer já se posicionava contra a homofobia e pedia por respeito. Em uma postagem de 2017, por exemplo, ele disse que "não há pecado maior do que obrigar alguém a ser infeliz". Na imagem compartilhada, constava a frase "amor alheio não é da conta de ninguém. Discurso de ódio é da conta de todos."  

Nesta quinta (28), em que é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBT, Bonemer, que namora o também ator Conrado Helt, aceitou o convite do F5 para fazer um depoimento contando um pouco sobre sua história, que inclui medo e preconceito dentro da própria família. E conclui: "Tenho que respeitar a verdade de quem não está pronto pra colocar o amor acima de um preconceito". 

 

Quando eu era garoto, questionar se alguém namorava sempre era seguido do coro, meio em festa meio em deboche, do “tá namorando”. Aos 30, um repórter me perguntou se eu namorava e eu disse que sim. Passei tanto tempo com medo de ouvir aquela musiquinha e, de repente, não tive mais. 

Uma vez contei para minha avó a história de um garoto que nasceu ouvindo que estava errado existir. Ele se apaixonava por garotos. Passou a mentir, dizendo que gostava mesmo era das garotas. Exagerava no trato, dizia que gostava muito delas e que odiava muito os outros que não estavam sendo tão espertos quanto ele. Os que não sabiam mentir.

Sempre teve brinquedos de garoto, usava verde e azul, mas seus bonecos do Comandos em Ação namoravam entre si. Mentia bem. Ou quase bem. A escolha para adaptação natural foi mentir. Só que, certa vez, esse garoto ouviu que quem mente para mãe não poderia estar íntegro. Mais de uma vez se deparou com alguém que questionou seu caráter. Isso mexeu com ele.

“Quem mente pra própria mãe é capaz de mentir pra qualquer outra pessoa. Uai... Então quem conta a verdade pra mãe logo não tem medo de contar a verdade pra quem quer que seja?” É. A escolha passou a ser a felicidade.

Minha avó achou tudo lindo. Disse que esse garoto tinha, era, que ser feliz! Eu disse a ela que o garoto era eu. Ela não fala comigo desde então. Mas essa escolha já é dela. 

Contar a verdade mostra as verdadeiras cores das pessoas. Dói perder algumas delas. Eu compreendo que as pessoas cresceram acreditando, ouvindo e repercutindo que todo mundo nasce igual e qualquer coisa diferente é algum tipo de defeito. Que sexualidade se constrói com boa educação. Eu não tenho muque para enfrentar tantos anos de repetição.

Ainda assim, a verdade é o que mais nos falta e isso qualquer um respeita. Esse valor qualquer um reconhece. O que vamos fazer a partir daí é só incerteza. Sexualidade se descobre, não se constrói. Essa é a minha verdade. Eu tenho que respeitar a verdade de quem não está pronto pra colocar o amor acima de um preconceito. Que chama desamor de opinião. Que diz que está tudo bem desde que não veja.

Eu determino o meu espaço e torço pela regulamentação do que é crime, para que menos gente ache que mentir é uma possível escolha, e que aqueles que não quiseram ou souberam mentir não sofram, não devolvam, e não se vejam na posição de vilões, cobrando uma conta que não dá para pagar.

Sempre que alguém fala em escolhas penso logo em samba-enredo. Um ano de trabalho de tanta gente talentosa, e me corta o coração quando o que cantam não acompanha a graça da avenida. Penso em letras que não fazem sentido e parecem ser um apanhado de metáforas (aparentemente) a pedido de patrocinadores.

“O lobisomem veio ao céu, an-ga-ri-oou, na luz de um vagalume antecipou, sempre lado a lado...” E tantas frases que me fazem pensar nas escolhas que faço na vida. Perceba em um samba-enredo de hoje em dia a quantidade de talento e criatividade diluídos em escolhas. Fico com medo de transformar a minha vida num samba-enredo assim. Foco no “Explode Coração” por algum tempo, mas, no fundo, sei que uma eternidade dessas também não é palpável. Então, o que eu quero?

Se minha vida inteira fosse o trabalho de um ano de uma escola de samba, meu maior medo seria carregar uma fantasia de 80 kg ao longo dessa avenida enquanto alguém canta a minha vida por mim. Será que a minha alegria estaria representada naquela letra? E a minha dedicação de um ano de trabalho? Minha dor? Suor? E o sorrisão abertão do “apesar de tudo”. Na dúvida do que vou ouvir sobre mim nesse samba, prefiro me imaginar pelado, sem peso nos ombros, vulnerável e forte ao mesmo tempo.

Hugo Bonemer é ator, dublador e músico. Já atuou em novelas como "Malhação" e "A Lei do Amor" e em peças como "Ayrton Senna, o Musical" e "Yank! O Musical"

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