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Cientista avalia por que focas-monge havaianas estão sendo encontradas com enguias nas narinas

As focas não tiveram problemas após remoção de enguias já mortas

Jovem foca-monge com enguia morta presa na narina
Jovem foca-monge com enguia morta presa na narina - Handout

Allyson Chiu

A jovem foca-monge havaiana parece relaxada, repousando sobre folhagens verdes perto de uma praia de areia branca. Seus olhos estão semicerrados e a expressão em seu rosto é serena. Mas o jeito pacato da foca surpreende.

Por quê? Bem, há uma longa enguia, branca e preta, pendente de uma de suas narinas. “É muito chocante”, disse a veterinária Claire Simeone, especialista em focas-monge radicada no Havaí, em entrevista ao The Washington Post na quinta-feira (6). “Um animal com outro animal enfiado no nariz”.

Simeone não foi a única pessoa a se chocar com a foto da foca e seu ornamento facial inesperado, postada esta semana no Facebook pelo programa de pesquisa sobre focas-monge da Administração Nacional da Atmosfera e Oceano dos Estados Unidos.

A foto —registrada este ano em uma ilha remota na região noroeste do Havaí— ganhou circulação viral, atraindo atenção a um raro fenômeno que continua a intrigar os cientistas, que agora estão pedindo às focas-monge, uma espécie ameaçada, que “façam escolhas melhores”.

Tudo começou dois anos atrás quando Charles Littnan, diretor científico do programa de pesquisa sobre as focas, encontrou em sua caixa de entrada, ao acordar, um estranho email de um de seus pesquisadores de campo. A descrição do assunto era curta: “Enguia no nariz”.

“A mensagem dizia que eles tinham encontrado uma foca com uma enguia enfiada no nariz, e eles queriam saber se existia um protocolo para isso”, disse Littnan ao jornal The Washington Post em entrevista por telefone.

Littnan respondeu que não, e foram necessários mais diversos telefonemas e emails para que os cientistas chegassem à decisão de que tentariam agarrar a enguia, puxando-a para fora da narina da foca.

“Na verdade, havia apenas cerca de cinco centímetros da enguia pendendo para fora do nariz, e a sensação era a daquele truque de mágica em que o prestidigitador puxa uma série de lenços de dentro do nariz de alguém, e os lenços não terminam nunca”, ele disse. 

Depois de quase um minuto de esforço, uma enguia morta de 75 centímetros de comprimento emergiu da narina da foca. Desde então, Littnan disse que pelo menos mais três ou quatro casos semelhantes chegaram ao seu conhecimento —o mais recente dos quais nas últimas semanas.

Em todos os casos, as enguias foram removidas com sucesso e as focas “estavam muito bem”, ele disse. Nenhuma das enguias sobreviveu, no entanto.

“Não temos ideia de por que isso começou a acontecer, repentinamente”, disse Littnan. “Se você passa muito tempo observando a natureza, vê muita coisa esquisita acontecendo, e pode ser que esses casos venham a ser daquelas esquisitices e mistérios que todos encontramos ao longo de nossas carreiras, e que ainda estaremos questionando para determinar exatamente o que aconteceu, daqui a 40 anos quando estivermos aposentados”.

Os pesquisadores já determinaram que nenhum dos incidentes envolve um ser humano com algum motivo pessoal de vingança contra as focas e as enguias, porque todos os casos reportados aconteceram em ilhas distantes frequentadas apenas por cientistas. Littnan disse ter algumas teorias sobre como uma enguia poderia se enfiar naturalmente na narina de uma foca.

As presas preferenciais das focas —em geral peixes, polvos e, claro, enguias— gostam de se esconder em recifes de coral para evitar predadores e, porque os mamíferos marinhos não têm mãos, eles usam seus focinhos para a caça.

“Gostam de enfiar o focinho nos buracos dos recifes de coral, e cospem água com suas bocas para forçar as criaturas a sair; as focas têm muitos truques, mas basicamente elas estão enfiando o focinho em um buraco”, disse Littnan.

Talvez uma enguia encurralada decida que a única maneira de escapar ou se defender seja nadar para dentro da narina do atacante, ele disse, e focas jovens, que “não são muito competentes na obtenção de comida, ainda”, podem ter de aprender uma dura lição.

Mas Littnan disse que essa teoria não faz muito sentido. “Trata-se de enguias realmente longas, e o diâmetro delas provavelmente é bem próximo ao da passagem nasal”, ele disse.

Littnan acrescentou que as narinas de uma foca-monge, que se fecham reflexivamente quando elas mergulham em busca de alimentos, são muito musculosas e que seria muito difícil para um animal forçar a entrada.  “Para mim é difícil imaginar que uma enguia realmente queira forçar seu caminho para dentro de um nariz”, ele afirma.

A outra maneira pela qual enguias poderiam terminar dentro das narinas de focas envolve vômito. Do mesmo jeito que uma pessoa pode derramar acidentalmente pelo nariz comida ou bebida ingerida pela boca, as focas, que costumam regurgitar sua comida, estariam sujeitas a incidentes semelhantes.

Mas Littnan diz que não parece possível que “uma enguia longa e gorda” termine expelida pela narina de uma foca em lugar de por sua boca. A teoria “mais plausível”, ele disse, é que as focas-monge adolescentes não diferem muito dos seres humanos dessa faixa de idade. As focas-monge parecem ter uma atração natural por se envolverem em situações problemáticas, disse Littnan.

“Parece ser uma dessas tendências adolescentes que simplesmente acontecem”, ele disse. “Uma foca jovem faz algo de muito estúpido e agora as demais estão tentando imitá-la”.

Ainda que nenhuma foca tenha morrido ou sofrido lesões sérias por conta das enguias, ter um animal morto na narina por período prolongado pode ter efeitos adversos sobre a saúde, disse Simeone, diretora do Ke Kai Ola, um hospital para focas-monge operado pelo Centro de Mamíferos Marinhos no Havaí.

Com uma enguia alojada no nariz, uma foca-monge não poderia fechar a narina bloqueada, ao mergulhar, e isso quer dizer que poderia acumular água nos pulmões, o que causa problemas como a pneumonia, disse Simeone. Ter a carcaça em decomposição de uma enguia dentro do nariz também poderia resultar em infecções, ela afirmou.

No Facebook, a foto da foca havia atraído mais de 1.600 comentários, pela manhã da sexta-feira (7). A legenda diz: “Segundas-feiras... a sua pode não ter sido muito boa, mas com certeza ter uma enguia no nariz é bem pior”. A imagem também entrou nos “trending topics”, a lista de assuntos mais comentados, do Twitter.

Muita gente expressou simpatia pela foca, que teve de experimentar o que um comentarista descreveu como “a coisa mais desconfortável de todos os tempos”. “Descanse em paz, enguia, mas você consegue imaginar a satisfação da foca quando ela foi removida?”, outra pessoa comentou.

Littnan disse ao The Washington Post, porém, que a jovem foca “parecia bastante indiferente ao fato de que mais de 60 centímetros de enguia estavam pendurados de seu nariz”. Simeone disse que os animais marinhos são em geral “bastante estoicos”, acrescentando que “é espantosa a capacidade deles de tolerar dificuldades”.

“Cafungar enguias” parece não ter se tornado uma prática comum na comunidade das focas, até o momento, e Littnan diz que espera que isso nunca aconteça. “A esperança é que seja uma onda de coincidências, que desapareça sem jamais retornar”, ele disse.

Se as focas-monge fossem capazes de compreender o que os seres humanos dizem, Littnan disse que teria uma mensagem para elas: “Eu pediria gentilmente que parassem com isso”.
 

The Washington Post

Tradução de Paulo Migliacci

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