Bichos

Medicamento para leishmaniose visceral em cachorros divide os especialistas pelo alto custo

Tratamento envolve um coquetel de medicamentos, como antibióticos, suplementos e vitaminas

Mariana Parussolo com a cachorra Cacau, o marido, Renato Cavalcanti, e o filho, João
Mariana Parussolo com a cachorra Cacau, o marido, Renato Cavalcanti, e o filho, João - Danilo Verpa/Folhapress

Karina Matias
São Paulo

O que você faria se descobrisse que o seu cachorro está com leishmaniose visceral? Até o final de 2016, não havia escolha: determinação do Ministério da Saúde obrigava o dono a sacrificar o animal. Desde aquele ano, porém, o go­verno autorizou o uso do remédio Mil­tefosina contra a doença. Embora seja
um alento, o tratamento é polêmico.

O principal problema, segundo espe­cialistas, é que ele não elimina 100% do parasita causador da enfermidade. Apesar de não ser transmissor da leish­maniose visceral (o vetor é o mosquito-palha), o animal é reservatório da doença.

Além disso, o remédio tem cus­to elevado, entre R$ 700 e R$ 1.800. O tratamento envolve um coquetel de ou­tros medicamentos, como antibióticos, suplementos e vitaminas, além do uso de repelentes. Ainda que o animal reaja bem ao tratamento, exames periódicos são necessários para monitorá-lo.

O infectologista Luiz Carneiro, coor­denador de um estudo da Unoeste (Uni­versidade do Oeste Paulista) sobre a ex­pansão da doença em humanos no es­tado de São Paulo, vê com preocupação o uso do Miltefosina para animais.

"Não existem grandes estudos sobre a sua eficácia. Em outros países, esse medica­mento é usado em humanos. E, se tiver­mos de utilizá-lo aqui também, podere­mos diminuir o seu efeito aplicando nos
animais agora”, afirma.

Isso porque o parasita pode ficar resistente ao remé­dio com o passar do tempo. A leishmaniose tem avançado em municípios do estado e pode chegar em breve à capital. Nos seres humanos, o tratamento para leishmaniose é gratui­to e oferecido pelo SUS, mas não elimi­na 100% o parasita. Se não for realiza­
do, pode matar em 90% dos casos.

O veterinário Márcio Moreira, que es­tuda a leishmaniose desde 2002, afirma que a política da eutanásia dos animais não se mostrou eficaz, já que a doença vem se expandindo. A veterinária Carolina Montemurro, que resgatou no Rio o cachorro Joca, portador da leishmaniose, concorda. “E a minha experiência de tratamento com o Joca vem sendo ótima.”  ​

Ela acredita que ainda há muita falta de informação sobre o assunto e, por isso, mantém a página “Diário de um Cão com Leish­maniose” no Facebook. Em regiões em que a doença já é en­dêmica, os especialistas indicam que o melhor caminho é a prevenção. A reco­mendação para o animal é combinar
diferentes métodos, como a vacina e o uso de coleiras inseticidas, já que ne­nhuma delas têm 100% de eficácia.

O veterinário Moreira lembra ainda que, se a pessoa não tem condições de pagar o tratamento, deve optar pelo sa­crifício do animal. “Nós brigamos para que os donos tivessem o direito de tra­tar seus bichos, mas, se não há possibi­lidade, a eutanásia deve ser feita. Além do risco a que expõe o humano, o ca­chorro definha com a doença.”

Mesmo em dificuldades financeiras, a nutricionista Mariana Parussolo, 26, não teve dúvidas sobre o que fazer quando recebeu o diagnóstico de que sua cachorrinha, Cacau, estava com leishmaniose  visceral.

“As veteriná­rias explicaram que era um trata­mento caro e que a Cacau precisaria ser monitorada pelo resto da vida. Mas, para nós, ela é como uma filha. Se fosse alguém da família, eu iria matar? Se existe uma chance, va­mos tentar”, contou. Ela diz que a cachorra está melhor desde que iniciou o tratamento.

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