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Como o arame farpado mudou a propriedade privada

Um invento simples que se converteu em símbolo de uma nova fase do capitalismo
Um invento simples que se converteu em símbolo de uma nova fase do capitalismo - ISTOCK


Selo BBC Brasil

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Corria o ano de 1876 quando um jovem americano chamado John Warne Gates construiu um curral em um forte em San Antonio, no Estado do Texas. Nele, colocou uma raça de gado supostamente forte e selvagem.

Conhecido como apostador inveterado, e apelidado de "Aposto um milhão" Gate, ele começou a aceitar apostas sobre como os animais poderiam romper aquela cerca de curral aparentemente frágil. O gado nunca o fez. Nem mesmo quando o ajudante de Gates, um vaqueiro mexicano, começou a perseguir os animais com um ferro quente em punho.

Mas Gates não estava tão interessado em apostas assim. Seu maior objetivo era vender um novo tipo de arame --o farpado. E logo os pedidos começaram a chover. A propaganda assegurava que o arame farpado era "a maior invenção da década". Gates tinha um descrição mais poética: "Mais leve que o ar, mais forte que uísque e mais barato que poeira".

Chamar o arame farpado de maior invenção de sua época é algo exagerado, até porque já se sabia que naquele período o escocês Alexander Graham Bell (1847-1922) estava a ponto de patentear o telefone.

É fácil entendermos como o telefone mudou o mundo, mas o arame farpado também causou grandes transformações. E de forma muito mais rápida.

O design criado pelo americano Joseph  Glidden não foi o primeiro para o produto, mas é usado até hoje em terras ao redor do mundo: arames pontudos que se retorcem ao redor de arames lisos. Fazendeiros compraram toneladas do produto. E tinham motivos para a correria aos armazéns.

MARCANDO TERRITÓRIO

Em 1862, o então presidente dos EUA, Abraham Lincoln, tinha sancionado a Lei da Propriedade Rural. A norma especificava que qualquer cidadão, incluindo mulheres e escravos libertados, tinha direito à posse de uma propriedade de até 160 hectares nos territórios do oeste do país, desde que construíssem uma casa e cultivassem a terra por um período mínimo de cinco anos.

Algo simples na teoria, mas complicado na prática, já que a região era mais apta para a vida nômade, sem falar que as terras pertenciam aos povos indígenas. E as extensas pradarias eram usadas também por vaqueiros como pastagem para o gado.

Para os novos colonos ter cercas era fundamental para evitar que o gado destruísse suas plantações. E não havia madeira suficiente para fazer metros e metros de cerca. Para tudo isso, o arame farpado foi a solução.

As farpas conseguiram colocar a Lei de Propriedade Rural em prática. Até ser sancionada por Lincoln, a propriedade privada nos territórios do oeste era incomum, por ser pouco viável em uma área extensa e vazia.

Mas o arame farpado também motivou conflitos: os novos colonos não hesitaram em demarcar terras que pertenciam a tribos indígenas. E não é surpreendente que os índios tenham apelidado o arame farpado de "corda do diabo".

Os cowboys também o odiavam. Antes acostumados a ver os animais pastando livremente, agora tinham que lidar com feridas e infecções. E milhares de animais morriam enganchados nas cercas durante tempestades de neve.

"Me irrita", escreveu um vaqueiro em 1883, "quando penso nas cebolas e batatas crescendo onde cavalos deveriam estar se exercitando". Se os cowboys estavam furiosos, imaginem os indígenas.

A grande maioria das economias modernas se baseiam na propriedade privada --o conceito legal de que quase tudo tem dono. As economias modernas também partem da ideia de que a propriedade privada é algo bom porque incentiva pessoas e empresas a investir e melhorar aquilo que é seu, seja um terreno no Velho Oeste americano ou a propriedade intelectual do Mickey Mouse.

O argumento foi usado de maneira implacável por quem defendia que os indígenas dos EUA não tinham direitos sobre seus territórios porque não os desenvolviam da forma que o homem branco considerava correta.

Sendo assim, a forma como o arame farpado transformou o Velho Oeste é também a história de como os direitos de propriedade mudaram no mundo. É também a história de como, até em economias sofisticadas, há ocasiões em que a letra da lei importa menos do que é possível fazer na prática.

A Lei da Propriedade Rural de 1862 estabeleceu as regras sobre quem era dono das terras do Velho Oeste. Mas essas regras não significaram muita coisa até serem implementadas por meio do arame farpado.

Os barões do arame, incluindo Joseph Glidden, ficaram milionários. No ano em que Glidden obteve a patente de seu arame, foram produzidos 51 km do produto. Apenas quatro anos mais tarde, sua fábrica entregou 423 mil km, o suficiente para dar dez voltas ao redor da Terra.

Tim Harford escreve uma coluna de economia no "Financial Times". "As 50 coisas que fizeram a economia moderna" é um programa transmitido no Serviço Mundial de rádio da BBC.

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