Tony Goes

Ex-'túmulo do samba', São Paulo em breve terá o maior Carnaval do país

Te cuida, Salvador. Fica esperto, Rio de Janeiro. Uma cidade inesperada está prestes a disputar com vocês o título de capital do Carnaval brasileiro: São Paulo, terra da garoa e da dura poesia concreta de suas esquinas.

Sim, São Paulo, que amargou durante décadas o apelido cruel impingido por Vinícius de Moraes: o túmulo do samba. Na verdade, o poetinha só estava reclamando do barulho da plateia da boate Cave, em 1960. Mais tarde, chegou a assinar uma parceria com o maior sambista paulistano de todos os tempos, Adoniran Barbosa.

Mas o epíteto pegou e, durante muito tempo, soou perfeitamente justo. São Paulo de fato se esvaziava durante o tríduo momesco. Quem podia, se mandava da cidade; quem ficava, se trancava em casa, vendo pela TV os outros estados se esbaldando.

Claro que já existiam as escolas de samba paulistanas —que, no entanto, não competiriam sequer no Grupo de Acesso de suas rivais cariocas. Mas o tamanho e a importância econômica da cidade fizeram com que um sambódromo fosse construído, e que cada vez mais celebridades se dispusessem a encarar a folia no Anhembi.

Hoje agremiações como a Vai-Vai, a Rosas de Ouro e a Nenê de Vila Matilde já são reconhecidas nacionalmente. O samba paulistano encontrou seu estilo próprio, sem copiar o de outros lugares. Mas uma revolução ainda maior aconteceu nos últimos anos: a explosão do Carnaval de rua.

Os sinais já estavam no ar. A alma festeira da cidade já se manifestava na Parada Gay, que em poucas edições se tornou a maior do planeta, e até em eventos religiosos como a Marcha para Jesus.

Mas também é verdade que o ressurgimento do Carnaval de rua não começou em São Paulo. A rigor, foram os cariocas que retomaram uma de suas mais divertidas tradições, depois de décadas confinados aos bailes nos clubes e à Marquês de Sapucaí.

Os neo-blocos foram se proliferando aos poucos pelo Rio, desde o advento da Banda de Ipanema em 1965. Alguns são imensos e organizados; outros, surgidos por geração espontânea. Hoje são eles que dão a tônica da festa na cidade, mais do que qualquer Mangueira ou Baile do Havaí.

Como muitos paulistanos eram frequentadores assíduos da fuzarca fluminense (e também da baiana e da pernambucana), era só questão de tempo que a onda batesse aqui. Ela chegou aos poucos, no começo dos anos 1990, ocupando espaços ainda virgens de folia como a avenida Faria Lima.

Agora São Paulo tem milhares de bloquinhos (como dizem os locais), inclusive para bebês e animais de estimação. E nenhum é mais gigantesco que o Acadêmicos do Baixo Augusta, fundado pelo agitador cultural Alê Youssef.

Tanta animação é reflexo da população paulistana, que reúne gente de todo o Brasil e do mundo. Também é sintoma de uma nova conscientização, que faz os cidadãos reclamarem de volta os espaços públicos.

O resultado é que, neste último final de semana, me aconteceu algo totalmente inusitado: cruzei com uma amiga carioca que veio pular em Carnaval em São Paulo. Quem te viu, te vê, hein, SP?

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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