Thiago Stivaletti

'A Lei do Amor' é uma novela quase mexicana

"Sabe o que eu quero mesmo? Que você morra", diz Helô (Claudia Abreu) ao marido, o vilão Tião (Zé Mayer).

"Não seja por isso", responde.

Tião volta com uma caixa fechada e pede para Helô abrir.

"Um presente pra você. Abra." 

(Música de suspense. É um punhal)

"Você ficou louco?", pergunta a mulher.

"Eu só quero realizar o seu desejo. Você não quer que eu morra?", responde o vilão.

Algumas cenas antes, Tião se encontra em um quarto com Camila (Bruna Hamú), neta de seu antigo amor, a pérfida Magnólia (Vera Holtz).

"Na sua profissão, não se pode discriminar quem pode pagar uma boa prostituta", ele diz. "Eu não sou prostituta", rebate a moça. "É sim!", grita Tião, jogando-a com força na cama —algumas cenas depois, Camila também vai ser humilhada pela avó na mesa do jantar.

Se você tinha saudade daquela série "Dallas", ou de novelas como "A Usurpadora", a nova novela das 21h, "A Lei do Amor", pode cair bem.

A história de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari tem os ingredientes de um novelão mexicano com um pé no cafona: duas famílias lideradas por gente rica e manipuladora (Zé Mayer em uma, Vera Holtz na outra); um patriarca em coma que pode acordar e revelar seus segredos a qualquer momento (Tarcísio Meira, que só aparece para mexer os olhos em meio a tubos e aparelhos) e (claro) o amor impossível dos mocinhos, Claudia Abreu e Gianecchini.

Já foi uma mudança de tom em relação aos primeiros capítulos, mais fofinhos, em que o amor de Helô e Pedro jovens lembrava mais uma novela água-com-açúcar de Manoel Carlos.

O que se sabe é que "A Lei do Amor" teria um tom ainda mais pesado, mas a Globo pediu que os autores suavizassem o tom, já que "Babilônia" e "A Regra do Jogo" tiveram problemas de audiência.

Na comédia, o ponto alto é Grazi Massafera como a luxuosa e ambiciosa Luciane, com as melhores falas da novela. Na outra ponta, Claudia Raia está perdida num personagem nem tão cômico nem tão dramático. O mesmo se pode dizer de Heloísa Perissé.

Como não vai muito bem de audiência (mas tampouco é um total fracasso), pode-se pensar que o público não embarcou ainda nesse tom meio sinistro da trama. E temo um pouco pelo futuro da história: os conflitos parecem estar todos armados, e deve ser difícil manter o mesmo ritmo de reviravoltas por mais cinco ou seis meses.

Não importa o que aconteça, a Globo parece ter um grande abacaxi nas mãos com o horário das 21h, que sempre teve um público cativo mais adulto e escolarizado, que hoje está mais interessado nas séries, dentro e fora da Netflix.

Já os roqueiros...

Enquanto isso, "Rock Story", a nova novela das 19h não é nenhum Mick Jagger, mas começou muito bem. A autora, Maria Helena Nascimento, assina sua primeira novela sozinha, depois de muitas colaborações com Gilberto Braga ("Celebridade", "Paraíso Tropical").

O excesso de atores muito jovens, boa parte vindos da "Malhação", prejudica um pouco, mas o ritmo é ágil, a direção de Dennis Carvalho faz diferença, e os conflitos (pai descobrindo um filho bastardo de 16 anos; o cantor jovem roubando espaço do roqueiro decadente) estão rendendo boas cenas.

Só é difícil entender Diana, o personagem de Alinne Moraes, trocando Gui Santiago (Vladimir Brichta), que nem parece tão mau marido assim, por Léo Régis (Rafael Vitti), um moleque de 21 anos, vaidoso e boçal. Mas paciência, só assim a história vai pra frente.


Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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