Thiago Stivaletti

Antes da ilha de 'Lost', havia a ilha de 'A Gata Comeu'

Há alguns anos, marmanjos viciados em séries viviam obcecados pelos mistérios da ilha de "Lost". Muito mais inspiradora era uma ilha deserta lá da nossa infância, perdida em algum lugar um pouco antes de Angra dos Reis. A ilha onde o professor Fábio vivia aos tapas com a mimada Jô Pentedado, onde Zé Mayer e Roberto Pirillo desfilavam seus corpinhos ainda sarados usando apenas uma leve tanga, e onde o casal Tetê e Gugu vivia à beira de um colapso. Era a ilha de "A Gata Comeu".

Metade dos personagens da novela ficava isolada nessa ilha não sei por quanto tempo pelo que leio foram cerca de dois meses, mas claro que, na memória de uma criança, foi algo imenso, equivalente a um ano.

Abaixo, cinco lembranças fortes que fazem valer a pena ver de novo a novela de Ivani Ribeiro que foi ao ar em 1985 e reestreou esta semana no canal pago Viva:


  • "Bateu, levou!" - Sem a química que rolou entre Christiane Torloni e Nuno Leal Maia, "A Gata Comeu" não teria decolado. Desde o segundo capítulo, quando Jô dá um tapa no professor Fábio, ele revida com o bordão. Hoje, em tempos de empoderamento feminino, não sei dizer se a coisa seria bem ou mal recebida.
Christiane Torloni e Nuno Leal Maia em 'A Gata Comeu'
Christiane Torloni e Nuno Leal Maia em 'A Gata Comeu' - Reprodução/Globo


  •  A alergia a casamento - Paula, a noiva do professor Fábio, acaba perdendo o moço porque, entre outras coisas, não pode ouvir a palavra casamento que uma coceira insuportável na pele a ataca. Com os anos, aprendi a me identificar com ela.

  • Bia Seidl Torloni era a protagonista da novela, mas essa diva dos anos 80, que fazia Gláucia, a maquiavélica irmã de Jô Penteado, sempre me encantou  —o povo na casa dos 40 há de se lembrar dela também como Diana, o Anjo da Morte, em "O Sexo dos Anjo"s (1989). Não, Bia não morreu nem está na Record. Continua linda aos 55 anos e há poucos anos participou das novelas "Lado a Lado" e "Insensato Coração".

  • A trilha sonora - "Comeu", na voz de Kid Vinil, na abertura de visual mais anos 80 de todos os tempos. Só para o "Vento", hoje um hit menos lembrado do maravilhoso Ritchie (o mesmo de "Menina Veneno"). "Seu Nome", de Biafra. O saudoso e meio cafona Benito de Paula, com "Amigo do Sol, Amiga da Lua". E uma das melhores trilhas internacionais da década, só com clássicos da rádio Antena 1 "Smooth Operator", de Sade, "Everytime You Go Away", de Paul Young, "I Should Have Known Better", de Jim Diamond (mais conhecida por sua versão literal "Me chama o bombeiro!").
  • Marilu Bueno - Com seu jeito infantilóide, Tetê, a mulher chata e mimada de Gugu, (Cláudio Corrêa e Castro) é engraçada demais. Depois que o casal volta da ilha, lembro que Tetê passa os dias em casa, fazendo palavras-cruzadas e a palavra de que ela precisa para completar o coquetel tem sempre a ver com o assunto que está rolando na sala. Uma gague que poderia ser muito sem graça, mas que funcionava nas mãos dessa grande comediante, hoje com 76 anos, que ficou mais famosa como a empregada Olívia do casal Fernanda Montenegro-Paulo Autran em "Guerra dos Sexos".


Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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