Thiago Stivaletti

Depois do tiro, porrada e bomba, a calmaria do São Francisco

Que alívio para os olhos. Chega de Facção, de tiro, porrada e bomba, filha sequestrada por 20 anos. Agora, depois da lenta e agonizante novela do Cunha manobrando pra continuar no poder e da possível queda de Lula e Dilma, as águas calmas do rio São Francisco.
 
Luiz Fernando Carvalho, o diretor, entregou no primeiro capítulo de "Velho Chico" aquilo que faz melhor: lindas panorâmicas dos campos de algodão, as lavadeiras no rio (deu até saudade de "Renascer"), cores e luzes pra ninguém botar defeito. A gente, que tá acostumado a engolir as músicas do momento na rádio nas novelas, de repente fica extasiado com Caetano, Gal, Bethânia, Doces Bárbaros, Tropicália.
 
Tarcísio Meira reaparece com 150 anos, um coronel de Gabriel García Márquez. O bom filho a casa torna: Rodrigo Santoro (Afrânio) reaparece de repente numa novela das nove depois de 13 anos — a última foi "Mulheres Apaixonadas", de Manoel Carlos. Ele e Carol Castro surgem intensos demais pra uma história que ainda nem começou, Carol dá uma desafinada como cantora... Mas quem se importa? As imagens são espetaculares.
 
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Velho Chico
Velho Chico
Veja imagens de "Velho Chico", nova novela da Globo

 

Rodrigo continua bonito, mas não adianta — ele ficou muito tempo longe, e o grande galã da Globo agora se chama Rodrigo Lombardi. De repente, surge ele, o mito do homem regional na TV: Chico Diaz, com seu rosto surrado de sol destacando os olhos verdes.
 
Foi mesmo uma festa para os olhos. Teve cena inspirada no "Era uma Vez no Oeste" do italiano Sergio Leone, teve "Vidas Secas", teve até o recente "Tatuagem" inspirando as cenas da turma de Afrânio. Tarcísio Meira tem um piripaque, cai no chão, e o que a câmera filma? Os olhos expressivos da GALINHA. Dá-lhe Luiz Fernando Carvalho!
 
Benedito Ruy Barbosa, o autor, ressurge contando pela milésima vez a mesma história: duas famílias que se enfrentam, agora em torno de plantações de algodão, e dois filhos das famílias rivais que vão se apaixonar. Já ouvi pelo menos dez vezes nas novelas dele esse diálogo: "Essa briga tem que entregar pra Deus". "Nem Deus tá podendo mais com essa briga, padre".
 
Quem pediu originalidade? Acabou. O que a Globo mais quer agora é repetir o que dá certo. Se os amores do rio São Francisco forem fortes o suficiente pra brecarem o avanço de Moisés e do faraó Ramsés lá na concorrente, pode apostar que daqui por diante, de cada duas novelas no horário nobre, uma vai ser rural.
 

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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