Thiago Stivaletti

'Vamp' e o fim das novelas para a molecada

Há alguns dias a notícia corre nas quase 15 comunidades de noveleiros das quais participo no Facebook: a Globo Marcas está lançando num luxuoso box de DVD “Vamp”, de 1991, uma das grandes novelas da minha infância. Edição de bom gosto, com Claudia Ohana, a vampirona Natasha, em close na capa.

É tanta coisa boa para lembrar de “Vamp” que não sei nem por onde começar. Uma história de vampiros divertida e nada assustadora, com Ohana no auge da beleza, Ney Latorraca como o vampiro-mor Vlad no auge do humor depois da temporada de “TV Pirata”, Vera Holtz em seu primeiro grande papel como a intrépida caça-vampiros Mrs. Penn Taylor.

E claro, a família Matoso, que da metade pro final roubou todas as atenções da novela, com a maravilhosa Mary Matoso (Patricya Travassos); Matoso (Otávio Augusto), o vampiro banguela de um dente só; e os filhos Matosão e Matosinho (Flávio Silvino e André Gonçalves ainda moleques). E aquela abertura maravilhosa, com cara de HQ, em que Natasha e Vlad resumiam a trama principal ao som da moderníssima “Noite Preta”, único sucesso de Vange Leonel.

O elenco de
Flávio Silvino, Guilherme Leme, Ney Latorraca. Patricya Travassos e Otávio Augusto em "Vamp" - Nelson Di Rago/Globo
O elenco de

Flávio Silvino, Guilherme Leme, Ney Latorraca. Patricya Travassos e Otávio Augusto em "Vamp"

Nelson Di Rago/Globo

Antônio Calmon, o autor, fez duas grandes novelas das sete para crianças e adolescentes: esta e a anterior “Top Model”. Depois errou feio com a péssima “Olho no Olho”, a novela dos paranormais, e depois fez novelas adultas inexpressivas, sempre no mesmo horário (“Cara & Coroa”, “Corpo Dourado”). Tentou uma fórmula semelhante com vampiros, talvez um pouco mais infantil, com “O Beijo do Vampiro” em 2002, sem o mesmo sucesso.

Mas a principal constatação é outra. Para quem era moleque nos anos 80 e 90, essas novelas feitas com e para moleques foram fundamentais numa era pré-internet e pré-TV paga em que a TV aberta reinava sozinha. Hoje, que criança ou adolescente, dos 5 aos 16, vai parar para ver uma novela inteira?

Essa é parte da crise de “Malhação”, uma novela eterna que já entrou na sua terceira década. E é com certeza parte da crise do horário das sete, que hoje não consegue nem fazer humor para adulto, nem atrair os adolescentes com tempo de sobra para ver TV, mas que hoje estão fazendo sua própria programação nos YouTubes da vida.

Perto de “Totalmente Demais”, a atual novela das sete, até eu prefiro ir pro YouTube ver as palhaçadas da Jout Jout ou as loucurinhas cheias de palavrão da Kéfera (não, mentira: prefiro ir ver “Fargo” ou outra boa série americana).

O problema é o de sempre: a Globo não consegue pensar outra fórmula que preencha tão bem uma hora por dia de programação, seis vezes por semana, do que a novela. Mas das duas uma: ou se cria um núcleo dedicado a novos autores de humor e do universo juvenil, ou é melhor tentar outra coisa que não seja um folhetim de oito meses.

Viva Play

A melhor notícia para os noveleiros saiu na Folha esta semana: finalmente o canal Viva vai disponibilizar na sua plataforma on demand, o Viva Play, as novelas que estão sendo exibidas no canal —só para assinantes, claro. Ou seja, acabou o drama de ficar acordado até as 2h da manhã para acompanhar “Cambalacho” ou outras das melhores novelas que passam na hora de criança e trabalhador estarem na cama.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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