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'Sete Vidas', uma novela promissora na linha de Manoel Carlos

10/03/2015 - 14h41

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Na sala de aula, o professor de biologia faz um discurso: para gostarmos de alguém, todo o nosso corpo, emoções subconscientes, chamados do nosso código genético se põem em movimento para configurar aquilo que chamamos de paixão ou atração. É assim, mais do que pelo lado racional, que uma mãe escolhe o futuro pai dos seus filhos. Mas o que acontece quando essa mãe tem escolher seu pai num banco de doadores para uma inseminação artificial?

É essa questão que Lícia Manzo, autora da nova novela das seis, "Sete Vidas", jogou para o público no primeiro capítulo. Lícia é um dos grandes talentos da Globo hoje. Leio na internet que sua novela anterior, "A Vida da Gente", só perde em vendas no exterior para "Avenida Brasil" e "Da Cor do Pecado" e já bateu "Terra Nostra" e "O Clone". Para quem não lembra, era aquela novela em que duas irmãs (Fernanda Vasconcelos e Marjorie Estiano) gostavam do irmão adotivo (Rafael Cardoso, o Vicente de "Império"). Ele se casava com a primeira, que sofria um acidente e entrava em coma, depois se casava com a segunda, um dia a primeira despertava e tava armado o barraco.

No melhor estilo Manoel Carlos, Lícia fala de pequenos sentimentos, uniões e separações, conflitos de família... Uma versão diluída dos filmes do japonês Yasujiro Ozu. No meio dessa vida tão normal, alguns tabus movem a história pra frente. Os conflitos parecem absurdos, mas o andamento é o mais banal possível. Mas um banal de alguma forma cativante. Tudo com uma boa dose de açúcar, claro, pra se acompanhar às seis da tarde comendo um bom bolinho de fubá.

Em "Sete Vidas", um viajante solitário no estilo Amyr Klink, Miguel (Domingos Montagner) doou esperma no passado para um banco de doadores. No presente, ainda sem querer saber de casamento ou relações duradouras, ele vai descobrir que tem sete filhos espalhados por aí. Os irmãos vão se encontrando pela internet e descobrindo a verdade sobre o pai. Ou seja, Lícia Manzo é herdeira de Manoel Carlos, mas de alguma forma está mais antenada com as novas possibilidades abertas pela ciência, e sabe de onde extrair um bom melodrama deles.

Três marcas fortes dessa herança: a abertura no estilo "os melhores momentos da vida", dessa vez com aquele filtrinho Instagram que tá na moda; a direção de Jayme Monjardim, que dirigiu as últimas novelas de Maneco e também "A Vida da Gente"; e Regina Duarte, que depois de três Helenas, vai viver aqui sua primeira lésbica - quanta revolução, hein, Maneco?

Em algumas coisas, "Sete Vidas" parece despretensiosa até demais. Há tempos eu não via uma primeira cena tão simplória: Lígia (Débora Bloch) passa hidratante, se penteia, liga a água da banheira, Miguel começa a abraçá-la, leva-a pra cama e a água começa a vazar da banheira. Ficou parecendo comercial de Dove - e em São Paulo pelo menos ainda não estamos podendo desperdiçar água desse jeito, pelo amor de Deus! Enfim, um pouco mais de ambição na PRIMEIRA cena de uma novela faria bem.

Como todo noveleiro gosta, os lances totalmente absurdos já marcaram o primeiro capítulo, para divertir: Pedro (Jayme Matarazzo) é um dos líderes de uma manifestação programada para acontecer no centro do Rio e marca de conhecer a meia-irmã (Isabelle Drumond) no meio do caos como se tivesse marcado um cineminha. No meio das bombas e coquetéis molotov, ele só pensa em encontrá-la - ué, mas ele não era o líder da coisa? Encontram-se "por acaso", sem saber que são irmãos, e rola um clima. O beijo-tabu entre os irmãos é impedido de última hora - mas a paixão parece que vai longe.

Também achei promissores os personagens da Malu Galli - Irene, a irmã sincerona de Lígia, que joga na cara da irmã tudo o que ela não tem coragem de assumir pra si - e da Selma Egrei - Dália, a mãe meio maluca das duas, que deve garantir um toque de humor.

RAINHA É ISSO AÍ

A melhor história da ida de Xuxa pra Record foi a de Michel Auer, repórter da TV Gazeta, afiliada da Globo em Vitória (ES). Fã da loira desde criança, ele foi tietar Xuxa na chegada à Record com uma boneca da loira em mãos e estaria sendo ameaçado de demissão pela emissora. Injustiça total. E prova de que a influência da Rainha na infância de muita gente ultrapassa o poder da Globo sobre ela.

Ô LOCO, MEU

Em pleno Dia Internacional da Mulher, Faustão continuou mandando suas eternas piadinhas machistas. Foi meio vergonha alheia. Que bom que agora a data só deve cair num domingo daqui a sete anos.

Thiago Stivaletti

Thiago Stivaletti é jornalista, crítico de cinema e noveleiro alucinado. Trabalhou no "TV Folha", o extinto caderno de TV da Folha, e na página de Televisão do UOL. Viciou-se em novela aos sete anos de idade, quando sua mãe professora ia trabalhar à noite e o deixava na frente da TV assistindo a uma das melhores novelas de todos os tempos, "Roque Santeiro". Desde então, não parou mais. Mesmo quando não acompanha diariamente uma novela, sabe por osmose todo o elenco e tudo o que está se passando.

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