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Descrição de chapéu The New York Times

Fantasmas? Como religião e pandemia influenciam a crença no paranormal

Acreditar nesses fenômenos é uma forma de lutar contra desconhecido

Cena do filme "Ghost: Do Outro Lado da Vida" (1990) Divulgação

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Anna P. Kambhampaty
The New York Times

Existem diversas maneiras de quantificar a crença dos americanos nos chamados fenômenos paranormais. Uma delas é perguntar a um grupo de pessoas representativo da população se elas acreditam em fantasmas. Uma pesquisa de opinião pública conduzida pela Ipsos em 2019 constatou que 46% acreditam.

Outra maneira de obter um resultado é perguntar se as pessoas têm medo de fantasmas. Este ano, de acordo com o Levantamento Estatístico de Medos Americanos conduzido pela Universidade Chapman, cerca de 9% dos 1.035 adultos entrevistados disseram ter medo de fantasmas, e proporção semelhante de respondentes disse ter medo de zumbis; o número de pessoas que disseram ter medo da corrupção governamental, do coronavírus ou de distúrbios civis generalizados era muito mais alto.

A última pesquisa do instituto Gallup sobre fantasmas, em 2005, apontou que 32% dos respondentes disseram acreditar em "fantasmas ou que os espíritos dos mortos possam retornar, a certos lugares e em certas situações". Quando a mesma pergunta foi feita em 1995, 25% dos respondentes afirmaram acreditar em fantasmas.

Essas crenças estão presentes na mídia e na cultura dos Estados Unidos há séculos. Mas alguns pesquisadores agora estão estudando se sua ascensão pode ser vinculada ao crescimento do número de americanos que declaram não ter qualquer afiliação religiosa, nas últimas décadas.

"As pessoas estão em busca de outras coisas, coisas não tradicionais, a fim de responder as grandes perguntas da vida de uma forma que não necessariamente envolva religião", disse Thomas Mowen, sociólogo da Universidade de Bowling Green.

Como parte de um estudo de longo prazo sobre religião e crenças paranormais, por exemplo, Mowen disse que sua constatação mais recente era a de que "os ateus tendem a apresentar crença mais forte em fenômenos paranormais do que as pessoas religiosas".

"INTERESSE PELO SOBRENATURAL"

No ano passado, a proporção de americanos que fazem parte de congregações religiosas caiu abaixo dos 50% pela primeira vez em mais de 80 anos, de acordo com uma pesquisa do Gallup divulgada em março. E a porcentagem de pessoas que afirmam não ter religião quase triplicou entre 1978 e 2018, de acordo com o Levantamento Social Geral, uma pesquisa anual conduzida desde 1972 pelo Centro Nacional de Pesquisa de Opinião da Universidade de Chicago.

Ainda assim, apesar de os enquadramentos religiosos para refletir sobre o significado da vida e da morte terem perdido popularidade nos Estados Unidos, as grandes questões existenciais inevitavelmente permanecem.

O Levantamento Social Geral constatou que, apesar da queda das afiliações religiosas ao longo das quatro últimas décadas, a crença em um além da vida se manteve mais ou menos firme: em 1978, cerca de 70% dos entrevistados acreditavam em vida após a morte; em 2018, a proporção registrada foi de 74%.

Como aponta Joseph Baker, um dos autores de "American Secularism: Cultural Contours of Nonreligious Belief Systems", que descreve a cultura laica americana, "as pessoas agora não são mais parte das religiões organizadas, mas ainda assim têm interesse pelo sobrenatural".

Programas de TV, filmes e mídia de toda espécie sobre assuntos paranormais continuam a desempenhar um papel significativo na perpetuação da crença no sobrenatural. Sharon Hill, autora de "Scientifical Americans: The Culture of Amateur Paranormal Researchers", um livro de 2017 sobre amadores que pesquisam questões paranormais, vê a ascensão de programas de TV de não-ficção sobre assuntos paranormais, como "Ghost Hunters", do canal SyFy –que atingiu um pico de três milhões de telespectadores por episódio em seu momento de maior audiência– como especialmente influente na cultura americana.

"Ghost Hunters", que estreou em 2004 e ficou no ar por 11 temporadas em sua versão inicial, retratava a busca de atividades paranormais como uma atividade técnica. "Eles tinham engenhocas, usavam jargão, tudo parecia profissional", disse Hill. "Era convincente para as pessoas em casa, e a impressão era de que coisas como aquelas aconteciam no mundo".

E então, ela acrescentou, "por conta do crescente interesse pelo paranormal, ficou realmente fácil para os jornais sensacionalistas encontrar histórias sobre pessoas que diziam que suas casas estavam infestadas por demônios, ou que tinham visto um fantasma, ou que uma imagem sinistra tinha surgido em sua câmera de vídeo".

A internet permitiu que pessoas de todo o planeta se conectassem umas às outras com relação aos seus interesses paranormais, acrescentou Hill. O Reddit se tornou um fórum popular para discutir mistérios inexplicáveis, por exemplo uma experiência fantasmagórica em um ponto de parada de caminhoneiros, ou descrições da infestação de uma unidade hospitalar por demônios. O site acrescentou um novo elemento a essas histórias ao torná-las interativas, com os leitores trocando comentários, expandindo a narrativa e participando dela.

A PANDEMIA E SEUS EFEITOS SOBRE O PARANORMAL

Algumas organizações de investigação paranormal nos Estados Unidos declararam ter recebido mais solicitações do que costumavam, durante a pandemia.

Don Collins, diretor do Fringe Paranormal, um grupo de Toledo, Ohio, que investiga informações sobre aparições não explicadas, disse que a equipe foi procurada para investigações residenciais ou em busca de informações pelo menos uma vez por semana, este ano, ante a média de um ou dois pedidos mensais que eles recebiam antes da pandemia.

"Acho que parte da questão é que, porque muita gente precisou ficar em casa por conta da Covid, se existe alguma coisa paranormal de fato acontecendo, agora as pessoas estão em casa para perceber", disse Collins.

"As pessoas tentam explicar como paranormais coisas que acontecem e para as quais elas não conseguem encontrar outras explicações", ele prosseguiu. "Coisas negativas acontecem ao redor delas, e elas podem atribui-las a atividades paranormais".

Baker expressa a questão de outra maneira. "A religião e a crença sobrenatural tendem a avançar em momentos que podemos definir como de crise existencial, ou de um perigo existencial maior", ele afirmou.

"O sofrimento e o número de mortes cada vez maiores" que a pandemia causou significam que as pessoas "apresentam uma probabilidade maior de ter mantido contato com a morte recentemente", ele disse. "Isso pode despertar questões assim, sobre a possível presença de espíritos de entes queridos".

Acreditar no sobrenatural pode até ser uma fonte de consolo. Emily Midorikawa, que escreveu biografias de diversas mulheres da era vitoriana, oferece um paralelo histórico. "Com certeza houve uma alta real no número de pessoas que passaram a recorrer a médiuns ou buscaram conforto no espiritismo, na época da guerra civil americana", ela disse.

Então, como hoje, o paranormal era um canal de conexão. Na era vitoriana, sessões espíritas eram ocasiões de convívio em que as estruturas sociais eram menos rígidas, disse Midorikawa.

"Não era incomum, por exemplo, ter uma médium mulher comandando uma sessão, e falando a grupos de homens e mulheres", ela disse. "Havia um atrativo para as mulheres que iam às sessões apenas como participantes; talvez aquela fosse uma oportunidade de sair de casa e se misturar a outras pessoas em um ambiente um tanto mais incomum –e no qual talvez existisse um pouco mais de liberdade".

Hoje, acreditar em alguma forma de paranormal pode representar liberdade de outra espécie, talvez como avenida para conceituar outras possibilidades. Afinal, existem diversos mistérios que simplesmente aceitamos, como parte da vida moderna.

"Uma crença no paranormal talvez não seja vista como um grande salto", disse Midorikawa, "se pensarmos em todas as coisas com as quais estamos interagindo o tempo todo que bem poderiam ser uma forma de mágica, se considerarmos nossa falta de entendimento sobre elas".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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