Você viu?
Descrição de chapéu The New York Times

Artistas de rua podem sobreviver ao confinamento?

'Em um momento como esse, pessoas como eu são necessárias na rua', diz grafiteiro

O grafiteiro Nathan Bowenpinta mural em Londres
O grafiteiro Nathan Bowenpinta mural em Londres - Suzanne Plunkett/The New York Times
Alex Marshall
Londres

Em uma sexta-feira recente, o grafiteiro Nathan Bowen estava pintando um tapume em uma antiga loja de Londres. Ele usava um colete de segurança, e sua esperança era a de que qualquer policial que passasse o confundisse com um operário de construção. Mas Bowen se destacava de outra maneira: ele era a única pessoa visível em toda a rua.

Em março, o governo britânico ordenou que todo mundo ficasse em casa, e só permite que as pessoas saiam para se exercitar uma vez ao dia, comprar comida, ou caso sejam trabalhadores essenciais. Passado um mês, o confinamento continua em vigor.

Bowen não é um trabalhador essencial, ele admitiu, mas disse que estava prestando um serviço de alguma forma necessário. “Em um momento como esse, pessoas como eu são necessárias na rua”, ele disse. “Se ninguém estiver fazendo o que faço, a cidade perde o pique”.

Mural feito pelo artista Nathan Bowen em Londres
Mural feito pelo artista Nathan Bowen em Londres - Suzanne Plunkett/The New York Times

Antes da pandemia, Londres vivia repleta de artistas de rua. Músicos cantavam para os passageiros do metrô, mágicos de rua divertiam os turistas, grafiteiros decoravam as paredes da cidade. Mas agora –com algumas poucas exceções, como Bowen– todos esses artistas sumiram.

O que aconteceu aos artistas que costumavam adicionar tempero à vida da cidade? E quando a pandemia tiver acabado, será que eles poderão voltar?

O ARTISTA

No dia em que o confinamento entrou em vigor em Londres, Bowen, 35, reagiu à notícia de um modo diferente ao da maioria dos demais moradores da cidade. Ele estava na rua, voltando da casa de um amigo, disse, quando viu um lojista protegendo suas vitrines com tapumes.

“Eu vi aquela tela gigante e pensei na hora que teria muitas oportunidades para pintar”, ele disse. “Para mim, o confinamento opera de modo inverso”, acrescentou. “Todo mundo deixou a cidade, agora, por isso é hora de o submundo aflorar”.

No dia seguinte, ele foi à loja que tinha visto e pintou no tapume a imagem de um operário de construção com uma máscara no rosto, abrindo o casaco para expor uma mensagem de agradecimento ao Serviço Nacional de Saúde.

Bowen tem saído a cada dois dias, desde o confinamento, ele disse, e ficou chocado ao perceber que ele parecer ser o único artista de rua a estar na rua. “O confinamento é um teste”, ele disse. “Temos todos esses grafiteiros que não param de falar sobre como são inimigos do sistema, como são radicais, mas, quando chega um momento como esse, eles não pintam coisa alguma”.

A revista de grafite britânica Frontline vem instando seus leitores a “ficarem em casa, ficarem seguros”, desde que começou o confinamento. Mesmo Banksy, talvez o mais famoso dos artistas de rua britânicos, resistiu à tentação de sair e pintar um mural que chame a atenção.

Em abril, ele postou no Instagram uma foto de algumas coisas que pintou em torno de seu banheiro, com a mensagem “minha mulher odeia quando trabalho em casa”. Bowen disse que durante a pandemia ele estava pintando imagens com mensagens de apoio ao Serviço Nacional de Saúde, o muito querido provedor estatal de serviços de saúde do Reino Unido.

Ele queria estimular os trabalhadores dos hospitais, em um período como esse, disse, e sentia que suas peças sobre outros temas o exporiam a críticas por desrespeitar o confinamento. “Estou falando de arte de rua no sentido verdadeiro, de comunicação –promover mensagens positivas que animem as pessoas”, disse Bowen.

Em uma tarde recente de sexta-feira, ninguém tentou impedir Bowen de pintar. Algumas pessoas passaram correndo, mas evitaram se aproximar. Dois carros de polícia passaram, mas não pararam.

O dono do edifício apareceu, disse Bowen, mas em lugar de expulsá-lo da propriedade, pediu que ele acrescentasse algumas bolas ao desenho, para refletir que, antes do confinamento, o lugar abrigava piscinas repletas de bolas de borracha.

Parecia que Bowen conseguiria completar a pintura sem problemas, mas ele encontrou uma dificuldade comum entre os artistas de rua londrinos: começou a chover. Bowen disse um palavrão e se escondeu embaixo de um toldo com seu cachorro Klae (que também usava um colete de segurança). O artista disse que teria de voltar no dia seguinte para completar o trabalho.

A CANTORA

Da última vez que Kirsten McClure,52, estava cantando no metrô de Londres, no começo de março, ela percebeu que uma mudança estava por vir. “As pessoas estavam usando máscaras pela primeira vez”, disse a cantora e compositora, em uma entrevista por telefone. “E pessoas que estão usando máscaras não dão muito dinheiro aos cantores”.

Em 21 de março, a Transport for London, a agência de transporte coletivo da cidade, proibiu a presença de músicos em toda a sua rede. “Fiquei realmente surpresa”, disse McClure. “Não imaginei que eles fechariam tudo. Eu tinha essa fantasia de que podia tocar canções bonitas e calmas, para os paramédicos em final de turno de trabalho. O mesmo tipo besta de negação que todo mundo estava praticando”.

Desde então, McClure, que disse que costuma obter metade de sua renda tocando na rua, está presa em casa com o marido e o filho. Ela tem sorte por ainda contar com a renda de seu segundo trabalho, como ilustradora, disse. Alguns músicos de rua que ela conhece tiveram de pedir auxílio-desemprego, acrescentou.

Ela testemunhou o desespero de um músico de rua, quando saiu para se exercitar e viu um acordeonista tocando ao lado de uma fila de consumidores diante de uma mercearia. “Não fazia sentido –não fazia sentido algum”, disse McClure. “Mas essa é a mentalidade do músico de rua. Você vai aonde o público está”.

Ela jogou uma moeda para o acordeonista, mantendo a distância recomendada de dois metros, disse. Mas a moeda bateu no chão e rolou de volta para ela. “Pensei que aquela era uma situação horrível. Como dar dinheiro a alguém sem me aproximar a menos de dois metros?”

McClure disse que tinha considerado a possibilidade de cantar online –fazer um livestream e pedir doações -, mas que sentiu que seria difícil atrair atenção suficiente. Em lugar disso, ela começou a estudar violino, caso seja forçada a usar uma máscara quando puder voltar a tocar na rua. “Achei que seria mais fácil tocar instrumentais do que cantar com uma máscara”, ela disse.

Mas ela está otimista e acredita que o confinamento não durará muito mais. Nas últimas semanas, a Transport for London, que regulamenta o trabalho de músicos no metrô, enviou diversos emails aos músicos licenciados para informá-los sobre como pedir ajuda de emergência a organizações de caridade, e afirmando que esperava poder recebê-los de volta em breve, disse McClure.

Os músicos de rua são um componente vital da cidade, “:um sinal de que ela é saudável e feliz”, ela disse. ”Vai ser realmente bom para as pessoas ver os músicos na rua de novo, vai ajudá-las a esquecer as preocupações”, ela disse. “É isso que fazemos” distraímos e alegramos as pessoas”.

O MÁGICO

Nathan Earl costumava fazer dois truques em seu número, antes do confinamento. Um era comum em shows de prestidigitação no mundo todo: ele apanhava anéis de metal sólido e os batia uns contra os outros, até que se entrelaçassem como que por mágica. Ele gostava de fazer o truque com a ajuda de uma criança da plateia, convidada a segurar o aro, e de ver o ar de espanto da criança com o resultado do truque.

O outro era um truque de cartas no qual ele colocava uma carta escolhida por um espectador em uma ratoeira. Ele removia a carta pouco antes que a ratoeira apanhasse seus dedos. Os dois truques envolviam interação com a audiência, disse Earl, 24, em uma entrevista por telefone.

Para o truque com a carta, ele ficava ao lado de alguém até que a pessoa escolhesse uma carta do maço. “Obviamente as pessoas ficarão com medo de tocar os outros, depois da pandemia”, ele disse. “Os mágicos de rua se preocupam com isso”.

O distanciamento social também pode afetar suas apresentações de rua de outra forma, ele disse. “A mágica depende de ser vista como espetáculo. Se as pessoas estão longe uma das outras, o show será ruim; e, além disso, haverá gente passando pelos intervalos entre os espectadores”.

“Seria péssimo”, ele disse. Earl não era o único mágico preocupado com o distanciamento social, de acordo com Jay Blanes, da Associação dos Artistas de Rua de Westminster. Alguns artistas temem perder sua fonte de renda, se forem proibidos de atrair plateias nas calçadas, ou se menos turistas visitarem a cidade. “Creio que algumas pessoas estão sendo otimistas demais”, disse Blanes em entrevista por telefone, ainda que tenha expressado esperança em que as coisas venham a melhorar.

Earl disse que esperava que logo pudesse voltar a sair às ruas normalmente. Ele mora com os pais, e está financeiramente garantido, por enquanto. “Mas se isso persistir por mais tempo, terei de procurar outras opções”, disse. Earl não quer pensar em deixar a mágica de rua, acrescentou.

Ele gosta da liberdade que ela propicia, e do senso de comunidade com os demais mágicos de rua. “Seria muito triste ter de parar”, ele disse. “As ruas seriam muito estéreis sem artistas”.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem