Uma versão “yassified” de “Garota com Brinco de Pérola” de Johannes Vermeer

Uma versão “yassified” de “Garota com Brinco de Pérola” de Johannes Vermeer Denver Adams/NYT

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Shane O’Neill
The New York Times

A "Garota com Brinco de Pérola" com o rosto todo maquiado. A rainha Elizabeth 1ª com camadas de maquiagem do decote rendado à testa. Severus Snape com extensões de cabelo escuras. O Pé Grande usando maquiagem forte nos olhos.

Essas são algumas das imagens alteradas compartilhadas pelo YassifyBot, uma conta do Twitter que começou a surgir nos feeds dos usuários no mês passado.

"Yassificar" alguma coisa, nos termos propostos pela conta, é aplicar diversos filtros de beleza usando o FaceApp, um aplicativo de inteligência artificial para edição de fotos, até que a imagem —seja uma celebridade, uma figura histórica, um personagem de ficção ou uma obra de arte– se torne quase irreconhecível sob a maquiagem.

Desde que a conta YassifyBot foi ativada, em 13 de novembro, centenas de fotos foram tuitadas, mostrando cílios espessos; sobrancelhas aparentemente retocadas a lápis; cabelos alongados e, frequentemente, colorizados; e narizes e maxilares retocados.

É preciso apontar que o YassifyBot não é tecnicamente um software robotizado. Os tuites não são gerados por um programa. A conta é operada por um/a universitário/a de Omaha, Nebraska, que faz arte sob o nome Denver Adams, e pediu que o The New York Times não revelasse seu nome real.

O processo para produzir cada imagem é simples: uma foto de rosto é submetida a tratamento pelo FaceApp até que pareça genérica ou grotescamente sexy, e em seguida é postada. Depois, o processo é repetido. Adams disse em entrevista por Zoom que a criação de cada imagem demora apenas alguns minutos.

O momento em que a conta ganhou popularidade é um tanto curioso. Aplicativos de retoque de fotos fáceis de usar não são novidade. O FaceApp, especificamente, já foi tema de artigos noticiosos sobre questões de privacidade, e sobre seu filtro de "gostosura", que foi criticado como racista por clarear o tom de pele das pessoas nas imagens tratadas. (Em 2017, o jornal inglês The Guardian noticiou que Yaroslav Goncharov, fundador do FaceApp, pediu desculpas pelo filtro, atribuindo a culpa pelo clareamento da pele a vieses que o software de inteligência artificial havia adquirido em seu treinamento.

A palavra "yass" –que também pode ser grafada como "yas", "yaas" ou com qualquer número de As e Ss para fim de ênfase– circula no vernáculo LGBTQ há mais de uma década. A expressão ganhou ainda mais popularidade em 2013, por conta de um vídeo de um fã de Lady Gaga. A série "Broad City", do canal Comedy Central, na qual a personagem de Ilana Glazer usa frequentemente a expressão "yas queen", também ajudou a colocar o termo em uso de forma mais ampla.

De acordo com o site KnowYourMeme.com, a palavra "yassificação" surgiu no Twitter em 2020. Com sua difusão mais ampla, começaram a surgir vídeos de celebridades maquiadas digitalmente, entre as quais um que mostrava a atriz Toni Collette gritando no filme de horror "Hereditário", no qual seu rosto subitamente se transforma em uma versão mais glamorosa do original.

"Não fui eu que criei a brincadeira", disse Adams, mencionando o meme de Collette como uma de suas inspirações. "Só a arruinei".

Mas qual, exatamente, é a brincadeira? Adams diz que o ponto é o extremo ridículo das imagens, afirmando que, quanto mais absurdas forem, mais engraçadas se tornam. Como muitas piadas de internet, a separação entre zombaria e celebração não fica clara.

Rusty Barrett, professor de linguística na Universidade do Kentucky que estudou a linguagem das subculturas gays, vê uma conexão entre as imagens disseminadas pelo YassifyBot e a cultura drag. "Elas evocam o drag, no sentido de que o drag às vezes parece plástico e extremamente exagerado", disse Barrett em entrevista por telefone.

"Parte da questão é que a aparência pode melhorar mas ao mesmo tempo ganha um jeito falso", disse Barrett. "Essa visão positiva do artifício é algo comum na cultura gay".

Os memes de "yassificação" também compartilham de alguns traços com uma subcultura de internet conhecida como "bimbofication", que valoriza traços artificialmente exagerados de feminilidade.

Os memes de "bimbofication" são apenas brincadeiras de internet sobre o aspecto performativo dos gêneros, mas alguns dos praticantes mais dedicados usam o Reddit para documentar sua transformação na vida real, o que inclui hipnose para garantir a "gostosura cerebral".

Do mesmo modo, a "yassificação" é engraçada até que deixa de ser. É divertido ver o Dobby de Harry Potter ou o senador Bernie Sanders preparados para o tapete vermelho por um esquadrão digital de fadas madrinhas, mas horrível pensar que somos tão suscetíveis a uma futilidade tão grande.

Memes têm prazo de validade, e a "yassificação" já começou a cansar. No dia em que o YassifyBot começou a postar no Twitter, um usuário comentou que "eu vi as melhores mentes de minha geração destruídas pela ‘yassificação’".

Era só questão de tempo para que marcas começassem a aderir à tendência. Há algumas semanas, por exemplo, a ferrovia Amtrak promoveu a "yassificação" de um de seus trens em 2022, via TikTok, usando hashtags como #Yassify, #Slay and #rupaulsdragrace.

Será que foi a sentença de morte do meme "yassify"? "Se a conta não fosse minha, eu já a teria bloqueado", disse Adams. "Totalmente".

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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