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Pessoas têm apagado perfil no Facebook e em outras redes sociais para aproveitar mais a vida

Motivos são variados, como tempo dedicado ou insegurança em relação a dados pessoais

Farmacêutica Gabriela Ribeiro Martins saiu do Facebook para evitar brigas em seu namoro
Farmacêutica Gabriela Ribeiro Martins saiu do Facebook para evitar brigas em seu namoro - Ricardo Matsukawa/ Folhapress

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Lara Pires
São Paulo

Muita publicidade, falta de notícias interessantes, perda de tempo e o re­ceio de ter os dados divulgados. São es­ses fatores que vêm motivando cada vez mais gente a sair das redes sociais, es­pecialmente do Facebook. "Quem abandona, normalmente, já vinha questionando o Facebook havia muito tempo", diz Pedro Arthur Nogueira, di­retor da agência digital Virtual Jam e especialista em mídias digitais.

Recentemente, a rede social coman­dada por Mark Zuckerberg admitiu que as informações de cerca de 87 milhões de usuários foram utilizadas sem o con­sentimento deles pela empresa ameri­cana Cambridge Analytica para fazer propaganda política nas eleições de 2016, nos EUA. Desse número, 443 mil seriam brasileiros. "O vazamento de dados impactou aqueles que acompa­nham notícias e que anunciavam no Facebook. Tive que fazer reuniões com seis de cada dez clientes para falar so­bre a credibilidade do Facebook", diz.

O vazamento de dados fez com que muitos usuários abandonassem a rede social. Entre eles, o bancário Gidalte Lúcio, 30. "Depois desse problema, resolvi sair definitivamente. Também notei que o Face já não conecta mais as pessoas como antes. Muitos amigos nem têm mais usado essa rede, alguns
foram para o Instagram ou o Twitter."

Ainda que considere a própria deci­são acertada, Lúcio reconhece que sen­tiu falta do Facebook, no começo. "Me deu a sensação de que eu estava per­dendo algo, que poderiam aparecer no­tícias ou informações de amigos e que eu não as veria. Mas a vontade de sair foi maior. O Facebook, para mim, virou uma máquina de publicidade", diz Lúcio.

 

Pollyana Ferrari, especialista em mí­dias sociais, concorda. "Quando o aces­so é gratuito, é porque a mercadoria é você", define ela. "Quem tem um Face­book está destinado a receber anúncios de todos os temas, e as pessoas se can­saram de tantos links patrocinados. Quando o Facebook surgiu, diziam que era uma plataforma para locais de encontro e praças de conversas entre amigos. Hoje não há mais essa troca."

Ela relembra ainda das notícias falsas, ou “fake news”, disseminadas em peso nas mídias sociais, o que prejudica a credibilidade da rede. "Disseminam notícias que são inverdades, e aqueles que não têm preparo para desconfiar e checar a fonte passam a informação adiante sem o menor critério."

Segundo a especialista, deparar-se com "fake news" tem motivado os usuá­rios a se questionarem sobre o motivo pelo qual ainda mantêm o perfil ativo. "Eu mesma já tive vontade de sair. Só não o faço porque trabalho com isso e preciso estar sempre ligada."

A farmacêutica Gabriela Ribeiro Mar­tins, 25, excluiu seu perfil no Face­book, mas não por notícias falsas nem vazamento de dados. "Saí por três ra­zões: perdia muito tempo vendo coisas que não eram úteis, além de temas que não eram de meu interesse. Fora isso, o Facebook prejudicava o meu relacionamento amoroso, causava muitas bri­gas. Tínhamos atritos por causa de ciú­me, e isso estava atrapalhando o namo­ro. Então, nós dois decidimos excluir nossos perfis. E deu certo."

Gabriela afirma que sentiu falta logo que saiu. "Tenho parentes de outras ci­dades, e nosso principal contato era pe­lo Face. No começo foi mais difí­cil, mas só até trocarmos telefones e nos falarmos por WhatsApp. Percebi, com o tempo, que as pessoas que se gostam continuam a manter contato, mesmo sem rede social."

SEM DANOS

A psicóloga Mariana de Rezende ex­plica que as redes sociais não devem causar danos pessoais nem emocionais aos seus usuários. "Hoje, vemos uma superexposição na internet, além da idealização de felicidade, o que gera uma comparação entre a pessoa que está postando e a que a está vendo. Des­ta forma, as redes acabam por desper­tar ansiedade e depressão, pois a sen­sação que dá é que o outro está vivendo uma vida maravilhosa, e a gente, não." 

A regra nas redes sociais, de acordo com a psicóloga, é que a pessoa precisa aparentar ser feliz. "Já tive que indicar a um paciente que saísse das redes, e o resultado foi ótimo. Ele começou a olhar para a própria vida, para o seu in­terior, em vez de focar a vida alheia."

Para Mariana, quando é gasto tempo demais nas redes, alguma tarefa fica por fazer. "A desmotivação com relação às redes sociais tem também a ver com o fato de a pessoa querer dedicar seu tempo a fazer outras coisas." Mas nem tudo é crítica. A psicóloga destaca que as redes ajudam a conectar pessoas, facilitando o acesso e o conta­ to entre elas. "Claro que há muitos be­nefícios, como reencontrar amigos."

Foi o tempo que interferiu na decisão do marceneiro André Dip, 25, de sair do Facebook. "Era tempo perdido. Eu ti­nha a ilusão de estar próximo das pes­soas, mas as redes mais me distancia­vam do que me aproximavam delas. Quando eu saí do Facebook passei a realmente encontrar pessoas com quem, antes, eu só combinava algo. Já tem quase quatro anos que excluí meu perfil e não sinto falta. Hoje, os amigos
já sabem que eu não tenho Face e me avisam dos eventos por WhatsApp para eu não perder nada. E não acho que es­teja perdendo, mesmo. Sinceramente."

Para Pedro Gurgel, presidente da agência de propaganda Capital Mídia, as informações inúteis no mural das pessoas acabam desgastando a rede social. "O que causa a saída das pessoas é a quantidade de dados inúteis, e o Fa­cebook já tem tomado providências pa­ra evitar isso. Ele tem trabalhado para
excluir os perfis falsos, outra coisa que atrapalha demais", conta Gurgel. "A tendência da maior parte do público que sai do Facebook é mudar para o Instagram, que é uma rede social mais voltada para fotos e vídeos."

PRIVACIDADE EM RISCO

Em um ambiente virtual em que a ex­posição da vida pessoal é facilitada e estimulada, excessos nesse sentido po­dem ter como consequência a sensação de vulnerabilidade. E essa insegurança também está entre as justificativas de quem deixa o Facebook.

Fabiana Vaz Arten, 33, analista administrativa, é uma dessas pessoas. Entrava na rede social diariamente, até que começou a ter problemas com sua segurança. "Já tem dois anos que saí do Facebook. Na época, tive que entrar na Justiça contra uma pessoa que me deu um calote, pois comecei a receber ameaças dela pela minha página. Co­mo não sabia do que essa pessoa era capaz, fiquei com medo da exposição da minha vida e da de meus familiares. Achei arriscado continuar ali. Usava
as configurações de privacidade e filtrava tudo o que publicavam a meu res­peito, além de fotos em que eu era mar­cada, mas, ainda assim, não me sentia segura."

Por conta disso, Fabiana decidiu ex­cluir seu perfil. "Além dessa história, eu já fiquei bastante irritada porque a maioria posta uma vida de contos de fa­das na rede. As pessoas acham que to­dos devem acreditar naquilo."

Ela afirma que considera esse am­biente virtual um terreno perigoso. "Tem gente que se perde e que deixa de aproveitar a vida em busca de curtidas, comentários e visualizações em suas postagens. Acho triste quando viajo e as pessoas mal olham a paisagem porque estão em busca da melhor foto, ou, ainda, quando vejo famílias e amigos que nem conversam nos restaurantes para estar online. Acabam todos perdendo um momento que era para ser de inte­ração e alegria entre eles."

Para Fabiana, as redes são muito su­perficiais. Por isso, ela prefere compartilhar suas fotos apenas por
WhatsApp. "Assim, eu bato papo e inte­rajo com os amigos de verdade. Não sinto a menor necessidade de saber o que as pessoas andam fazendo a todo momento em suas vidas."

A psicóloga Mariana de Rezende afir­ma que, atualmente, o descontenta­mento com as redes sociais é comum. "Sugiro que a pessoa faça uma avalia­ção. Se sentir que a internet está atrapalhando de alguma forma, vale ava­liar se deve excluir o perfil."

Ela ainda completa: "As redes podem servir de gatilho para desencadear a depressão, por exemplo, e muitas pes­soas nem imaginam isso. Já vi casos, especialmente de adolescentes, em que as redes contribuíram para problemas de saúde mental".

A especialista em mí­dias sociais Pollyana Ferrari diz: "Não vai acontecer nada se você ficar uma hora sem olhá-las. Você não perderá nada de essencial à sua vida". Ela aconselha que os viciados em mídias sociais sejam mais seletivos e usem as ferramentas de privacidade a seu favor.

"Deixe o Instagram em modo privado, controle as marcações de ami­gos no Facebook, observe bem o que vai postar e não se esqueça de checar sem­pre a fonte de qualquer notícia que vá republicar."

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