Viva Bem

Cuidadores de idosos ganham espaço em famílias com alta da expectativa de vida

Profissão tem crescido nos últimos anos e ajudado na rotina familiar

A administradora Fernanda Carnevale largou sua vida e rotina para cuidar de sua mãe Carmela Carnevale em tempo integral
A administradora Fernanda Carnevale largou sua vida e rotina para cuidar de sua mãe Carmela Carnevale em tempo integral - Rivaldo Gomes/Folhapress
João Victor Marques
São Paulo

“Deus não poderia ter colocado pessoa melhor para cuidar de mim. Ela é um anjo na minha vida”. É dessa forma que Carmela Carnevale, 83, descreve sua filha, Fernanda Carnevale, 50, com quem mora no centro de São Paulo.

Devido a uma isquemia na médula durante uma cirurgia para corrigir uma válvula da aorta, Carmela perdeu a força nas duas pernas e o controle de suas necessidades fisiológicas. Como muitos idosos do país, precisa de ajuda 24 horas por dia.

A demanda por cuidadores de idosos tem crescido no país, refletindo o envelhecimento da população e o aumento da expectativa de vida dos brasileiros. Dados de 2018 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) indicam que 14% da população brasileira é composta por pessoas com idade superior a 60 anos.

Dados divulgados pelo Centro Brasileiro de Cursos (Cebrac) mostram que os cursos de formação de cuidadores de idoso tiveram um aumento de 84% na procura em 2018, quando comparados aos dados de 2017. Entre 2007 e 2017, a função de cuidador de idosos passou de 5.263 para 34.051 profissionais empregados — uma alta de quase 550%. Os dados são da Rais (Relação Anual de Informações Sociais), do Ministério do Trabalho. São Paulo concentrou a maior parte das contratações, com 11.397 postos, seguido por Minas Gerais (4.475) e Rio Grande do Sul (2.288).

Muitos idosos perdem sua independência e precisam de auxílio durante todo o dia, seja por causa da velhice ou por alguma doença. Como nem todos têm uma Fernanda em suas vidas, quem entra em campo neste momento tão delicado são os cuidadores de idosos, como Albert Domingos, 34, e Davi Baptista, 44.

Com formação como auxiliar e técnico de enfermagem, a dupla exerce, junta, a profissão de cuidador há mais de dez anos. Segundo eles, as dicas para cuidar de um idoso são ser paciente e ter empatia. "A palavra-chave é paciência. Você tem que ter muita paciência para lidar. Cuidar de idoso é saber que ele vai comer e vai esquecer, é ir falando sempre tudo o que vai acontecer. É ter paciência e se colocar no lugar da família e do paciente. Ter empatia. Empatia é tudo", conta Domingos.

Atualmente, eles cuidam de uma senhora de 83 anos que necessita de ajuda por ter perdido a força muscular. Eles se revezam em uma escala de 12 por 48 horas para que ela fique resguardada 24 horas por dia,  com total auxílio. Embora muito próximos da idosa e de sua família, Domingos diz que isso não é regra.

“Já trabalhamos com famílias muito carinhosas, que fazem de tudo por mais alguns minutos de vida de seus amados. Mas também já trabalhamos com idosos que as famílias não estão nem aí e os cuidadores dão carinho, dão amor e vão até o final da vida com eles”, conta Domingos.

“Tem muitas famílias que deixam o idoso totalmente na nossa mão. O mundo é corrido e as pessoas trabalham demais. Nossa profissão não tem sábado, domingo ou feriados. Muitas vezes, trabalhamos em datas especiais”, diz Baptista.

Foi justamente o emprego de Fernanda Carnevale que possibilitou a ela se entregar e mudar totalmente sua rotina para cuidar de sua mãe. Trabalhando há mais de dez anos na administração própria do prédio em que sua mãe mora, do dia pra noite Fernanda largou os filhos, sua casa e horas de sono para morar com a mãe e dar atenção a quem muito já cuidou e ajudou.

“Eu tinha uma rotina certinha. Chegava do trabalho, jantada e deitava para ver minha novela e dormir até 6h. Hoje, não. Estou morando aqui com ela há mais de um ano e meio e, desde então, meu sono está todo desaparelhado, porque ela dorme só 1h ou  2h e eu tenho que pensar meu dia todo baseado nos remédios e nos cuidados dela. Tenho que estar aqui de manhã, de tarde e de noite”, conta Fernanda, que terá ajuda em breve.

“Meu irmão, Duda, voltará a morar no Brasil até o final do ano e vai me ajudar a cuidar da mamãe. Vai ser mais tranquilo, vou conseguir voltar a sair, ir a um churrasco com os amigos, por exemplo. Vai ser bom ter mais alguém, porque ela se recusa a ter um cuidador”.

Dona Carmela é direta quando questionada sobre a possibilidade de ter um cuidador. “Nem fala isso alto que a Fernanda vai ouvir”, brinca. “Não admito alguém de fora dentro da minha casa. Uma prima minha já teve e não foi legal. Tenho minha filha que está aqui quando eu preciso. Não posso reclamar, ela é um anjo na minha vida”, diz a dona de casa, que nunca teve faxineira ou diarista pelo mesmo motivo.

E não é só sua filha que sente falta da rotina de antes. “Eu sinto falta de ficar zanzando por aí. Antes eu ia no mercado, cozinhava para minha filha e meus netinhos. Agora, eu tenho que carregar essa porcaria [referindo-se ao andador] para cima e para baixo. Eu me sentia mais útil”, conta Carmela, com lágrimas nos olhos.

“Às vezes, ela chora porque diz que não quer dar trabalho para ninguém. Ela cuidava de todo mundo e os papéis se inverteram”, revela Fernanda.

Essa emoção entre familiares também acontece com os cuidadores. Albert Domingos e Davi Baptista dizem que é possível sim manter um distanciamento saudável do paciente e da família, mas contam que, por vezes, o envolvimento emocional é inevitável. “Vamos no enterro do idoso, abraçamos os familiares, choramos. A gente cria um vínculo, não tem como. Estamos todos os dias ali."

Esse dia a dia do profissional que cuida de idosos melhorou muito com o passar dos anos. Agora, eles sabem exatamente o que deve ser feito e como cuidar de acordo com os diagnósticos que os pacientes recebem. “Antigamente, a gente tinha métodos de diagnóstico mais precários. Hoje em dia, está tudo mais avançado. Tudo é diagnosticado. Sabemos exatamente o que eles têm e o que temos que fazer e como cuidar”, completa Domingos.

Pai de uma menina, Domingos diz que muitas vezes ele faz muito mais por seus pacientes do que para alguém que é do próprio sangue. "Cuidar de alguém exige amor e carinho. Tem que abraçar, tem que despir, lavar o rosto, escovar o dente. É um cuidado que, às vezes, eu não presto para a minha filha, mas eu dou para o paciente. É muito vínculo."

CUIDADORES COMO SOLUÇÃO

A realidade de Fernanda e Carmela Carnevale é apenas um ponto dentro de todo esse círculo. Não são todos os filhos que conseguem adaptar suas vidas para cuidar de seus parentes que necessitam de apoio 24 horas por dia. O empresário Marcos Antônio Silva, 55, conta que ele e seus três irmãos se viram em uma situação muito diferente e atípica há sete anos, em meados de 2012.

A matriarca da família, Zuleide Silva, sofreu um AVC que comprometeu mais de 70% de todos os seus movimentos, necessitando, de ajuda por tempo integral para se alimentar, trocar fraldas. A família optou por contratar cuidadores para trabalharem em tempo integral na casa dela, na zona leste de São Paulo.

“Por conta das nossas rotinas de trabalho e de vida, não conseguiríamos dar a atenção que ela merecia. Foi a melhor escolha”, conta Silva, que contratou cuidadoras para os dias da semana e plantonistas para resguardar sua mãe aos finais de semana.

Mas a escolha não foi fácil. Para colocar alguém para literalmente morar dentro de casa, o empresário afiirma que ele e os irmãos fizeram testes com profissionais antes de bater o martelo. “Chegamos a ter uma primeira cuidadora que não atingiu todas as nossas expectativas. Mudamos, procuramos mais e encontramos uma que certo com o perfil que procurávamos."

Por mais de quatro anos acamada, Zuleide recebeu os cuidados necessários e foi muito bem tratada pela família e pelos profissionais que a cuidavam durante seus últimos dias de vida. “Ela se foi depois de um dia que todos os filhos e netos a visitaram na UTI que estava internada. Descansou em paz."

Seja ela contratada ou da família, todo o processo de entrada de uma nova pessoa na rotina do idoso é uma grande novidade. A retirada de sua autonomia diante de suas vontades ou a perda da independência por conta da impossibilidade de fazer algo sozinho mexe muito com o psicológico dos pacientes nessa situação.

Todo o processo de entendimento deles, diante seu novo modo de vida, é muito gradual e lento. “Esse processo de aceitação é bem gradual. É muito doloroso deixar de fazer atividades que você estava acostumado em fazer, de ser quem você era antes”, destaca a psicóloga clínica Fernanda de Lima, 24.

Para a profissional, o ideal é que, assim que sabido que o paciente dependerá de alguém para atividades básicas, independentemente se for da família ou não, é importante que ele e seus parentes mais próximos façam acompanhamento psicológico para entender melhor a nova fase da vida deles.

“É importante um acompanhamento psicológico para esses idosos e para os familiares. Ele não vai entender sua nova vida de uma hora para outra. Para ser saudável, é importante ter o apoio da família e profissionais”, completa.

A família também deve ter atenção ao formalizar um contrato para evitar processos no futuro. O profisisonal passa a ser empregado quando trabalha mais que duas vezes por semana, segundo a advogada Lariane Del Vecchio, do escritório Aith, Badari e Luchin Advogados. "Ele deve ter a carteira registrada em até 48 horas, com o valor de salário e contrato contendo o horário de trabalho, intervalos para refeição e folgas."

Ela afirma que, mesmo que o cuidador seja aposentado, é deve registrar. "A única maneira de evitar processos é seguir a legislação trabalhista. 


COMO CONTRATAR UM CUIDADOR?

- Busque um profissional autônomo ou uma empresa especializada. 
- Defina a necessidade do tempo de trabalho com a equipe médica que atende o paciente.
- Conheça os candidatos para ver qual deles tem o perfil mais adequado às necessidades do idoso.
- Defina com o profissional a carga horária e os dias. 

ESCALAS

- Costumam ser de 12 horas por 48 horas ou 12 horas por 36 horas, com escalonamento entre os profissionais.

CONTRATO

- Em serviços prestados mais de três vezes por semana, o regime de contratação passa a ser CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), com vínculo empregadício. 
- O empregador tem a obrigação de contratar em regime CLT, mesmo que o cuidador seja aposentado e peça para não ser registrado. 
- Para evitar processos, a única maneira é agir de acordo com a legislação trabalhista. 
- É preciso observar o salário mínimo fixado na legislação, respeitar as folgas semanais, a jornada de trabalho, as horas extras, trabalho em feriados, o 13° salário e respeitar o direito de férias acrescidos do abono. 

Fonte: Lariane Del Vecchio, do escritório Aith, Badari e Luchin Advogado.

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem

Últimas Notícias