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Novela 'Segundo Sol' coloca cultura baiana em evidência; saiba locais dessa culinária em SP

São muitos restaurantes que preparam o autêntico acarajé

Luisa Inês Saliba, dona da Rota do Acarajé - Robson Ventura/Folhapress
Descrição de chapéu Agora
Lara Pires
São Paulo

O Brasil foi contagiado pela malemo­lência baiana com a novela das nove, "Segundo Sol" (Globo), e expressões co­mo "axé" e “não aperte a minha mente” caíram no vocabulário popular. Em São Paulo não é diferente, e a reportagem selecionou locais que trazem tradi­ções da Bahia para perto do paulistano.

São muitos restaurantes que preparam o autêntico acarajé, além de moqueca e bobó de camarão, iguarias típicas do esta­do nordestino. Além deles, há espaços de­dicados à sua cultura. Tudo isso aproxima São Paulo, que começou a receber nor­destinos em 1882, dos costumes da Bahia.

Também ajuda os baianos que moram por aqui a matar a saudade da terra natal. É possível, por exemplo, reunir-se com amigos em bares da cidade para torcer pe­lo futebol do Bahia ou do Vitória. João Emanuel Carneiro, autor da nove­la, conta que sempre gos­tou da cultura baiana.

"Salvador é uma ci­dade que adoro e que me inspira. Minha mãe foi presidente do Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], e eu ia muito para lá com ela”, conta. “Lembro-me de ler ‘Capitães da Areia’, do Jorge Amado, no hotel em que estava hospedado, aos 14 anos. Foi para mim uma verdadeira imersão na cultura baiana. Salvador é uma cidade impor­tante do Brasil. Nosso país possui pou­cos locais com uma identidade visual tão forte como a de lá.”

O estado de São Paulo abriga cerca de 1,7 milhão de baianos, de acordo com o Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasi­leiro de Geografia e Estatística). Segun­do Henrique Trindade, pesquisador do Museu da Imigração, a vinda de baianos para a capital paulista se dá pela busca de trabalho e de melhor posição social.

“A principal motivação é econômica, resumida na facilidade em conseguir empregos e salários melhores. Além disso, é preciso considerar as calamida­des climáticas ocorridas em muitas partes do Nordeste brasileiro –particu­larmente, as secas sucessivas”, analisa.

Consta nos arquivos do Museu da Imigração de São Paulo que a presença de nordestinos em hospedarias de imi­grantes em São Paulo tem registros ofi­ciais desde 1882, mas foi só na década de 1930 que a quantidade de brasileiros que vieram para cá ultrapassou a de es­trangeiros estabelecidos no estado.

Foram os baianos e outros nordesti­nos que ajudaram a erguer a metrópo­le. “As construções da cidade de São Paulo, da década de 1930 para cá, são obras do operariado brasileiro, com destaque para os baianos, até por conta da quantidade deles. Mesmo na lavou­ra se destacaram, contribuindo com a mão de obra necessária”, diz Trindade.

Para o pesquisador, essa mistura fez de São Paulo um exemplo de convivên­cia entre povos e culturas diferentes. “A vinda dos baianos nos ajuda a com­preender o quão multicultural é o nos­so país e quanto ainda temos que aprender a lidar com preconceitos rela­cionados às nossas origens.” “A presença do povo baiano ajuda a entender um pouco o desenvolvimento econômico da cidade, o estabelecimen­to de pequenas lojas, de botecos e de comércios em geral”, completa.

A doméstica Edinalva Gomes da Ro­cha, 41, veio para São Paulo com 12 anos para morar com uma amiga de sua família. Ela é de Iguitu, na Bahia, e costuma frequentar o Centro de Tradi­ções Nordestinas, na zona norte da ca­pital, para ouvir as rezas ali proclama­das junto dos presentes, além de comer quitutes de sua terra natal e ouvir mú­sica.

"É o meu lugar preferido da cidade! Eu venho escutar a oração e a missa da­qui, sempre me emociono.” Edinalva diz ter construído sua vida enquanto crescia na capital paulista. “Tive filho e pretendo continuar moran­do aqui, pois para trabalhar é muito melhor do que na minha cidade. Mas, quando chegar a hora de me aposentar, não sei... Pode ser que eu volte à Bahia. Neste momento, vou lá só uma vez por ano, para visitar a família e os amigos queridos, de quem sinto muita falta."


MOQUECA COM GOSTO DE COMIDA DE MÃE

Conhecido como Zupa, Ezupério da Silva Neto inaugurou o restaurante Consulado da Bahia, na rua dos Pinhei­ros (zona oeste), em 2010. Ele é natural de Vitória da Conquista, na Bahia, e mo­ra em São Paulo há 20 anos. 

"Eu e meus amigos queríamos abrir um restauran­te mineiro ou baiano, aí fui pesquisar como era feito o acarajé tradicional.” O dono do local explica que faz ques­tão de trabalhar com os melhores in­gredientes e fornecedores que conhece, mesmo que isso impacte no preço do produto. “É preferível manter a quali­dade e o sabor dos alimentos. Com isso sou muito exigente”, garante.

Rodrigo Lima, 31, saboreia uma moqueca no Consulado da Bahia
Rodrigo Lima, 31, saboreia uma moqueca no Consulado da Bahia - Robson Ventura/Folhapress

A moqueca de pescado amarelo (R$ 141,90 para duas a três pessoas) e o acarajé tradicional (R$ 16,90) represen­tam 80% dos pedidos. Lá é encontrada moqueca de camarão (R$ 177,90) e a de lagosta (R$ 214,90), ambas acompa­ nhadas de arroz branco e pirão de peixe, que servem de duas a três pessoas.

O arquiteto Rodrigo Lima, 31, nasceu em Salvador, mas mora no Rio de Janeiro há quatro anos. A passeio em São Paulo, visitou o Consulado da Ba­hia pela terceira vez para comer mo­queca. “Os pratos daqui são bem fiéis à tradição baiana, e o sabor é muito im­portante para mim”, afirma Lima. “Não é fácil encontrar um lugar que tenha comida baiana com o tempero de mi­nha mãe. Comer é uma das coisas que mais gosto de fazer”, afirma.

Consulado da Bahia

  • Quando R. dos Pinheiros, 534
  • Onde De ter. a sáb., das 12h à 0h; e dom., das 12h às 22h (Fecha às segundas-feiras, exceto feriados)
  • Tel.: (11) 3085-3873

PRATOS BAIANOS PARA PALADAR PAULISTANO

Quando Rafael Spencer foi transferido de seu antigo emprego, em Salvador, para São Paulo, em 2010, pensou em investir em um restaurante de comida baiana na capi­tal paulista. “Meu pai é chef de cozinha e to­pou abrir o negócio comigo. Meu outro só­cio, Adriano Pessini, chegou depois”, conta.

O nome Sotero, dado ao estabelecimen­to, não vem de soteropolitano (quem nasce em Salvador), como muitos pensam. É ins­pirado em Sotero Moreira, antigo caseiro da casa de veraneio da família de Spencer,
na ilha de Itaparica, na Bahia. “Cresci com ele e quis fazer uma homenagem”, revela.

Bobó de camarão e arroz servidos pelo Sotero
Bobó de camarão e arroz servidos pelo Sotero - Robson Ventura/Folhapress

O proprietário explica que a cozinha do restaurante é dedicada à comida brasileira, com ênfase na culinária baiana. Entre as entradas, é possível encontrar acarajé (R$ 17,90), caldinho de feijão (R$ 12,90) e
bolinho de carne-seca (R$ 5,90 a unidade).

Ao longo de sete anos de experiência no ramo, foram necessárias adaptações ao pa­ladar paulistano. A comida baiana, segun­do Spencer, tem muito mais pimenta e coentro do que a servida no Sotero. “O paladar de quem mora aqui não é o mesmo do baiano, então, fomos aprenden­do aos poucos. E a pimenta é servida à par­te, para o cliente acrescentar se quiser.”

Sotero

  • Quando De ter. a qui., das 12h às 15h e das 18h às 23h30; sex., das 12h às 16h e das 18h à 0h; sáb., das 12h à 0h; e dom., das 12h às 22h (Não abre às segundas-feiras)
  • Onde R. Barão de Tatuí, 282, Vila Buarque
  • Tel.: (11)3666-3066

ACARAJÉS GANHAM RECEITAS CRIATIVAS

Quando abriu as portas do Rota do Acarajé, há 16 anos, no bairro de Santa Cecília (centro), Luisa Inês Saliba tinha um pequeno espaço em que vendia apenas o quitute baiano. Hoje, o local recebe até estrangeiros e oferece, além de acarajés variados, mais de mil rótu­los de cachaça.

"Eu e meu marido fun­damos a casa com uma baiana, que nos ensinou a fazer acarajé e confidenciou que o segredo está na massa”, diz Luisa, que nasceu em São Paulo. “Além do tradicional, para comer com a mão [R$ 21], temos o acarajé à Maria Bonita [R$ 44, a porção com 4 mi­niacarajés], que leva cachaça na massa e é acompanhado de camarão flamba­do na bebida. Servimos, ainda, o acarajé bola de fogo [R$ 56 seis unidades], com pimenta-calabresa na massa.

Prato de Acarajé da Rota do Acarajé
Prato de Acarajé da Rota do Acarajé - Robson Ventura/Folhapress

São cria­ções nossas.” Com o tempo e o sucesso, Luisa contratou outra cozinheira baia­na e passou a oferecer mais pratos típi­cos, como a moqueca de camarão. Em 2008, a casa ao lado foi desocupada, o
negócio cresceu e virou restaurante. O local se transformou em referência de acarajé e vende cerca de 400 unida­des por mês da delícia típica, cuja mas­sa é frita no azeite de dendê e recheada com vatapá, caruru e camarão.

Rota do Acarajé

  • Quando De ter. a sáb., das 12h às 23h30; e dom., das 12h às 21h (Fecha às segundas-feiras)
  • Onde R. Martim Francisco, 529, Santa Cecília
  • Tel.: (11) 3668-6222

DELÍCIAS TÍPICAS EM OPÇÕES VEGANAS

Edvaldo Sacramento nasceu em Vera Cruz, na Bahia, e mora em São Paulo há se­te anos. É chef de cozinha e dono do Digaê Bar e Bahia, na Consolação (centro). Ele diz que aprendeu a fazer acarajé com sua mãe.

“Na Bahia, chamamos acarajé de ham­búrguer de baiano, pois o povo de lá come muito e sempre”, conta. Segundo ele, seu quitute faz sucesso por ficar crocante e ser preparado na frente do cliente, com 100% de azeite de dendê. “Cerca de 80% do públi­co que recebo é baiano, nem consigo perder o sotaque”, diverte-se o simpático chef.

Edvaldo Sacramento, dono do Digaê Bar e Bahia
Edvaldo Sacramento, dono do Digaê Bar e Bahia - Robson Ventura/Folhapress

Em um pequeno espaço na rua Augusta, Sacramento prepara acarajés (R$ 13) e aba­rás (R$ 14). “O abará tem a mesma massa do acarajé, mas é cozido no vapor e envolto em folha de bananeira”, explica.

Para atender a todo tipo de público, o lo­cal oferece também acarajé e abará sem camarão, o que torna os pratos veganos. Há ainda opções de licor caseiro (R$ 30 a gar­rafa) de gengibre, de maracujá, de tamarin­
do, de jabuticaba e de cacau.

Digaê Bar e Bahia

  • Quando Todos os dias, das 21h às 23h30
  • Onde R. Augusta, 1.150, Consolação
  • Tel.: (11) 4117-1338

CTN MANTÉM A TRADIÇÃO NORDESTINA

​Inaugurado em 1991, o Centro de Tradi­ções Nordestinas é um amplo espaço com igreja, parque de diversões (R$ 5 cada brin­quedo), área para shows, restaurantes, ar­tesanato e quiosques com comidinhas e do­ces. A ideia é reunir tudo que é típico do Nordeste _incluindo delícias baianas.

A Casa da Tapioca vende bolo de tapioca a R$ 6 o pedaço. O acarajé custa R$ 20, e a cocada de leite condensado sai por R$ 5. Também são oferecidas guloseimas de outros estados da região. É possível encon­trar chá de amendoim (R$ 10), suco de mi­lho (R$ 10) e caipirinha de caldo de cana (R$ 10).

A família do casal Manoel dos Santos Lima e Claudia Santana, frequentam o espaço sempre
A família do casal Manoel dos Santos Lima e Claudia Santana, frequentam o espaço sempre - Rivaldo Gomes/Folhapress

No restaurante Recanto Potiguar, o prato de carne de sol com mandioca, feijão de corda e arroz sai por R$ 22. A entrada na casa é gratuita, com exce­ção das noites de sexta-feira, em que acon­tecem shows de diversos artistas de forró, sertanejo e forró pé de serra.

O casal de baianos formado pela copeira Cláudia Santana, 44, e pelo motorista Manoel Lima, 47, levou o irmão dela, o empresário Marcondes Santos, 40, e sua família para comer no CTN. “Moro no interior de São Paulo e vim conhecer. Nasci na Bahia e sinto falta da família, das festas e da culinária”, diz Santos.

"!Já eu gosto da correria de São Paulo. Conheci meu marido aqui, tive minha filha e há cinco anos não vou à Bahia. Tenho oito irmãos espalhados pelo Brasil, mas a maior parte da família ainda mora lá”, explica Cláudia. O centro atrai 70 mil pessoas por mês, entre nordestinos, paulistanos e turistas.

Centro de Tradições Nordestinas

  • Quando De seg. a sex., das 11h às 15h; às sex., reabre das 20h30 às 5h. Sáb., das 11h às 5h; e dom., das 12h às 22h (Entrada franca todos os dias, com exceção da noite de sexta, que tem bilheteria com preços variáveis)
  • Onde R. Jacofer, 615, Bairro do Limão
  • tEL.: (11) 3488-9400

BARES RECEBEM TORCIDAS DE BAHIA E VITÓRIA

Paulo Sérgio de Jesus Mota (à esq.), 31,Tenistocles dos Santos Sacramento Jr., 38, e Ademilton Ramos dos Santos, 48, reúnem-se para torcer pelo Vitória
Paulo Sérgio de Jesus Mota (à esq.), 31,Tenistocles dos Santos Sacramento Jr., 38, e Ademilton Ramos dos Santos, 48, reúnem-se para torcer pelo Vitória - Robson Ventura/Folhapress

 Times grandes de futebol da Bahia, como o Esporte Clube Bahia e o Esporte Clube Vitória, têm grupos de torcedores fanáticos em São Paulo. E dois bares da capital paulista recebem essa turma de braços abertos nos dias de jogo.

O empresário Tenistocles dos Santos Sacramento Jr., 38, é líder do Vitó­ria Sampa, torcida do time baiano que se reúne no Rei de Pinheiros, bar da zo­na oeste. “A gente também organiza viagens para assistir aos jogos”, revela.

O grupo Embaixada Bahea Sampa, que vibra com o Bahia em São Paulo, tem mais de 400 integrantes e se en­contra no bar Porto Madalena, também na zona oeste. “Quem estiver em São Paulo e quiser se encontrar conosco é só entrar em contato por nossas redes sociais”, diz Paulo Seixas, presidente.

Bar Porto Madalena

  • Quando Seg, das 11h às 15h; de ter. a qui., das 11h à 1h; sex., das 11h às 3h; sáb., das 12h às 4h; e dom., das 15h até a 1h
  • Onde R. Fradique Coutinho, 1.100, Pinheiros
  • Tel.: (11) 3813-4446

Bar Rei de Pinheiros

  • Quando De seg. a sex., das 6h às 23h; sáb., das 6h às 21h30; e dom., das 12h às 20h
  • Onde R. Cunha Gago, 13, Pinheiros
  • Tel.: (11) 3031-4022
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