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Descrição de chapéu The New York Times

Sensual e feroz: Séries transformam mulheres históricas em heroínas pop

Como 'The Great' e 'Dickinson' limitam entendimento de sucesso feminino

Elle Fanning em cena da segunda temporada da série

Elle Fanning em cena da segunda temporada da série "The Great" Divulgação

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Alexis Soloski
The New York Times

Catarina de Aragão, a primeira mulher do rei inglês Henrique 8º, gostava de bordar e de fazer jejuns por motivos religiosos. Não há muita coisa nos livros de história que sugira que ela fosse a alma da festa.

"Infelizmente, Catarina de Aragão só amava ir à igreja, vivia rezando e não era a pessoa mais animada", me disse a escritora Dana Schwartz, que apresenta o podcast "Noble Blood", recentemente.

Mas no musical "Six", na Broadway, vemos Catarina vibrando suas cordas vocais como uma Beyoncé da era Tudor, usando uma minissaia justíssima e botas com detalhes metálicos –uma perfeita "girlboss", mas no começo da era moderna.

"Six", uma movimentada produção pop sobre as seis mulheres de Henrique 8º, se une a outros trabalhos recentes como a comédia "Dickinson", da Apple TV+, que está concluindo sua temporada final, e "The Great", comédia dramática do serviço de streaming Hulu —no Brasil, ela está disponível no Starzplay— cuja segunda temporada estreou recentemente, ao retratar mulheres notáveis do passado como garotas cool de nossa era.

Estamos falando de história. Mas com maquiagem de contorno moderno. Há décadas, a mídia e a cultura popular vêm conduzindo um esforço coordenado –em geral elogiável, mas ocasionalmente irritante– para recuperar a imagem de mulheres esquecidas e em alguns casos caluniadas.

Pense nos livros "Rebel Girl", nas cinebiografias que conquistam indicações constantes ao Oscar e até mesmo na série de obituários "Overlook", do New York Times, sobre figuras históricas que foram desconsideradas quando vivas.

Alguns desses trabalhos estudam as vidas das mulheres levando em conta contextos históricos específicos, reconhecendo as realizações das protagonistas dentro dos sistemas muitas vezes opressivos que vigoravam em suas eras.

Outros, como "Dickinson" e, em menor escala, "The Great", adotam uma abordagem deliberadamente frouxa quanto aos fatos históricos, inventando privilégios e possibilidades para suas heroínas que não correspondem aos fatos.

Ainda outros, como "Six", parecem submeter a história ao YassifyBot, maquiando as vidas das mulheres de forma a fazê-las parecer mais sensuais, mais ferozes, mais dignas de imitação –como se estivessem sempre prontas para um selfie, muito antes da invenção da câmera fotográfica.

O conceito de "girlboss" [popularizado pelo livro homônimo de Sophia Amoruso em 2014] sempre coloca as mulheres em competição umas com as outras, em lugar de enfatizar as lutas de que todas elas compartilham.

Minimiza a opressão e os vieses ao dar a entender que qualquer mulher tem como avançar se ela simplesmente decidir batalhar e trabalhar o suficiente para subir, o que altera a continuidade histórica e projeta em direção ao passado as ficções necessárias de nosso momento cultural.

Em um momento no qual a cultura popular confunde fama e excelência, trabalhos como esses podem também implicar uma incapacidade de apreciar os méritos femininos se desconsiderarmos o aspecto do sexo e glamour.

O desejo de alterar as mulheres da história de forma a melhorá-las, ei, é ótimo que você tenha mudado o mundo, mas será que você não poderia tê-lo feito vestindo um bustiê? –diz muito mais sobre a nossa era do que sobre o passado. Quando mudamos o enquadramento da história feminina para acomodá-la a uma "story" do Instagram, o que é que perdemos no processo?

Eu provavelmente deveria deixar claro que questões como essa me fazem sentir ranzinza. E odeio isso. Sabe quem não é nem um pouco divertido em uma festa? Os ranzinzas. E além disso, gosto muito de "Dickinson". Admiro "The Great". As canções em "Six" são todas excelentes.

Nenhuma dessas obras aspira a qualquer autenticidade histórica. "The Great", especialmente, traz como assinatura a ousada frase "uma história ocasionalmente verdadeira". E mesmo que a história fosse levada mais a sério nessas produções, musicais e comédias de TV não deveriam ser o nosso método preferencial de aprender sobre o passado.

Além disso, a vida real, mesmo a vida real de grandes mulheres, é quase sempre tediosa. Você assistiria a três temporadas de uma série que mostra Emily Dickinson sentada sozinha em sua escrivaninha, rabiscando versos com um lápis? Mas todas essas séries têm ênfases reveladoras, e exclusões igualmente notáveis.

A nova forma de heroína é ambiciosa, encara o sexo positivamente, e tem uma postura política impecavelmente moderna. Em lugar de compreender essas mulheres como produtos de suas eras, nós as transformamos em criaturas da nossa.

Schwartz me disse que compreende o impulso de dar uma presença sexual mais forte às mulheres da história. Isso concentra a atenção nelas, e corrige o desinteresse de historiadores anteriores sobre o assunto. "Mas ao mesmo tempo tem o efeito coletivo de tornar essas mulheres menos interessantes e menos honestas com relação ao que de fato foram dentro de suas épocas", ela disse.

Pelo menos "Dickinson", criada por Alena Smith, brinca com essa desonestidade de maneira audaz e propositada, tomando o lado selvagem e repleto de desejo que infundia a poesia de Dickinson, se não sua vida, e expressando-o em cenas na qual Emily (Hailee Steinfeld) dança sensualmente nas festas de sua casa e faz passeios de carruagem com a Morte, interpretada por Wiz Khalifa.

A verdadeira Dickinson era introvertida e, apesar de sobrancelhas que continuam na moda, não era uma beldade notável. "Em termos de ser uma garota cool, não tenho certeza de que ela o fosse", disse Monica Pelaez, estudiosa de Dickinson e consultora da série. "A escolha dela foi viver isolada".

A Dickinson histórica não teria se vestido como homem, ou protestado como uma guerreira ecológica, ou tido numerosos amantes, ou exibido o decote em um ousado vestido vermelho. Mas sua poesia e suas cartas conjuram estados emocionais vividos, e por isso a série colore a vida de Emily com esse dinamismo, o que causa uma colisão entre realidade e fantasia.

"O que a serie faz é apanhar essa sensibilidade de sua poesia, e dramatizá-la", disse Pelaez. A Emily que emerge é confiante, interessada em construir uma carreira, fascinante para homens e mulheres, e a série corrige trabalhos anteriores (mesmo filmes recentes como "Além das Palavras", dirigido por Terence Davies em 2016) que ignoravam o lado queer sugerido por suas cartas e poemas.

Mas embora "Dickinson" pareça agudamente consciente do lado sociopolítico da vida na Nova Inglaterra no século 19, a série muitas vezes argumenta em favor de um retrato de Emily –e, em grau menor, de sua irmã, Lavinia (Anna Baryshnikov), e cunhada, Sue (Ella Hunt)– como exceções, distinguindo-as das demais mulheres de Amherst, Massachusetts.

Em lugar de buscar solidariedade entre as mulheres progressistas de sua comunidade, Emily enfatiza essa diferença. "Simplesmente não fui feita para os trabalhos manuais femininos tradicionais", ela se queixa durante uma cena em que mulheres costuram juntas, e a implicação é de que mulheres que tenham sido feitas para isso não mereceriam uma série televisiva de prestígio.

Dessa maneira, Emily se assemelha a Catarina, de "The Great", cuja segunda temporada de 10 episódios estreou no Hulu algumas semanas atrás. Criada por Tom McNamara (que também foi um dos roteiristas de "A Favorita", um filme sobre conflitos na família real britânica que também distorce ligeiramente a História), a série é estrelada pela luminosa Elle Fanning como uma princesa alemã que chega à corte russa como adolescente e não demora a reivindicar a posição de czarina.

Liberta da cronologia e dos fatos, a história distorce a linha do tempo da carreira e do casamento de Catarina. (Basta dizer que o Pedro real teve problemas para consumar a união entre eles, e o Pedro de "The Great", interpretado por Nicholas Hoult, não.)

Brilhante, colorida ou cruel, como uma travessa de confeitos envenenados, a série ocasionalmente retrata Catarina como ingênua. Mas ela aprende rápido, e sua posição política emergente e sua dedicação a avançar são lindamente modernas. Ela quer acabar com as guerras da Rússia, libertar os servos, ensinar as mulheres a ler, vacinar seus súditos. (Isso tudo é mais ou menos fiel à czarina Catarina real.)

E seus vestidos de gala? Um verdadeiro show. O legado da Catarina real, que chegou ao trono não como lânguida adolescente mas como uma mulher experiente de 33 anos, foi, claro, mais complicado. "Ela na verdade expandiu a servidão", disse Hilde Hoogenboom, professora de russo e tradutora das memórias de Catarina.

Hoogenboom descreve "The Great" como uma "versão Disney" da Catarina verdadeira. Para transformá-la em uma princesa de conto de fadas, a série também insiste em diferenciar Catarina das demais mulheres da corte, representando-o como antenada e encantadora, mais bela e mais poderosa do que seus pares.

"Cadela", uma aristocrata rosna. "Imperatriz cadela", Catarina a corrige. A verdadeira Catarina era diferente. (E, já que costumava promover seus amantes e seus aliados homens a postos importantes, tampouco parecia se preocupar demais com a irmandade entre as mulheres.)

Mas foi só uma entre diversas mulheres chefes de Estado do século 18, entre as quais a czarina Elizabeth, sua predecessora imediata, um fato que "The Great" convenientemente exclui. Em lugar disso, a série retrata Elizabeth (Belinda Bromilow) como uma ninfomaníaca indecisa, buscando elevar Catarina ao rebaixar Elizabeth (e suas roupas de baixo).

"Six", criado por Lucy Moss e Toby Marlow, coloca suas mulheres em competição de maneira ainda mais explícita, estruturando a trama como um concurso de canto à maneira de "American Idol". A história não hesita em explorar traumas, ao exigir que cada mulher cante não sobre seu caráter ou integridade, mas sim sobre os males que lhes foram causados pelas carnudas mãos do rei.

Eis as regras, como a canção de abertura detalha: "A rainha que tiver recebido as piores cartas/ A rainha que tiver enfrentando mais dificuldades/ A rainha para quem as coisas não saíram como planejadas/ Vai ser aquela que comandará a banda".

Antes de terminar em um gesto praticamente vazio de solidariedade, "Six" simplifica e atualiza muitas dessas mulheres, fazendo da astuta operadora política Ana Bolena uma cortesã sensual, enquadrando Katherine Howard, vítima de gritantes abusos, como uma adolescente sedutora ("trancafiem seus maridos/ trancafiem seus filhos / K Howard chegou, e a festa vai começar").

Os figurinos do espetáculo se enquadram às normas do pop e sexualizam todas as mulheres, acoplando seu valor como pessoas à gostosura de seus corpos. Em sua canção, Katherine Parr, a viúva de Henry, lembra os ouvintes de suas realizações: "Escrevi livros, salmos e meditações/ Lutei pela educação das mulheres/ Para que todas as minhas damas pudessem estudar as Escrituras independentemente /Até contratei uma mulher para pintar meu retrato/Por que não posso contar minha história?)

De fato, por que não? Em lugar disso, as canções de "Six" estão centradas no relacionamento entre cada mulher e Henrique, enfatizando o que o atraiu nelas (ou o que o levou a rejeitá-las) de preferência às realizações das consortes.

"As coisas que essas mulheres estavam fazendo deveriam ter interesse histórico independentemente de elas estarem ou não casadas com essa [palavrão] de sujeito", disse Jessica Keene, professora de história que estuda o período Tudor.

A substituição da excelência pela sexualidade pode se estender até mesmo às séries mais esclarecidas. O episódio em que as mulheres costuram, em "Dickinson", tem uma participação especial dinâmica da ativista feminista negra Sojourner Truth (interpretada pela escritora e apresentadora de TV Ziwe).

Porque "Dickinson" é uma série altamente conscientizada, o texto brinca com a aparência jovem de Ziwe ("tenho mais ou menos 66 anos, mas continuo bonita demais"), e com a expressão de sensualidade da personagem ("com esse vestido, todo mundo vai saber que sou mulher").

Mas a verdadeira Sojourner Truth, que começou a exercer um papel público já na meia-idade, não usava o sexo como ferramenta. Corrine Field, que pesquisou sobre ela, a descreve como uma figura que criticava a beleza juvenil e a sexualidade.

"Toda a sua carreira pública foi construída na posição de alguém que já tinha passado da juventude e ocupava uma posição de poder e carisma que não dependia da beleza juvenil", disse Field. Perguntei a ela o que perdemos quando "Dickinson" retrata uma mulher como Truth dessa maneira. "Um investimento em redes intergeracionais de cuidado mútuo", disse Field, sem nem parar para refletir. "Precisamos pensar sobre como sustentar o empoderamento feminino ao longo de toda uma vida".

Se criadoras de séries, e mesmo criadoras com objetivos explicitamente feministas como Smith e Moss, não acreditam que a audiência prestará atenção a protagonistas mulheres que não sejam bonitas ou jovens, o provável é que enquadrem o empoderamento de maneira estreita.

E talvez isso seja necessário, em certo nível. Versões mais recentes e mais precisas de relatos sobre essas mulheres –como "Além das Palavras", "Catherine the Great" (2019) e "Ana Bolena – A Rainha" (2021)– tendem a ser menos divertidas. "Se para elevar figuras históricas femininas aos olhos do público precisamos transformá-las em ‘girlbosses’, que seja", disse Schwartz.

O conhecimento adquirido assim pode encorajar os espectadores a procurar o que Schwartz define como "fontes historicamente acuradas". E nelas, será possível descobrir que as mulheres às vezes mudaram o mundo usando saltos baixos, ou sem serem especialmente sexy ou jovens. Algumas dessas mulheres podem até ter sido competentes em trabalhos manuais femininos tradicionais. E onde está a versão televisiva disso?

Traduzido originalmente do inglês por Paulo Migliacci

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