Televisão
Descrição de chapéu
racismo

Vitória de negros nos principais realities do Brasil não arrefece a luta

Por que brasileiro vota em negros em realities e não elege representantes negros?

Jojo Todunho, Kauê Penna, Thelma Assis e Victor Alves - Montagem
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Alberto Pereira Jr.
São Paulo

"Pelo menos hoje, que as balas, a pandemia, a morte, o racismo, o sexismo, o feminicídio e todas desgraceiras do mundo se afastem de nós”, escreveu Conceição Evaristo, mulher negra, escritora mineira aclamada pela crítica e pelo público, em uma rede social.

O texto tinha como objetivo endossar votos para Jordana Gleise de Jesus Menezes, 23, a Jojo Toddynho, grande vencedora da 12ª edição de A Fazenda (Record), nesta quinta (17).

No mesmo dia, Victor Alves, do time da cantora e técnica IZA, levou o título do The Voice Brasil (Globo). A mesma emissora já havia premiado outras duas pessoas negras em realities em 2020: o jovem Kauê Penna, no The Voice Brasil Kids, em outubro, e a médica anestesista Thelma Assis, a Thelminha, no Big Brother Brasil 20, em abril.

Alguém mais desavisado –que nega, desconhece ou minimiza o racismo estruturante da sociedade brasileira– deve bradar aos ventos, sejam virtuais ou presenciais, que essas vitórias são provas cabais de como o país está resolvido ou avançado na luta antirracista.

Mas a realidade nacional extrapola o que as câmeras de TV registram. E foram outras câmeras, a de celulares, que deram novo impulso à discussão e a alguma ação contra as barbaridades cotidianas e invisibilizadas do genocídio negro aqui e no exterior.

Especialmente nesse 2020 de pandemia e recomendação à quarentena e ao distanciamento social.

Reality shows como A Fazenda e BBB costumam se apresentar, para além de entretenimento, como estudos sociais e antropológicos. Confinam alguns indivíduos, que não se conhecem ou não convivem diariamente, em um ambiente monitorado, para a disputa de um prêmio milionário.

Nesses pretensos laboratórios –com piscina, bebida, festas, tarefas predeterminadas e regras que geram conflitos e eliminações–, cada participante joga seu jogo num misto de cálculo consciente e humanidade. Levam consigo sonhos, metas, desejos pessoais e, também, dores e preconceitos vivenciados no dia a dia.

Não são esses realities promotores iniciais de discussão social. Mas acabam se tornando palcos que repetem, refletem e replicam para as massas as inúmeras discriminações naturalizadas no dia a dia. Parafraseando Conceição Evaristo: o racismo, o sexismo, o feminicídio… e também a LGBTfobia, o etarismo etc… E, então, esses programas reverberam o que a massa do lado de cá da tela pensa, a partir das edições e escolhas do que vai ao ar.

Mulher negra, gorda e periférica, a funkeira Jojo Toddynho –de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro–, caiu nas graças do público desde os primeiros dias de A Fazenda. Metralhadora de memes, traz no próprio corpo características que a fazem ser alvo da estrutura. Sobrevivente, aprendeu a usar essas características também a favor de si. Não foi diferente no convívio com os outros confinados no programa. Enfrentou gordofobia, racismo e sexismo. Humana, também reproduziu, em alguma escala, assédios e preconceitos.

Sua vitória, assim como as vitórias de Thelminha (também impulsionada diretamente pela temperatura racializada do mundo atual) e de Kauê e Victor (numa competição em que talento artístico e história de vida se unem), coroa um ano de dificuldades e movimentação em torno do lema Vidas Pretas Importam. As vitórias assentam algumas importantes transformações sociais, mas não arrefecem a luta, que vai além da representatividade.

Se a população negra –composta de pretos e pardos– no Brasil é de mais de 50%, porque esses mesmos programas ou outros não trazem essa proporcionalidade explícita seja no elenco seja no corpo diretivo e criativo?

Por que os mesmos brasileiros que votaram maciçamente nesses representantes negros ainda não votam com o mesmo peso em representantes negros?

A TV e o entretenimento criam e constroem novas narrativas e subjetividades. Que celebremos vidas negras e narrativas negras e LGBTs e indígenas e femininas e tantas outras histórias e vozes sempre. Falando de si, a partir de si, mas não apenas sobre vulnerabilidade e carência.

E bons exemplos tivemos nesse sentido, o documentário “AmarElo - É Tudo pra Ontem”, de Emicida para Netflix; o especial Falas Negras (Globo), as entrevistas de Silvio Almeida, Djamila Ribeiro e Preto Zezé no Roda Viva (Cultura), que, finalmente, também resolveu incluir mais diversidade na bancada de entrevistadores. O aniversário de um ano da Trace, plataforma global de cultura afro urbana, no Brasil, com iniciativas como a revista eletrônica Trace Trends e o canal a cabo Trace Brazuca...

A humanidade é plural e deve abarcar essa pluralidade.

Alberto Pereira Jr. é ator e jornalista, é responsável pelo programa ‘Trace Trends’, sobre cultura afrourbana, que vai ao ar na Trace Brazuca e na RedeTV​

Final do conteúdo
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem