Televisão

Marcos Caruso lembra abuso na TV e diz que Estatuto do Idoso é 'conquista da dramaturgia'

Atores falam da importância de 'Mulheres Apaixonadas' para a lei

Flora (Carmem Silva), Carlão (Marcos Caruso) e Leopoldo ( Oswaldo Louzada)
Flora (Carmem Silva), Carlão (Marcos Caruso) e Leopoldo ( Oswaldo Louzada) - Acervo/TVGlobo
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São Paulo

“O vô agora vive tendo tontura, até demente está ficando. Vô, desse jeito vai ter que ir para o hospital, vai ter que ficar internado, sabia? Daqui a pouco, vô, vai estar fazendo xixi nas calças, vai ter que usar fraldinha”, diz a adolescente Dóris (Regiane Alves) ao avô Leopoldo (Oswaldo Louzada) em uma cena de “Mulheres Apaixonadas”, novela de Manoel Carlos exibida na Globo em 2003 e atualmente no ar no canal Viva (às 23h, de segunda a sábado).

"Já não basta vocês serem um encosto nesta casa, vão ficar ainda pegando no meu pé?”, diz Dóris em outra sequência, dessa vez dirigindo-se também à avó Flora (Carmem Silva). “Está na hora de vocês se ligarem e saírem desta casa direto para um asilo”, continua a adolescente, que não se conformava em não ter um quarto só para ela —o dormitório era dividido com o irmão Carlinhos (Daniel Zettel).

De partir o coração de qualquer um, as cenas em que Dóris humilhava os avós comoveram de tal forma os telespectadores —e as autoridades do país— que a novela ajudou a acelerar a aprovação do Estatuto do Idoso no Congresso Nacional.

Regiane, Carmem e Louzada chegaram a ir à Brasília debater o tema. A Lei 10.741, que enfim instituiu o estatuto, foi publicada em 1º de outubro de 2003, tendo completado 17 anos na quinta (1º). De modo a garantir os direitos dos brasileiros com 60 anos ou mais, a lei lançou dispositivos de proteção contra abandono, discriminação e violência física e psicológica, por exemplo, inclusive com penas de prisão.

“É uma conquista da dramaturgia, uma conquista da arte”, diz Marcos Caruso, 68, que na novela interpretou Carlão, pai de Dóris, em entrevista por telefone. “A novela não é apenas entretenimento, ela tem um caráter formativo e um caráter informativo. Não só essa, mas várias novelas.” “Algo que me deixa feliz é saber que um trabalho que eu fiz ajudou numa causa tão importante”, acrescenta Regiane Alves, 42, por email.

Os atores se recordam com saudade de Carmem e Louzadinha —como era chamado pelos colegas—, que na época das gravações já tinham 87 e 91 anos, respectivamente. Ambos morreram em 2008, cinco anos após a exibição de “Mulheres Apaixonadas”.

“Houve uma química muito forte entre nós, quando nós nos conhecemos e nos apresentamos”, conta Caruso sobre os atores que interpretaram o pai de Carlão. “E conforme as cenas aconteciam, nós ficávamos muito chocados, era uma dor muito grande. Porque eles não estavam interpretando dois idosos, eles eram dois idosos”, lembra.

Regiane conta que, encerrada a gravação, era mimo para todo lado. “As cenas com os avós eram as mais doloridas, porque ela falava muitos absurdos. Eu não tenho nada a ver com a Dóris (risos). Mas, na hora da cena, eu me desligava disso. Depois era só carinho com o Oswaldo Louzada e a Carmem Silva”, diz.

“A Dóris deu certo porque tinha os dois como parceiros de cena. Artistas generosos e muito queridos. Tivemos uma troca especial. Tenho que destacar também a parceria com o Caruso, uma troca intensa e especial. Foi um trabalho feliz.”

Sim, feliz também. Porque, apesar da crueldade em cena, o elenco conseguia se divertir atrás das câmeras.

“Como eles eram velhinhos, houve uma cena com o Caruso em que o Louzadinha não conseguia ouvir o que ele falava. E no meio da cena a gente combinou, o Caruso disse ‘quando acabar a minha frase, vou passar a mão na minha careca; quando eu passar a mão, você dá seu texto’. O próprio Louzadinha riu, o Caruso riu. Todo mundo se divertiu nessa cena”, conta Regiane.

"SURRA FOI DESEJADA PELO PÚBLICO"

O telespectador de “Mulheres Apaixonadas” sofria com o drama de Flora e Leopoldo. “Manoel Carlos fez com que o público pedisse a surra. A surra foi esperada, desejada, pelo público. “Eu saía na rua e as pessoas pediam, clamavam, ‘bata nela, faça alguma coisa’. Eu não aguentava mais”, conta Caruso, lembrando que Carlão foi o primeiro papel a lhe dar visibilidade na TV.

“Isso é maestria do Manoel Carlos. Quanto mais as pessoas exigem de mim, ator, que tome uma atitude em relação a essa situação, mais o autor está plantando uma grande cena. E aí aconteceu. E quando aconteceu, foi um sucesso extraordinário, deu pico no Ibope, aquelas coisas todas que acontecem quando você tem uma grande expectativa para uma cena”, lembra o ator sobre a sequência em que Carlão bate em Dóris com um cinto.

Com Regiane Alves, como se pode imaginar, a recepção do público foi um pouco diferente —ela chegou a ser agredida por fãs da novela. “Lembro de ocasiões muito marcantes. [Uma vez] fui ofendida dentro de um elevador. Entrei, estava distraída, e a mulher me perguntou, ‘ah, você que é a neta má?’. Ela estava com um jornal na mão e pá! ‘Seja mais educada com seus avós’.”

Doris (Regiane Alves) leva uma surra de cinto de seu pai, Carlão (Marcos Caruso)
Doris (Regiane Alves) apanha do pai, Carlão (Marcos Caruso) - Acervo/TVGlobo
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