Televisão

Primeira vilã da TV diz que apanhava na rua, mas que personagem era santa perto de Carminha

Arlete Montenegro também dublou Miranda Priestly, de 'O Diabo Veste Prada'

Arlete Montenegro
Arlete Montenegro - Greg Salibian -26.out.2019/Folhapress
São Paulo

Se hoje as malvadas da televisão são amadas pelo público, no passado era bem diferente. Que o diga a atriz Arlete Montenegro, 81, intérprete da primeira vilã de novelas brasileiras. Ela deu vida a Belinha, de "Ambição", trama assinada por Ivani Ribeiro (1922-1995), que foi ao ar em 1964, na Rede Excelsior. 

"São Paulo inteira tinha ódio de mim. Uma mulher me bateu no supermercado, ela me pegou pelo pescoço. Se não fosse o meu namorado me acudir, ela tinha acabado comigo", diz Arlete em entrevista ao F5

E olha que perto das maldades de Carminha (Adriana Esteves), de "Avenida Brasil" (Globo, 2012) que é reprisada no Vale a Pena Ver de Novo, Nazaré Tedesco, de "Senhora do Destino" (Globo, 2004), e Josiane (Agatha Moreira), de "A Dona do Pedaço" (Globo, 2019), Belinha era uma "santa", diz a atriz. 

"Era uma bobagem [as maldades dela]. Ela nunca mandou matar ninguém", afirma. Na história, Belinha queria ascender socialmente e fazia de tudo para atrapalhar o namoro da irmã, Guida (Lolita Rodrigues) com o rico Miguel (Tarcísio Meira). 

"O que ela fazia era queimar o vestido da irmã para que ela não saísse com o namorado e ela fez o pai perder o emprego, porque ela queria muito dinheiro", conta. Montenegro afirma que recebia muitas cartas de telespectadores que a xingavam pelas vilanias de sua personagem.

"Durante a novela inteira, eu vivia caindo na rua sem querer, vivia com gripe, com espinha na cara de tanta energia ruim que me mandavam", afirma ela, que é espírita.

No último capítulo de "Ambição", que foi gravado na igreja da Consolação, em São Paulo, e mostrava o casamento da mocinha com Miguel, Arlete brigou com o diretor da novela, Dionisio de Azevedo, porque ele queria que a atriz ficasse atrás das pilastras do templo fazendo caras e bocas. 

O problema é que a produção tinha convidado o público a acompanhar as gravações. "Você imagina, ia São Paulo inteira me bater. O meu noivo disse que eu não iria, e viajamos para Peruíbe [litoral paulista] para não ter jeito mesmo de participar da cena", lembra. 

INÍCIO E CHANCE NA GLOBO

De origem humilde, Arlete começou a carreira artística na Rádio São Paulo aos 13 anos, depois de ganhar em primeiro lugar um concurso que buscava uma nova estrela para a emissora. A atriz conta que participou da disputa sem a família saber. Quando ela foi descoberta houve uma grande briga. 

'Até conselho de família fizeram, porque na cabeça deles, eu ia ser puta, né. Você acredita que a minha mãe fazia meu primo ir comigo na rádio para eu não virar puta. Eu nem sei o que ele ia fazer, porque ele era mais novo que eu..", relata, aos risos. 

Em pouco tempo, ela já estava fazendo dez radionovelas por dia. De lá para a TV foi um caminho natural. Fez Isabel, a filha de Lola e Júlio, na primeira versão de "Éramos Seis", de 1958, da Record, e muitas outras histórias conhecidas.

Na Globo, que se tornou a principal produtora de novela do país a partir dos anos 1980, Arlete só estreou em 1995, aos 56 anos, em "Cara e Coroa". "Eles me chamaram algumas vezes antes, mas estava com marido doente, filho pequeno, e ir para o Rio seria um transtorno."

Longe da TV, ela se dedicou às dublagens e ao teatro. Curiosamente, foi por seu trabalho na peça "Descalços no Parque", que fez grande sucesso em São Paulo, que o diretor Wolf Maya a convidou para a novela. 

"Ele me chamou porque achava que eu era uma atriz de teatro. No primeiro dia de gravações, ele assustou e disse: 'Nossa, mas você sabe tudo [como se posicionar para as câmeras]. Eu falei: 'Úe, faço televisão a vida inteira'." 

A última produção da Globo que Arlete trabalhou foi em "O Profeta" (2006), como Filomena. "Ou você faz uma grande má ou uma pessoa muito engraçada para aparecer. Gente comum, por melhor que você faça, não aparece, não é destacada. Não fiz na Globo grandes papéis, mas ainda pretendo fazer", diz. 

Enquanto isso, ela segue com as dublagens, em que sua voz é reconhecida por trabalhos marcantes, como a vilã Miranda Priestly, do filme "O Diabo Veste Prada" (2006). "Tem gente que me chama e fala assim: 'Vem aqui dar uma de Meryl Streep [atriz que faz a personagem no filme americano] para nós, vai lá no departamento de finanças dá uma bronca neles. E eu vou", relata, aos risos. Arlete costuma ser a voz de Streep em outras produções também. 

Ela também já foi reconhecida no supermercado por dublar a mãe da protagonista da novela turca "Sila: A Prisioneira do Amor", exibida em 2016, na Band. "Eu estava no caixa e falei alguma coisa, então, a balconista disse: 'Meu Deus, é a voz da novela turca. Por que a senhora tem essa voz?' Eu respondi: 'Porque sou eu que faço'. Ela chamou todo o mundo, tirou foto, foi uma loucura", relata. 

Além das dublagens, no momento, Arlete conta que ensaia a peça "O Mistério de Gioconda". Na comédia, que deve estrear em 2020 em São Paulo, ela vai interpretar uma americana. "Vou fazer uma coisa que nunca fiz."

E seus projetos não param por aí. A atriz quer se inscrever para participar do quadro Quem Quer Ser um Milionário?, do programa Caldeirão do Huck. "Eu acerto todas as respostas. Preciso de grana para ter uma velhice tranquila [...] na minha cabeça, eu tenho 18 anos."

Final do conteúdo

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem