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Gabrielle Joie, a Michelly de 'Bom Sucesso', diz que tentou se 'masculinizar' contra preconceito

Atriz trans conta que deu pequenos sustos na família com transição

Gabrielle Joie, atriz, 21 - Instagram/gabejoie
Leonardo Volpato
São Paulo

​A atriz Gabrielle Joie, 21, interpreta atualmente a personagem Michelly na novela das sete da Globo, “Bom Sucesso”. Na história, a mocinha, de 15 anos, sofre preconceito na escola por ser trans e é a cupido dos amigos Gabriela (Giovanna Coimbra) e Patrick (Caio Cabral). Só que esse fato não é apenas pano de fundo em novela. Na vida real, Joie também sentiu na pele a discriminação. E tudo começou dentro de casa.

“Desde pequena que eu sabia que eu era muito feminina. Antes de ter informações e descobrir que o nome disso era transexualidade eu sofri preconceito. Eu tinha 13 anos e já percebia que estava muito angustiante e diferente. Então tentei me masculinizar, jogava futebol, me juntava mais aos meninos, mas percebi que não era eu”, relembra.

Gabrielle conta que nunca chegou a assumir para a família a sua condição, mas que mostrava, bem aos poucos, as mudanças em seu corpo e no jeito de se vestir. “Fui fazendo a transição por etapas. Chegava em almoço de família maquiada e dava o primeiro susto. Então, em outro momento, aparecia de salto e dava outro susto. Isso foi crucial e hoje em dia minha família me adora e me agradece por eu tê-los levado em consideração”, revela.

Foi com 16 anos que a angústia pela busca da identidade bateu mais forte. A atriz começou a tomar hormônios para acelerar o processo de se tornar mais feminina. A essa altura ela já sabia o nome do que até então desconhecia. As primeiras conversas foram com garotas de programa trans do bairro. Elas eram suas melhores amigas e as pessoas com as quais podia se abrir.

“Falei para a família dos hormônios, mas também foi de forma sutil. Fui me sentindo mais a vontade. Agora agradeço a mim mesma”, conta Joie. A atriz não pensa, pelo menos nesse momento, em colocar silicone nos seios ou em fazer a cirurgia de redesignação sexual. “Me sinto confortável com o corpo que tenho e sou feliz em não ter feito nenhuma cirurgia. Mas não sei o que pode acontecer daqui dois, cinco anos”, define.

Natural de Ceilândia, região administrativa do Distrito Federal, Gabrielle nunca havia trabalhado como atriz. Ela ganhava a vida como vendedora em uma boutique em São Paulo, era modelo e desde 2017 fazia vídeos para o YouTube. Um deles, em que falava sobre a transexualidade, foi assistido por um diretor de TV que a chamou para testes. Depois disso, os testes viraram rotina, e alguns deles foram na Globo. Seu primeiro papel na emissora foi como uma das pacientes da série “Sob Pressão”, onde interpretava uma trans que havia colocado silicone industrial e corria risco de morte.

Na sequência, ganhou uma oportunidade ao lado de Grazi Massafera em “Bom Sucesso”. Para ela, o céu é o limite a partir de agora. “Fazia teatro na escola como recreação. Mas já gostava. Hoje em dia ter a chance de fazer isso profissionalmente é um prazer. Fico cada vez mais apaixonada. Me vejo atuando nos próximos anos, em mais series, mais novelas, tudo”, conta. Joie já gravou uma série para o Cana Brasil que deve estrear em outubro: “Toda Forma de Amor”. O papel também é de uma personagem transexual.

“Nós [trans] estamos tendo abertura para ocupar lugares que antes não eram nossos. Estamos entrando na TV, na capa da revista e isso é importante. Querendo ou não, é uma cota, mas acho importante a representatividade. Queremos humanizar a questão da transexualidade, porque uma vez humanizada fica mais comum”, opina Gabrielle, que cita a amiga e também trans Glamour Garcia, a Britney de “A Dona do Pedaço”.

A partir de agora, o sonho de Gabrielle é ser chamada para estrelar um papel de uma mulher e não mais de uma trans. “É tudo questão de darmos pequenos passos. Vivemos em sociedade preconceituosa, mas acho que eu ser trans e estar ali é oportunidade de mostrar que tenho talento para representar. Daqui uns anos espero ser chamada para papel de mulher, espero que aconteça.”

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