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Machado de Assis ajudou autor de 'O Tempo Não Para' a descobrir palavras extintas do vocabulário

'Vai encher a burra de cobres!', disse Agustina em capítulo recente

O ator Edson Celulari é Dom Sabino, pai de Marocas (Juliana Paiva), personagens que ficaram congelados por mais de cem anos
O ator Edson Celulari é Dom Sabino, pai de Marocas (Juliana Paiva), personagens que ficaram congelados por mais de cem anos - Globo
Fabiana Schiavon
São Paulo

Os "congelados" da novela "O Tempo Não Para" (Globo) não tiveram que se adaptar só às roupas e aos costumes dos tempos modernos. A novela mostra com bom humor que a língua portuguesa falada hoje é totalmente diferente da usada no século 19. 

Durante o leilão de joias de Cesária (Olívia Araújo), Agustina (Rosi Campos), ao ver os lances dados pelas peças, solta a frase: “Vai encher a burra de cobres!”.

Damásia (Aline Dias), agora escrava liberta, não percebe o quanto está sendo explorada por Coronela (Solange Couto) e quando Elmo (Felipe Simas) questiona o contrato entre as duas, a mocinha diz com firmeza: “Sinhá tem razão, estou apalavrada com ela”, mantendo-se firme ao contrato verbal feito com a sua chefe. 

Dom Sabino (Edson Celulari) reclama o tempo inteiro dos anglicismos (termos usados em inglês), muito utilizados hoje, e diz frases e palavras que deixam qualquer um cheio de interrogações na cabeça. 

Não é fácil chegar a esse bom equilíbrio de termos antigos sendo ditos em tempos atuais. Ao contrário dos diálogos de novelas de época, o autor Mário Teixeira conta que se preocupou em usar palavras mais coloquiais, utilizadas mesmo no dia a dia daquele século.

"Algo que me seduz muito é quando as palavras fogem do dicionário”, conta o autor, lembrando que algumas palavras citadas pelos “congelados” nem no dicionário ele encontrou. “Só entendi o termo após se aprofundar no contexto do texto escrito." 

O autor diz que encontrou esses termos em livros da época. "Usei basicamente os livros da época, o ‘Quincas Borba’ [1891], o ‘Memorial de Aires’ [1908], livros do Machado de Assis, que têm mais a temperatura das ruas, menos intimistas que os livros mais conhecidos dele”, afirma Mario Teixeira, autor da trama.

Algumas publicações foram escolhidas a dedo e coincidem com a época do naufrágio do Albratroz, mostrado na trama no primeiro capítulo. “Sempre com o intuito do resgate de linguagem, usei muito Aluísio Azevedo [1857-1913] também, como o ‘Mattos, Malta ou Matta?’, romance publicado originalmente na revista A Semana, em 1885, um ano antes do naufrágio do Albatroz. Como foi publicado em forma de folhetim, é repleto de termos e locuções da época. Também me foram úteis as cartas de Álvares de Azevedo, bem como a sua poesia jocosa, que é rica em termos coloquiais”, explica o autor. 

Com o decorrer da trama, os personagens devem soar um pouco mais modernos, mas é difícil que eles percam a sua essência, segundo o autor. “É normal que eles incorporem os termos da época, sem jamais perder a identidade léxica do seu tempo”, afirma.

De qualquer forma, os personagens vão continuar distribuindo amor como disse Paulina (Carol Macedo) a Marocas, sua amiga do século 19. “Você diz muitas palavras difíceis, mas eu te entendo seu olhar”.

DICIONÁRIO DO SÉCULO 19

  1. Címbalo: Instrumento medieval constituído de campânulas que produziam som de um carrilhão

  2. Peralvilha: Peralta

  3. Mandrião: Que ou aquele que demonstra preguiça ou falta de empenho em qualquer atividade; indolente, madraço, mandrana, preguiçoso

  4. Chicaneiro: Que ou aquele que faz ou vive de chicana; chicanista, rabulista, trapaceiro: “não perdia junto dela ocasião de desconceituar José Manuel, [à] e dona Maria, de espírito demandista e chicaneiro, dava o cavaco por um mexerico”

  5. Rábula: Advogado chicaneiro que embaraça as questões com os artifícios que a lei lhe faculta: “Advogava unicamente no cível e no comercial. Isto de ‘crime’, dizia ele com asco, ‘só para rábulas’”

  6. Mansarda: Tipo de telhado com duas superfícies de inclinação diferente, uma quase vertical e outra quase horizontal

  7. Poltrão: Que ou aquele que não tem coragem; covarde, medroso, pusilânime.

  8. Biltre: Que ou aquele cujo comportamento é vil; cafajeste, canalha, velhaco: “Mas, o outro, rufião biltre, não tinha emenda, se desbragava, não cedia desse atrevimento” (PE). É um indivíduo biltre, um grande pilantra. “E o Campos que o tinha na conta de um rapaz honesto! [à] Calculava já o que não teria feito o biltre na casa de pensão!”

  9. Messalina: Mulher dissoluta, libertina

  10. Doidivanas: Pessoa que tem pouco juízo; doidivana, girolas, inconsequente, leviano.

  11. Finório: Diz-se de ou indivíduo astucioso que se faz de ingênuo: É um bandido finório, que engana principalmente os idosos. “Uma coisa não pode ela, acusar-me de finório, destes que dilapidam o nome e o patrimônio comum. Não darei a Conceição outros motivos de queixa além dos que já tem”

  12. Maganão: Que ou aquele que pratica muitas maganices; grande magano (Que ou aquele que tem expedientes para enganar; malandro, velhaco

Fonte: Michaelis

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