Saiu no NP

SAIU NO NP: Rei da Boca e da fuga faz fama com livro e drogas

Exploração do meretrício, assaltos e tráfico de drogas encorpam a lista de "atividades" exercidas pelo famigerado criminoso Hiroito de Moraes Joanides, que na década de 60 ganhou da polícia e da imprensa a alcunha de Rei da Boca do Lixo, por sua atuação impiedosa no submundo da lendária região do centro paulistano, também conhecida como "Quadrilátero do Pecado", hoje Cracolândia.

Hiroito, que foi batizado em homenagem ao imperador japonês Hirohito (1901-1989), nasceu em 1936, em Morretes (PR). Migrou para São Paulo em 1948, quando tinha 12 anos. Ainda jovem, aos 21 anos, perdeu o pai, assassinado a facadas, em episódio que ele considerou a maior catástrofe de sua vida.

A relação conflituosa que mantinha com o pai levou a polícia a acusá-lo de parricídio, crime que negou veementemente até que as autoridades descobrissem os verdadeiros culpados, dois anos depois. Esse tempo, porém, moldou Hiroito. Inconformado com a rejeição dos amigos, dos vizinhos e da família, que não acreditavam na sua inocência, escolheu o crime como refúgio.

Com características excêntricas - óculos fundo de garrafa e admirador do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) e do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867) -, tornou-se um criminoso diferenciado.

Crédito: 20.fev.1962 - Acervo UH/Folhapress
Hiroito de Moraes Joanides, durante entrevista à reportagem do "Última Hora" na 4ª Delegacia Distrital, em São Paulo

De acordo com a imprensa da época, além das singularidades, Hiroito transformou-se num dos bandidos mais cruéis da capital paulista. Para manter a liderança, executou alguns de seus maiores rivais -o primeiro deles morreu com com sete tiros.

Franzino e míope, o paranaense não foi o único a ser agraciado com o título de rei. Um de seus principais desafetos, Quinzinho (1922-1984), também foi alçado ao posto pela mídia. Em uma confusão envolvendo mulheres, Hiroito foi considerado o principal suspeito pela tentativa de assassinato de Quinzinho, numa emboscada noticiada por vários jornais da época.

Quando o "Notícias Populares" começou a circular, em outubro de 1963, o paranaense já atuava havia quase cinco anos no crime e contava com mais de 30 passagens por várias delegacias da capital paulista.

Uma das primeiras menções ao nome do famoso criminoso no "Notícias Populares" ocorreu em 31 de outubro de 1964, quando, às vésperas de ser libertado da Casa de Detenção, onde cumpria pena pelo sequestro do corretor Harry Grossi, foi surpreendido com mais uma condenação, desta vez por ter disparado três tiros contra seu comparsa de crime, Osni Freitas, de 33 anos.

Nessa ocasião, Hiroito foi condenado a sete anos de reclusão, pena que, meses depois, foi reduzida em um ano.

Em junho de 1970, recém-saído da Casa de Detenção, o Rei da Boca do Lixo foi novamente detido com drogas, mas, desta vez, conseguiu ser liberado pela polícia. No final de 1971, acabou autuado por tráfico e ficou detido até o início de 72. A maior pena que o criminoso recebeu, porém, ocorreu em setembro de 1972, quando, aos 36 anos, acabou sentenciado a pouco mais de oito anos de prisão, por tráfico de entorpecentes e pequenos delitos.

Homem de fugas, em agosto de 1975, aproveitando-se de uma autorização para visitar a família - esposa e filhos -, Hiroito conseguiu fugir da Colônia Agrícola de Bauru. Cinco meses depois, foi recapturado. Ele estava em companhia de Nelson da Silva, o Nelsinho, de 33 anos, pistoleiro acusado de dois homicídios. Com eles, foram apreendidos dez televisores em cores -roubados de uma loja-, uma carabina calibre 12, revólveres e munição.


Entre as fugas e as prisões, Hiroito escreveu na cadeia a autobiografia "O Rei da Boca", lançada em agosto de 1977, mês em que teve a liberdade anunciada. O livro, tido como um best-seller, vendeu 30 mil cópias. No ano seguinte, já gozando de seu momento como celebridade, foi o convidado do programa de entrevistas "Vox Populi", da TV Cultura, por onde passariam personalidades como Chico Buarque, Grande Otelo e Florestan Fernandes.

Os ganhos como escritor, entretanto, não foram suficientes para que o marginal deixasse o crime. Em novembro de 1980, aos 45 anos, Hiroito amargou mais uma prisão em flagrante. Com ele, foram apreendidas drogas, armas e joias.

Encaminhado à Casa de Detenção, conseguiu transferência, um ano depois, para a Cadeia Pública de Taboão da Serra, para ficar mais próximo da família. Em fevereiro de 1982, porém, aproveitando-se de regalias, empreendeu mais uma fuga, sendo recapturado, depois, pela polícia.

Crédito: 3.mai.1984/Folhapress Hiroito, preso na Penitenciária do Estado de São Paulo, em 1984
Hiroito de Moraes Joanides, preso na Penitenciária do Estado de São Paulo, em 1984

Alvo de pequenos processos durante a década de 80, em dezembro de 1990 Hiroito - então com 55 anos-, enfrentou sua prisão derradeira, quando, na condicional, foi flagrado no Parque Santo Antônio (zona Sul de São Paulo), vendendo cocaína para um empresário.

Cumpriu mais um período na prisão. E, em 1992, já em liberdade, morreu de causas naturais. Mas, além de sua obra, teve sua história eternizada nas telas do cinema, já que, em 2012, passados 20 anos de sua morte, estreou nos cinemas brasileiros - depois de 2 anos de exibição em 15 países - o filme "Boca". Com direção de Flávio Frederico e interpretação de Daniel de Oliveira no papel do criminoso, o drama baseou-se na biografia "O Rei da Boca", escrita por Hiroito em 1977, na prisão.

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