Música
Descrição de chapéu The New York Times

Phoebe Bridgers, indicada a revelação no Grammy, sonha em colaborar com Bob Dylan

Cantora diz que participou de Marcha das Vadias e clube de feminismo na escola

Phoebe Bridgers

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Sarah Bahr

Quando o telefone de Phoebe Bridgers começou a “enlouquecer”, na tarde do dia 24 de novembro, ela inicialmente ficou com medo de que alguma coisa ruim tivesse acontecido. “Quem será que morreu?”, ela pensou.

Mas a notícia era muito melhor: a cantora e compositora de Los Angeles havia acabado de receber suas quatro primeiras indicações ao Grammy, entre as quais uma nas categorias principais de premiação, a de revelação como artista. (As demais são por melhor álbum de música alternativa, pelo disco “Punisher”, melhor desempenho em rock, e melhor canção, por “Kyoto”.)

“Punisher”, o segundo disco de estúdio de Bridgers, oferece baladas soturnas eivadas da franqueza que caracteriza as pessoas de 20 e poucos anos. O disco “é uma demonstração da grande força de Bridgers como compositora”, escreveu Lindsay Zoladz em sua resenha do trabalho para o New York Times, “tecendo minúsculos detalhes, específicos e precisamente datados (poluentes venenosos deixados no ar por aviões, torradas, serotonina) em grandes e duradouras tapeçarias de sentimentos”.

Bridgers exibe outro lado de sua personalidade no Twitter, onde ela é uma voz irreverente e divertida que com certeza ajuda a animar o "lockdown" dos leitores. Bridgers falou sobre o fato de que mulheres dominam as indicações na categoria rock, sobre as origens da cover “Iris” que ela gravou com Maggie Rogers, e sobre seu método de determinar quando uma canção está pronta. Abaixo, trechos editados da conversa.

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Como você descobriu que fora indicada?
Eu estava deitada, com enxaqueca –essas coisas me causam muita ansiedade. Aí vi um monte de mensagens da minha mãe –ela estava chorando e me mandou uma foto de uma garrafa de champanhe que tinha comprado dois dias antes e que ela escondeu, caso nada acontecesse.

Você assistia ao Grammy, quando era mais nova?
Minha mãe e eu assistíamos a todos os programas de premiações, mas o Grammy era sempre mais divertido porque eu realmente me importava, e prestava atenção à música.

Você tem algum plano para a cerimônia? Foi convidada a tocar?
Não, mas espero fazer alguma coisa que pelo menos me divirta, seja aqui nesse apartamento ou em outro lugar.

Essa é a primeira vez que a categoria rock tem só mulheres como indicadas. Você acha que o Grammy está tentando compensar por ter sido criticado devido à má representação de gêneros?
Pode ser. Mas também é divertido e chocante, porque provavelmente é uma categoria que só teve homens, por muito tempo, em cada cerimônia. Mas quem se importa? As escolhas são ótimas. Fico honrada por ser indicada em companhias de pessoas como elas.

Você levou seu primeiro single à parada Billboard Hot 100 esta semana, com a cover de “Iris”, da banda Goo Goo Dolls, que você gravou com Maggie Rogers. Como isso aconteceu?
Começou como um riff. Eu tinha redescoberto a canção ao assistir ao filme “O Planeta do Tesouro”, e depois brinquei no Twitter que, se Donald Trump perdesse, eu gravaria uma cover de “Iris”. E deixei que a maré da internet me carregasse para onde quisesse. Eu queria gravar a canção para caridade, e Maggie sugeriu a Fair Fight, o que foi uma ótima ideia.

Desde quando você é uma pessoa engajada politicamente?
Assisti à posse de Obama, que foi um momento fortíssimo. E pensei que o privilégio branco e o racismo tinham ficado para trás, que tudo seria bom porque Obama era presidente. E participei da Marcha das Vadias na escola, que é um protesto contra culpar as vítimas, e tínhamos um clube de feminismo. Percebi aos poucos que, só porque tínhamos um presidente negro, não queria dizer que todos os problemas estavam resolvidos nos Estados Unidos.

Onde você está encontrando inspiração para compor, agora?
Estou fazendo um tipo novo de terapia, e muitas lembranças ressurgem, e por isso nem preciso procurar por inspiração. Estou processando muita [palavrão], porque o tempo está estagnado, e sinto que existem canções crescendo dentro de mim. Fico tentando imaginar como vou compor todas essas canções sobre todas essas coisas.

Até que ponto você mudou, ante a pessoa que era um ano atrás?
Devo ter passado por uma morte do ego, ao não ser aplaudida a cada noite. Fui forçada a me virar sozinha, me acalmar sozinha, de certo modo. Se o pior que acontecer este ano é que eu tenha ficado entediada, terá sido um ano ótimo.

A franqueza e a honestidade aguçada de sua música são algo que você teve de lutar para atingir ou essa confiança sempre esteve lá?
Eu talvez ainda esteja trabalhando nisso. Compunha mais canções, antes, porque queria retratar emoção e escuridão, mas eu ainda me protegia um pouco e minhas letras não eram tão boas. E acho que “Motion Sickness”, de meu primeiro disco, foi onde tudo realmente mudou. “E se eu compuser assim, em lugar de fazer mais canções fofas”?

Como você sabe que uma canção está pronta?
Quando cada verso me dá uma espécie de alegria, o que é estranho no contexto da minha música, mas não quero que as pessoas pulem alguma coisa para chegar à parte boa da letra.

O Grammy adora reunir artistas de gerações diferentes para as apresentações. Quem seria seu colaborador ideal?
​Se eu pudesse conquistar Bob Dylan, me sentiria muito completa.

The New York Times

Tradução de Paulo Migliacci

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