Música

Conheça Enzo Belmonte, promessa do samba que tocou cavaquinho a Beth Carvalho

Artista de 19 anos lança disco em homenagem a artistas do gênero musical

O cantor Enzo Belmonte

O cantor Enzo Belmonte Divulgação

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São Paulo

Estudioso, interessado e com planos ousados para fincar a bandeira do samba nas comunidades mais carentes do Brasil. Esse é o cantor Enzo Belmonte, 19, promessa do gênero apadrinhado por importantes nomes da música, como Seu Jorge e Beth Carvalho (1946-2019).

Fanático pelo samba, Belmonte recorda que começou a fazer aulas de música aos sete anos e que, além de cantar e compor, toca violão e cavaquinho. Ele diz que passa longas horas lendo e pesquisando a origem dos sambas e sobre o surgimento de canções "lado B". Esse empenho se transformou em seu quarto álbum de carreira, "Referências", lançado no início de dezembro e em homenagem a ícones que são sua referência na música.

Destaque para o pout-pourri "Escasseia/Corda no Pescoço", uma homenagem à madrinha Beth Carvalho que conta com a participação especial de Dudu Nobre. Belmonte recorda que descobriu sua paixão pelo samba ao assistir "Andança- Beth Carvalho, o Musical". Após esse encontro, o cantor carioca passou a frequentar o camarim da artista, que começou a dar orientações musicais a ele.

O projeto ainda tem a participação e composições de Xande de Pilares, Almirzinho Serra, filho de Almir Guineto (1946-2017), Lu Carvalho, sobrinha de Beth, Rose Barcellos, Juninho Thybau, Gabrielzinho do Irajá, Thais Macedo e Serjão Loroza. "Escolher o repertório de clássicos e de outras menos conhecidas foi difícil, mas cada uma das 12 faixas tem uma história."

"Ter todo esse pessoal do meu lado e me dando apoio é um incentivo. Estar ali com eles no disco é privilégio. Sinto o mesmo carinho triplicado", diz. "É um disco que estou apaixonado, e é apaixonante falar de amor e de partido alto, do morro ao asfalto."

Mas engana-se quem pensa que Belmonte vem de um berço musical. "Na minha família não tem nenhum músico, estou puxando a fila. Todos me apoiam, tanto por parte de pai quanto de mãe. O meio da música é difícil. Mas quando você vive com intensidade e sente tudo fica mais gostoso. Meu fã-clube, minha comunidade, minha escola, a Mangueira, todos me incentivam."

Belmonte tinha alguns shows marcados, mas foram cancelados com o avanço da pandemia no Brasil. Na quarentena, ele se trancou no estúdio, onde gravou e colocou voz em letras de sambas. Recentemente, em novembro passado, ele voltou a cantar em bares. Mas o futuro é uma incógnita.

"Qualquer artista quer ter seu reconhecimento. Não para ser famoso, mas é muito bom ter seu trabalho reconhecido. Meu maior sonho é para o samba: levantar a bandeira e valorizar a cultura do samba que não é valorizada. Não vejo o samba tão forte como deveria. O povo tem que sentir mais o samba", diz.

BETH CARVALHO E DEMAIS PADRINHOS

Pouca gente sabe, mas o cantor Enzo Belmonte foi uma das últimas pessoas a conversar e a ter contato direto no dia a dia com a sambista Beth Carvalho, que morreu em 30 de abril de 2019. Ele conta que esteve no hospital com ela uma semana antes de sua morte.

"No dia 23 de abril, a Beth me ligou e me chamou para ir ao hospital para ensiná-la a mandar um link pelo WhatsApp. No dia seguinte, fiquei horas com ela. Fazia samba no hospital com cavaquinho para ela. E isso a fazia esquecer da dor que sentia. Estava debilitada, cheia de dúvidas se faria o show no dia 5 de maio, seu aniversário. Ficamos totalmente abalados com a notícia", relembra.

A relação com Beth Carvalho começou como fã e se estendeu a uma amizade sincera –a cantora virou sua madrinha no samba. Ele conta sentir ter se tornado um sambista em 2015, após ir a um teatro assistir a um musical em homenagem aos 50 anos de carreira da artista. No ano seguinte, ele foi ao primeiro show da cantora e, ao final dele, a encontrou no camarim, onde estava também Nelson Sargento, considerado um dos nomes mais importantes do samba e da música brasileira.

Na época, o interesse do jovem de 15 anos pelo samba logo impressionou os artistas renomados. Em 2018, Belmonte gravou o samba "Trovador Urbano", em homenagem a Nelson Cavaquinho, em parceria com Beth Carvalho. Ele lembra que tentou por duas ou três vezes gravar ao lado dela, mas ela cancelava, porque a saúde já estava debilitada. Mas tudo deu certo.

"Quando conseguimos, eu vi um sonho sendo realizado, eu cantando com minha maior referência. Infelizmente, ela nos deixou fisicamente aos 72 anos. Foi um momento duro e nos pegou de surpresa. Beth, costumo dizer, foi infinitamente muito mais que uma cantora de samba. Ela ajudou o Brasil", diz.

Quando um artista começa sua carreira, sempre se espelha em alguém. E quando essa inspiração se torna seu amigo, tudo tende a fluir melhor. E é exatamente isso que aconteceu com Enzo Belmonte. Aos quatro anos, o garoto do Morro do Pinto, na zona portuária do Rio de Janeiro, se encantou pela voz, musicalidade e versatilidade de Seu Jorge.

Daquele dia em diante, ele começou a ver diariamente o DVD "Ana e Jorge", lançado em 2005 no qual Seu Jorge canta com Ana Carolina. Até que um dia, os pais de Belmonte filmaram o filho cantando as músicas e mandaram as imagens para o artista –que mandou CDs e ingressos para um show. "Ele ficou louco ao ver uma criança cantando as canções dele. Quando fomos ao show, na hora do bis, o Pretinho da Serrinha me puxou para o palco e cantei com Seu Jorge. A amizade cresceu e hoje ele é meu padrinho e irmão", diz Belmonte.

"Estarei sempre por aqui, por perto, olhando ele crescer e voar", diz Seu Jorge sobre o talento de Belmonte. "É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar, e o Enzo é uma delas", afirma Xande de Pilares. No álbum, Belmonte gravou com Xande "Estava Perdido Num Mar", composição de Dudu Nobre.

O sambista Nelson Sargento, que conheceu Enzo Belmonte no camarim de Beth Carvalho, é outro que vê Enzo Belmonte com bons olhos. Para ele, o cantor carioca representa a pureza do samba. "Se o samba fosse uma forma humana ele abraçaria o Enzo todos os dias."

O cantor Almirzinho Serra, filho de Almir Guineto, diz que enxerga muito futuro em Belmonte. "Ele é a certeza de que o samba está tendo a renovação merecida, que o nosso velho e bom samba terá uma representatividade durante muito tempo." Com Almirzinho, ele gravou "Azul do Meu Céu" em "Referências".

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