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Alargador vai além da modinha, mas enfrenta barreiras no mercado de trabalho

Foi dada a alargada. E parece que ela não tem volta: os jovens que nos últimos anos deram de expandir os lóbulos não demonstram arrependimento.

Nas contas da antropóloga Mariana Junyu, há, só na cidade de São Paulo, 50 mil pessoas com botoque (ou alargador, para os íntimos).

Desses todos, poucos voltam atrás da decisão. "Faço essa cirurgia com pouca frequência", disse o cirurgião plástico Juarez Avelar.

Esse é um sinal de que o procedimento perdeu o caráter efêmero das modas entre adolescentes. Mesmo que o mercado de trabalho às vezes puxe a orelha de alguns adeptos do penduricalho.

No trabalho, não? -- Foi o que aconteceu com Rafael Caldas, 22, que usa furos de 20 milímetros, quando ele começou a trabalhar, há cinco anos.

"Consegui emprego numa agência dos Correios", conta o programador. "Mas o diretor avisou logo que eu teria de tirar os alargadores. Foi muito triste."

Médicos dizem que furos a partir de 10 mm já esgarçam a pele a ponto de ela ficar frouxa quando se tira a joia -que é de plástico ou aço no mais das vezes.

Era esse tamanho-limite que a catarinense Lucia Santa Cruz, 25, usava quando foi trabalhar em um shopping de São Paulo, em 2007.

Ela tirava os alargadores na hora de bater o ponto. "No processo seletivo, já fui avisada de que não poderia trabalhar usando eles."

Ela então passou a usar o acessório só nas horas livres. Ainda assim, sofreu estranhamento. "Tinha gente que ia reclamar ao meu chefe."

O chefe de Adnan (nome fictício) numa videolocadora de Barueri tanto ouviu queixas que acabou por demiti-lo, afirma o estudante de 21 anos.

"Uma cliente reclamou de que alargador era coisa de drogado e que não caía bem para um funcionário", conta ele. "Mas isso foi há alguns anos. Acho que deve ter melhorado."

Melhorou? "Não muito", responde Carlos Nomizade, 19, estagiário de um escritório de advocacia no Rio.

"E olha que meus brincos só têm 5 mm, menos do que o plug de um fone de ouvido", conta ele, que não vai ao forum usando o adereço.

"É muita mente estreita ter preconceito contra isso", reclama o jovem.

Tempo de alargar -- Pode soar como mente estreita, mas quem conhece a lei diz que os chefes não estão fazendo discriminação.

"Uma empresa pode exigir que seus empregados se apresentem de uniforme, asseados, barbeados, sem tinturas extravagantes nos cabelos, piercings ou alargadores", diz a advogada trabalhista Marcia Yoshida.

Há quem aposte que o mercado vá se adaptar. "É uma onda geracional que vai ter um ciclo de vida longo", afirma o galerista Baixo Ribeiro, que usa alargadores de 18 mm.

Foi o que aconteceu com Rafael Caldas. Anos depois de ter de tirar os brincos para trabalhar nos Correios, ele virou o jogo.

Ganhou a confiança do chefe atual e hoje trabalha com os brincos estertores.

E mais: agora, Caldas usa roupa social com alargador.

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