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Youtuber Nátaly Neri fala sobre moda consciente e critica condições trabalhistas da Zara 

A youtuber Nátaly Neri
A youtuber Nátaly Neri - Reprodução/Instagram/natalyneri


"Tem gente que diz que roupa de brechó é roupa com sangue de morto, como se as roupas da Zara não sangrassem." É assim que a youtuber Nátaly Neri, 23, começou seu discurso durante um debate sobre moda no Youtube Space Rio, na capital fluminense.

Dona do canal "Afros e Afins", com mais de 250 mil inscritos, Neri defende o consumo da moda de forma consciente. Diz também que comprar roupas em brechós foi uma das alternativas que encontrou "para economizar dinheiro e evitar contribuir com uma indústria que polui e muitas vezes utiliza trabalho escravo".

"O brechó me torna uma pessoa muito criativa. Lá você não tem referência alguma. Você chega em um lugar bagunçado e tem que lidar com peças amontoadas. Você tem que estimular a sua criatividade para editar aquilo de acordo com o seu gosto, com as tendências que você quer seguir", disse.

Para Neri, moda é posicionamento político e uma forma de reflexão sobre uma cultura que vai além da estética. "Moda é entender que faço parte de uma engrenagem que se movimenta com cada um dos meus atos. Decidir colocar dinheiro em uma marca que eu sei que tem uma mão de obra duvidosa, com uma série de denúncias, exploração, mão de obra escrava [é complicado]", afirmou a youtuber no evento, que aconteceu na última quinta (26).

E acrescenta: "Estamos vendo aprovação de leis que permitem trabalhos análogos à escravidão. Temos que refletir sobre isso e negar essa conjuntura. Por que usar uma peça de R$ 700 feita em Bangladesh com sangue de crianças vai ser interessante pra mim?"

Uma recente portaria do Ministério do Trabalho tornou mais limitado o conceito de trabalho escravo ao exigir que haja, por exemplo, "restrição à liberdade de locomoção da vítima" para que os casos flagrados se enquadrem como crimes. A portaria foi suspensa provisoriamente na semana passada por decisão da ministra Rosa Weber, do STF (Supremo Tribunal Federal).

Sem medo de uma possível censura por falar abertamente sobre as marcas que denuncia, a exemplo da Zara, a youtuber frisa ao "F5" que só está publicizando informações que existem.

"Não tenho medo nenhum de censura e acho que nunca sofri com isso, até porque não estou falando nenhuma mentira. A gente nem precisa ir longe e falar da Zara [no quesito trabalho escravo]. No Bom Retiro, que é a região onde eu moro, isso é muito pior. A gente conversa com a galera boliviana que trabalha e mora ali e as condições são insalubres. Assim como eu boicoto a Zara, boicoto também as lojinhas do Bom Retiro, pois sei de onde vem essa produção. Se eu tivesse medo de censura, eu nem teria o meu canal, que fala sobre coisas que ninguém quer escutar. Estou dentro da minha liberdade de expressão. Não estou difamando ninguém."

Procurada pela reportagem, a Zara não quis se manifestar sobre o caso.

MODA PARA O NOVO MUNDO

O consultor criativo Jackson Araújo, que mediou o debate do evento, também fez um discurso, em que abordou conceitos daquilo que chama de economia afetiva --uma forma de pensar a moda movida pelo afeto-- e da moda para o novo mundo.

"Essa nova moda é pautada não mais naquela ideia do faça você mesmo, mas do faça com os outros e faça para os outros. Ou seja: sai de cena a independência e o acúmulo de bens e entra em cena a interdependência, as necessidades do autoconhecimento, a busca pela espiritualidade, pela horizontalidade do fazer e a transformação do mundo. Acho que isso não é uma tendência de passagem. Ela é uma mudança de pensamento", afirmou.


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