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Tony Goes

Estilo bombástico de Galvão Bueno está ultrapassado, mas também deixará saudades

Locutor avisou que continuará na Globo, mas em doses homeopáticas

Galvão Bueno - João Cotta/Globo
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Doze anos atrás, parecia que o Brasil tinha enjoado de Galvão Bueno. Logo antes da Copa do Mundo na África do Sul, o dono da voz oficial do esporte na Globo foi alvo de uma campanha satírica no Twitter.

Um vídeo pedindo fundos para salvar um suposto "galvão bird" da extinção viralizou nas redes sociais. Estrangeiros que não entendiam o slogan "Cala Boca, Galvão" passaram a mensagem adiante, crentes que estavam ajudando a preservar a fauna brasileira.

A brincadeira se espalhou para fora da internet. Faixas eram abertas em estádios com a frase maldita, desafiando as câmeras de TV. Galvão Bueno se tornara um dos símbolos da "Globolixo": para muitos, seu estilo bombástico e ufanista soava tão ultrapassado quanto a emissora em que trabalhava.

O próprio locutor não ligou. Fez bem: qualquer reação provocaria um contra-ataque ainda pior. Além do mais, como todos os modismos online, este também passou. E Galvão continuou na Globo, firme e forte.

Neste domingo (18), fez sua última narração de um jogo de Copa do Mundo na TV aberta. Ou seja: foi uma despedida, mas nem tanto. As palavras "na TV aberta" deixam implícito que ele poderá voltar a narrar uma Copa, no streaming ou seja lá qual for a tecnologia da moda daqui a quatro anos.

Mas a Globo não se fez de rogada. Exibiu clipes de homenagem a Galvão antes e depois do jogo. Ele mesmo se despediu oficialmente, num vídeo pré-gravado. Avisou que continuaria no canal, participando de projetos especiais. Adeus, não: até daqui a pouco.

Antes disso rolou uma das partidas mais empolgantes da história do futebol, repleta de reviravoltas e lances dramáticos. Um prato cheio para Galvão Bueno se locupletar, mas ele foi surpreendentemente comedido. Pelo menos no primeiro tempo, em que a visível superioridade da Argentina em campo, aliada à apatia da França, desmentiam o jogão que todos esperávamos.

Mas os franceses reagiram, e conseguiram empatar. A Argentina marcou mais um. A França também. A tensão crescente foi dando uma animada em Galvão Bueno, dando a ele a chance de demonstrar seu maior talento: a capacidade de vocalizar as emoções do telespectador.

Da metade do segundo tempo em diante, ele parecia ler os pensamentos da audiência. Sua angústia ao represar o grito na garganta depois que Messi marcou o terceiro gol da Argentina, que demorou alguns segundos para ser confirmado, era palpável. Sua empolgação com a súbita garra francesa, também.

"Você merece essa final, Galvão, muitos gols", disse Ana Thaís Matos. A jovem comentarista, tantas vezes escanteada pelo veterano nos jogos anteriores, estava sendo sincera.

Galvão Bueno foi muito criticado por não dar espaço a ela durante todo o Mundial. Mas, nessa derradeira partida, o clima entre ambos era de paz e amor. Ambos vertiam lágrimas ao encerrarem a transmissão.

Provavelmente, nunca mais teremos um locutor tão dominante como ele foi nessas últimas décadas. A própria Globo não vai deixar que surja um substituto com tanto poder. Além do mais, os clichês e bordões do "galvão bird" já deram o que tinham que dar. Que venham novos.

Riquíssimo, morando em Mônaco e ostentando um estilo de vida quase acintoso, Galvão Bueno corre o risco de se tornar uma paródia de si mesmo. Sua presença na TV em doses homeopáticas fará bem para a reta final de sua carreira. Sim, estamos todos enjoados dele, mas também sentiremos saudades. Um pouquinho de Galvão todo ano já está mais do que bom.

Tony Goes

Tony Goes (1960-2024) nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu em São Paulo desde pequeno. Escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. Ele também atualizava diariamente o blog que levava seu nome: tonygoes.com.br.

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