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Tony Goes

Não dá para perdoar a covardia de quem expôs Klara Castanho

Atriz foi massacrada nas redes sociais no pior momento de sua vida

Klara Castanho - @klarafgcastanho no Instagram
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O que está acontecendo com o Brasil? Quando foi que perdemos a empatia com nossos semelhantes e passamos a sentir-nos no direito de julgá-los e condená-los, como se fôssemos superiores a eles?

O mais recente escândalo que comprova a nossa decadência moral é a exposição de Klara Castanho, que teve sua intimidade violada nas redes sociais e foi apedrejada por moralistas de araque. Felizmente, uma onda de amor se ergueu em torno da atriz, e agora quem está na berlinda são seus delatores.

Quem são eles? A primeira parece ter sido uma enfermeira, cujo nome não foi revelado. Essa profissional de saúde, que deveria zelar pelo bem-estar de seus pacientes e não se meter na vida pessoal de ninguém, avisou Klara que iria contar tudo o que sabia sobre o calvário que a atriz atravessava a um colunista de fofocas. Não se sabe se essa víbora queria dinheiro ou tornar ainda mais doloroso o pior momento da vida da moça. Felizmente, o Coren-SP (Conselho Regional de enfermagem de São Paulo) irá apurar o caso.

O colunista é Leo Dias, do portal Metrópoles, que já se envolveu em diversas polêmicas com celebridades é outro. Leo não publicou nada a respeito do caso até a noite de sábado (25), mas tampouco se manteve em silêncio. Nos bastidores do Troféu Imprensa, duas semanas atrás, ele contava o episódio em detalhes, para quem quisesse ouvir. Alguns dias depois, deu várias indiretas no talk show The Noite (SBT), de Danilo Gentili, e ainda soltou um veredito implacável: "O carma vai ser grande". A essa altura, ele já havia conversado com Klara Castanho por telefone, e sabia que ela havia sido vítima de estupro. Mesmo assim, achou que seria divertido fazer insinuações sobre a atriz num programa de TV.

A história começou a vazar ainda em maio, através de influenciadores como Matheus Baldi e Dri Paz, mas a repercussão não foi grande. O caldo só entornou quando Antonia Fontenelle pôs a boca no trombone.

Sem nenhum talento artístico discernível, a viúva de Marcos Paulo tenta de todas as maneiras se manter em evidência, e sonha em se eleger deputada federal nas próximas eleições. Sua estratégia de marketing é digna do Gabinete do Ódio, que alimenta as redes bolsonaristas com fake news e preconceitos. Divulgar o drama de Klara, mesmo sem citar nomes, se encaixou direitinho nessa tática asquerosa.

Muitos internautas não demoraram a perceber de quem se tratava, e o julgamento virtual da jovem atriz começou. Mas o feitiço tampouco tardou a se voltar contra Antonia, que tentou se defender e acabou piorando sua própria situação.

"Parir uma criança e não querer ver e mandar desovar por acaso é crime, sim, só acha bonitinho essa história de adoção quem nunca foi em um abrigo, ademais quando se trata de uma criança negra", escreveu a pré-candidata no Instagram. "O nome disso é abandono de incapaz."

Não, não é, Antonia. Klara Castanho não fez absolutamente nada de errado. Entregou seu filho à adoção seguindo todos os trâmites legais. Agora, o que você fez, isto sim pode ser motivo de um belo processo na Justiça.

Antonia Fontenelle ostenta com garbo a hipocrisia característica das falsas "pessoas de bem". A mesma turma que insistiu que uma menina de 11 anos levasse a cabo sua gravidez e depois entregasse seu bebê à adoção agora massacra uma jovem que fez exatamente o que eles pregavam.

No domingo (26), tanto Antonia quanto Leo tentaram se retratar. Ela divulgou um vídeo em garante que não sabia da violência sexual sofrida por Klara Castanho e oferece ajuda para prender o estuprador, mas não pede desculpas. Ele pede: o texto publicado no Metrópoles na véspera, com detalhes íntimos sobre o nascimento do bebê, foi retirado do ar depois de algumas horas, e tanto o site como o colunista admitiram que erraram feio.

Ainda impera no Brasil a ideia de que, se uma mulher abriu as pernas, transou, teve prazer, então ela tem que arcar com todas as consequências desse ato supostamente pecaminoso. A mesma responsabilidade não recai sobre o homem, é claro. Ele está livre para espalhar seus descendentes por aí, sem precisar tomar conhecimento de nenhum.

A covardia de quem expôs Klara Castanho é impossível de ser perdoada. A moça reagiu da maneira certa, postando uma carta aberta onde assume tudo e retoma a narrativa de sua própria história. Amparada pela família, pelos amigos e pelos fãs, ela agora tem condições de sair mais forte dessa história.

Mas, e se não tivesse? E se o desfecho desse imbróglio fosse trágico? Como ficariam a enfermeira, os colunistas, a pré-candidata fofoqueira?

O Brasil está doente, e os sintomas explodem sem parar à nossa volta. Mas a reação das pessoas realmente do bem ao drama de Klara Castanho dá a esperança de que nem tudo está perdido. Ainda temos algum amor e alguma decência dentro de nós, e é isto o que irá nos curar.

Tony Goes

Tony Goes (1960-2024) nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu em São Paulo desde pequeno. Escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. Ele também atualizava diariamente o blog que levava seu nome: tonygoes.com.br.

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