Tony Goes

'Com Açúcar, com Afeto' é mesmo machista, mas merece ser cancelada?

Chico Buarque já teve outras músicas acusadas de oprimir a mulher

Chico Buarque, compositor da música “Com Açúcar, com Afeto” - Bob Wolfenson/Divulgação
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Quem viu a ótima série "O Canto Livre de Nara Leão", disponível no Globoplay, sabe que a cantora era dona de seu nariz e só fazia o que bem entendesse. Mesmo assim, Nara gostava de músicas de mulher sofrida. Em 1967, ela encomendou uma canção desse tipo a Chico Buarque. Recebeu do compositor "Com Açúcar, com Afeto", que se tornou um de seus maiores sucessos.

Na mesma série, Chico revela que não vai mais cantar essa obra, porque deu ouvidos às reclamações das feministas. Esta semana, estourou uma polêmica na internet: ele estaria se adequando aos tempos que correm, ou se dobrando às exigências do politicamente correto?

A treta é meio sem sentido, já que Chico não inclui "Com Açúcar, com Afeto" no repertório de seus shows há mais de 40 anos. Mas, ao ser renegada em público por seu próprio autor, a música parece ter sido oficialmente cancelada.

Nunca fui fã de "Com Açúcar", mais por causa da melodia do que da letra. Mas entendo perfeitamente que a figura da mulher submissa, que tolera as traições do marido e ainda o recebe de volta com seu doce predileto, não cabe mais no mundo moderno. No entanto, acho injusto policiar quem resolver cantá-la.

A cultura ocidental está coalhada de obras que pregam a supremacia do homem sobre a mulher. Muitas dessas obras vêm sendo paulatinamente esquecidas, mas outras sobrevivem. É o caso de "A Megera Domada", a peça de Shakespeare sobre um marido que faz a esposa irascível se ajoelhar a seus pés. O texto ganha dezenas de montagens todo ano, no mundo inteiro. Deveria ser cancelado? Não sei. Tem ótimos diálogos e alto valor histórico, pois é um retrato das relações conjugais na Europa do século 17.

Voltando à música. Chico Buarque, que passou a maior parte de sua carreira como uma unanimidade nacional, vem sendo atacado por todos os lados nos últimos anos. A direita não perdoa sua simpatia pelo regime cubano, e o acusa injustamente de "mamar nas tetas do Estado". Setores da esquerda deram para escarafunchar suas canções antigas, em busca de letras machistas.

Um dos alvos foi "Mulheres de Atenas", composta em 1976 para a peça "Lisa, a Mulher Libertadora", de Augusto Boal. A letra diz coisas como "Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas / (...) / Quando fustigadas não choram / Se ajoelham, pedem, imploram / Mais duras penas, cadenas".

Trata-se de uma ode ao patriarcado? Claro que não. Na peça, "Mulheres de Atenas" é cantada por um personagem machista. O próprio Chico dizia que a letra permitia uma outra leitura: "mirem-se no exemplo dessas mulheres e vejam só o que acontece com elas".

Mas a canção foi logo tirada de contexto. Chico a incluiu em seu álbum "Meus Caros Amigos". Depois foi regravada por vários outros artistas, como Ney Matogrosso. Isto fez com que muita gente não soubesse o que ela de fato significava.

Anos mais tarde, outra pérola de Chico, "Geni e o Zepelim", do musical "A Ópera do Malandro", chegou a ser acusada de transfobia. A canção fala de uma prostituta que é desprezada pela cidade inteira, e tem o famoso refrão "joga pedra na Geni". Acontece que a letra não diz nada sobre a suposta transexualidade de Geni, e tampouco incentiva a violência contra os mais vulneráveis. Quem entende assim está fazendo uma leitura rasa e desinformada.

Chico Buarque escreveu inúmeras canções de um ponto de vista feminino, como "Atrás da Porta" e "Olhos nos Olhos". Fez até uma declaração de amor lésbico em "Bárbara", do musical "Calabar". Na época, foi aplaudido por captar com precisão a sensibilidade feminina. Hoje seria cancelado por não ter lugar de fala.

Muitos jovens de hoje não entendem que um compositor, ou mesmo um intérprete, podem assumir diversas personas. Nem tudo o que eles escrevem e cantam traduz fielmente o que eles de fato pensam. Mas boa parte da garotada se acostumou com letras confessionais e autobiográficas, e acham que só elas têm valor.

Falta estudo e experiência para essa galera. Falta entender o contexto em que cada canção foi criada. Falta discernimento e bom senso. Como se não bastasse, também falta afeto

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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