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Tony Goes

Polêmica sobre Marília Mendonça mostrou que a gordofobia estrutural existe

Nós, homens, não temos ideia da pressão absurda que as mulheres sofrem

Marília Mendonça - Instagram/mariliamendoncacantora
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Os brasileiros não conseguimos mais nos unir nem nos momentos de luto. Em meio à comoção nacional provocada pela morte de Marília Mendonça, uma treta emergiu na internet.

O pomo da discórdia era um texto do historiador Gustavo Alonso publicado pela Folha, revisitando toda a carreira da cantora. Uma análise longa e elogiosa, muito mais detalhada do que a minha que saiu no F5. Aí alguém implicou com um trecho que diz que Marília "brigava com a balança", era "gordinha" e "nada atraente para o mercado". Postou sua indignação no Twitter, e abriram-se as portas do inferno.

Dava para perceber pelos comentários que a imensa maioria dos furiosos não havia lido a coluna toda, só o trecho tido como polêmico. Que, a meu ver, nem era ofensivo, pois relatava uma verdade sobre a artista: ela realmente fez muita coisa para emagrecer, de cirurgias abdominais a dietas rígidas. E postava sobre isso, comemorando cada resultado em seus perfis nas redes.

Aliás, quando emagreceu, Marília também foi vítima de patrulhamento: ela teria cedido à pressão da indústria e deixado de ser uma pessoa em paz com o próprio corpo. Também foi criticada por não ter emagrecido "o suficiente". Eita, tempinhos difíceis.

Eu nem conheço o Gustavo Alonso, mas, como havia gostado muito de seu texto, resolvi partir em sua defesa no Twitter. Não, não sou nada contrário à "cultura do cancelamento". O que não falta por aí é gente que mereça ser cancelada, ignorada e esquecida para todo o sempre.

Mas é preciso um certo conhecimento de causa antes de sair cancelando. A gritaria em torno da análise parecia mais uma catarse coletiva, um ataque a um esquerdomacho qualquer, do que uma contra-argumentação bem ponderada. Joga pedra no Gustavo!

Só que, aí, veio essa boa contra-argumentação. Mulheres que eu sigo e admiro no Twitter como Mika Lins, Nina Lemos e Milly Lacombe se posicionaram com contundência. Minha amiga Mariliz Pereira Jorge assinou uma boa resposta na Folha, seguida por outro texto lapidar de Bianka Vieira. E aí, o esquerdomacho aqui começou a pensar: acho que elas têm um ponto...

Homens heterossexuais não fazem a menor ideia da cobrança que as mulheres sentem em cima de seus corpos, desde o dia em que nasceram. Os gays, alguns, sabem: em certos círculos, há uma pressão absurda por físicos esculpidos e bombados, e ai de quem não se encaixar no padrãozinho. Não merece sexo nem amor! Mesmo assim, não é nada comparável à gordofobia permanente que a mulherada sofre. Digo isso porque sou gay e também sou gordofóbico, ainda que de maneira mais ou menos inconsciente. Pois é.

No meu próprio texto, ressaltei que Marília era "cheinha", e teve quem não gostou. Minha intenção era boa: eu só queria sublinhar o fato de a cantora ser um reflexo fiel de suas fãs, tanto nas letras diretas de suas canções como em seu corpo "real", e que se tornar uma sílfide não era um problema para ela.

O fato é que Marília pensava em emagrecer, sim, e continuava fazendo regime. Era uma batalha pública, que ela fazia questão de compartilhar com seus seguidores nas redes sociais. Suas razões não importam mais: podia ser pela saúde, podia ser que Marília se sentisse melhor mais magra. Também podia ser que ela finalmente tivesse sucumbido à ditadura da indústria da moda, que só finge ser inclusiva.

Gustavo Alonso poderia ter usado outros termos para apontar como o corpo da artista foi desimportante para seu sucesso estrondoso? Sim, assim como eu. Poderíamos ter simplesmente ignorado esse fato? Certamente. Acontece que a trajetória de Marília Mendonça não fica completa sem esse dado. Ela desafiou um mercado machista, cantando e compondo num gênero em que as mulheres tinham relativamente pouca voz. Seu corpo fez parte de seu triunfo.

Agora, e se fosse um homem gordo que tivesse morrido? Teríamos lembrado de sua gordura? Indo contra o senso geral, penso que sim, especialmente se esse sobrepeso tivesse importância em sua carreira. Ou, como no caso de Elvis Presley –conforme saiu no obituário do New York Times–, se tivesse importância em sua morte.

Mas é inegável que homens e mulheres são medidos com réguas diferentes. Eu, que de uns anos para cá comecei me dar conta do racismo estrutural e passei a acender luzinhas vermelhas para o meu próprio comportamento, agora também preciso me conscientizar da gordofobia.

Ela está entranhada entre nós, a ponto de passar batida por quem não é alvo dela. Na maioria das vezes, não queremos ofender ninguém quando dizemos algo gordofóbico. Mas eu sou da opinião de que quem sabe se o calo dói é quem leva o pisão. Por isto, prometo que vou prestar mais atenção.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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