Tony Goes

Ludmilla dá demonstração de força ao boicotar o Prêmio Multishow

Canal já procurou a cantora e prometeu trabalhar por mais diversidade

Ludmilla - Divulgação
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O showbiz brasileiro não tem muita tradição em premiações. Por aqui, nunca entendemos que essas cerimônias servem, antes de mais nada, para aquecer a própria indústria, gerando mais receita e interesse.

O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro costuma acontecer no final do ano e premia filmes do ano anterior, que já saíram todos de cartaz.

Na televisão, a premiação mais visível é o Troféu Domingão Melhores do Ano, voltado exclusivamente para os programas da Globo. O Troféu Imprensa, promovido pelo SBT, não tem mais o prestígio de antigamente.

Na música, o Grammy Latino –que é realizado nos Estados Unidos– vem ganhando importância. Mas ainda não superou o Prêmio Multishow, que o canal pago entrega desde 1994.

Injustiças e omissões gritantes acontecem em qualquer premiação. Mas é raro que os injustiçados venham a público, ainda mais com a veemência de Ludmilla. A cantora carioca foi ao Twitter na manhã desta terça (19), reclamar por não ter sido indicada na categoria de melhor cantora do Prêmio Multishow.

Fez um longo desabafo, destacando seu pioneirismo como artista negra e bissexual. Levantou números e lembrou dos vários singles e projetos que lançou em 2021. Por fim, concluiu: "Venho por meio desse tuíte avisar a todos e ao @multishow que não me apresentarei mais no prêmio este ano. Obrigada pelo convite, mas onde não sou bem-vinda prefiro não estar só por educação. Boa festa a todos”.

Foi o bastante para detonar uma tempestade virtual. O nome de Ludmilla galgou os “trending topics” do Twitter, com a maioria dos internautas defendendo a atitude da cantora.

Mas será que ela tem razão? Os indicados são escolhidos pelos cerca de 500 membros da Academia Prêmio Multishow, criada em 2019, que reúne jornalistas, empresários, gravadoras e profissionais ligados ao negócio da música. Dá para direcionar o voto de tantas pessoas? Será que elas estavam deliberadamente discriminando Ludmilla, que ainda assim foi indicada nas categorias Hit do Ano e Clipe TVZ do Ano?

Por outro lado, é intrigante ver que Iza está entre as cinco nominadas, ao lado de Anitta, Ivete Sangalo, Luísa Sonza e Marília Mendonça. Ela lançou um único single este ano, “Gueto”, que não teve a repercussão de “Rainha da Favela” ou “Deixa a Onda”, sucessos de Ludmilla. Como se explica isto?

No final da tarde, o Multishow capitulou. Procurou Ludmilla para uma D.R., prontamente divulgada no Instagram do canal.

“Tivemos um papo há pouco com a Lud, numa escuta ativa, e entendemos seu posicionamento (...) Temos consciência de que a luta pela diversidade deve ser diária e entendemos que precisamos estar ainda mais comprometidos com a causa. Assim, em conjunto, nos propusemos a criar um coletivo ainda mais diverso, para somar ao trabalho que temos feito, contribuindo com as próximas edições do Prêmio Multishow”.

Ludmilla também voltou ao Twitter. “Após meu posicionamento o Multishow me ligou, nós conversamos e eles me propuseram contribuir para as mudanças na premiação a partir do ano que vem”, escreveu ela. “Vamos conversar para, juntos, colocarmos em prática mudanças gerais que envolvam não só o coletivo quanto o compromisso de estar sempre em atualização para atender a novos requisitos do mercado fonográfico”. Mesmo assim, não arredou pé: “E não, não performo esse ano no Prêmio Multishow!”

Este episódio evidencia a dependência mútua entre a cantora e o canal. Um precisa do outro, mas é inegável que Ludmilla sai vitoriosa do embate. Com apenas um fio no Twitter, ela provocou uma crise de relações públicas para o canal, que foi obrigado a reagir rapidamente.

De minha parte, torço para que as premiações do showbiz nacional saiam fortalecidas desse imbróglio. Com regras mais claras, datas mais compatíveis e critérios mais justos.

Chega de ações entre amigos, em que todo mundo sai com um trofeuzinho na mão. Chega de prêmios que só visam promover uma emissora ou um patrocinador. Premiações de prestígio são sinal de uma indústria cultural forte. Se trabalharem pela credibilidade, todo mundo sai ganhando.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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