Tony Goes

Após filme mais premiado e banda mais popular, Coreia do Sul tem série mais vista do mundo

'Round 6', da Netflix, mostra pujança da indústria cultural sul-coreana

Boneca olha em direção a câmera com mortos ao fundo
Cena da série coreano 'Round 6', da Netflix - Reprodução
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A Coreia é uma nação milenar. Já possuía identidade própria há cerca de 2.000 anos, e conseguiu mantê-la intacta mesmo rodeada por dois vizinhos poderosos: a China e o Japão.

O século 20 não foi fácil para os coreanos. Décadas de ocupação japonesa deixaram feridas que ainda estão abertas, e uma guerra fratricida dividiu o país em dois, instalando uma ditadura brutal na metade norte da península.

A outra metade, a Coreia do Sul, era pobre e atrasada nos anos 1960, mas um investimento maciço em educação virou o jogo. Hoje a economia sul-coreana é a 10ª maior do mundo e ultrapassou a brasileira, que caiu para o 12º lugar.

Não é demais lembrar que a Coreia do Sul tem uma área de apenas 100 mil quilômetros quadrados, contra os oito milhões e meio do Brasil, e que seus recursos naturais são muito mais limitados que os nossos.

Como se fosse pouco, a Coreia do Sul emergiu como uma potência cultural na última década. O cinema, a música e a televisão feitos por lá são hoje consumidos no mundo inteiro, numa escala muito maior do que a da produção cultural da China e do Japão.

Um dos primeiros sintomas da emergência deste “soft power” –a influência exercida pela cultura e pelo prestígio de um país, sem precisar recorrer às armas– foi o sucesso global da canção “Gangnam Style”, lançada pelo cantor PSY em 2012. Ele nunca mais emplacou um hit do mesmo tamanho, mas abriu os ouvidos do mundo para o então pouco conhecido k-pop.

Hoje a banda mais popular do planeta é o BTS, mas dezenas de outros grupos sul-coreanos disputam com ele a primazia. Esse impacto todo tem um preço: a indústria fonográfica sul-coreana é frequentemente acusada de exercer uma pressão desmesurada sobre seus jovens talentos, e não são raros os casos de suicídio entre os participantes dessas “boybands” criadas por empresários gananciosos.

Já o êxito do cinema sul-coreano parece livre de escândalos. Desde a década de 1980 que cineastas do país se destacam em festivais internacionais, mas sem nunca romper o nicho do circuito de arte.

“Parasita”, de Bong Joon-ho, quebrou esse paradigma. O longa venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e, no ano seguinte, foi o primeiro título em língua não-inglesa a levar o Oscar de melhor filme. Segundo o site IMDb, acumula mais de 300 prêmios, além de ter feito bilheterias expressivas em diversos países.

O mais recente fenômeno da indústria cultural sul-coreana é a série “Round 6”, que está em vias de se tornar a mais vista da história da Netflix. Lançado no final de setembro pela plataforma, o programa recicla uma ideia manjada, a competição até a morte, num pacote atraente.

Com cenários impressionantes, ótimos atores, personagens bem-construídos, muita violência e um suspense de roer as unhas, “Round 6” entrou para a lista das 10 atrações mais assistidas da plataforma em dezenas de países. Sinal de que tocou um nervo universal, mesmo sendo escancaradamente coreana.

A que se deve o chamado “hallyu”, a onda cultural sul-coreana que se espalha pelo mundo? São inúmeros os fatores, que vão desde a habilidade em usar as mídias sociais à falta de cerimônia com que os sul-coreanos misturam elementos tradicionais com a mais alta tecnologia. Mas, na base de tudo isso, está um decisivo apoio estatal.

Em 2020, o governo sul-coreano investiu o equivalente a R$ 7,64 bilhões para “fomentar a criatividade local e impulsionar as vendas globais de conteúdo cultural coreano”, segundo o jornal Korea Times. Lá a cultura é tratada como artigo de exportação e ferramenta diplomática. As vendas de músicas, filmes e séries de TV (que incluem os “doramas”, novelas cada vez mais populares pelo mundo afora) não só rendem milhões de dividendos, como atraem milhares de turistas para o país.

Enquanto isto, no Brasil, temos um governo que encara a cultura como uma inimiga a ser exterminada. O país, que tem uma música reconhecida internacionalmente e vinha acumulando prêmios em festivais de cinema, viu sua imagem despencar no exterior. Porque os órgãos federais de fomento à cultural tiveram seus status rebaixados e foram entregues a sujeitos despreparados, que não percebem a importância estratégica da área em que operam.

A Coreia do Sul ganha Oscars e rompe barreiras. Aqui, deixamos a Cinemateca pegar fogo, enquanto gritamos “acabou a mamata!”.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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