Tony Goes

'High Fidelity', a série, não é altamente fiel ao livro que a inspirou

Troca de gênero do protagonista e escalação da atriz principal são problemáticas

Zoë Krawitz é a protagonista de “High Fidelity” - Hulu Divulgação

“Alta Fidelidade” foi um dos maiores fenômenos literários da década de 1990. O livro do britânico Nick Hornby vendeu mais de um milhão de cópias e conquistou a crítica do mundo inteiro. Porque trouxe para o primeiro plano um personagem comum na vida real, mas, à época, ainda pouco retratado pelas artes: o nerd sensível, que acumula frustrações profissionais e amorosas, mas é basicamente um sujeito bacana.

Rob Fleming, na casa dos 30 anos, tem uma loja de discos usados em Londres –o que parece a profissão ideal para alguém obcecado por música, mas o lugar não é exatamente um sucesso. Quando mais uma namorada resolve romper com ele, Rob entra em uma espécie de crise precoce da meia-idade. Passa a limpo todos os relacionamentos que teve desde criança, para descobrir onde errou. E, junto com os dois funcionários de sua loja, transforma tudo em listas dos cinco mais: os melhores filmes, as melhores canções sobre a morte, as separações mais dolorosas.

Em 2000, um filme transplantou a ação para Nova York e mudou os nomes de alguns personagens, mas a história continuou a mesma. John Cusack, com sua cara de garoto crescido, foi uma escolha perfeita para o papel de um homem que, apesar da idade, ainda não se comporta feito um adulto.

Vinte anos depois, “Alta Fidelidade” está de volta, agora na TV. Estreia nesta quinta (10), na plataforma Starzplay, a primeira temporada de “High Fidelity” (o nome original foi mantido no Brasil). É uma produção caprichada, com ótimos atores e muitos hits na trilha sonora. Mas o programa criou dois problemas para si mesmo, que o primeiro dos 10 episódios –o único a que eu tive acesso– não consegue resolver direito.

O primeiro deles é a troca de gênero do protagonista. Rob agora é uma mulher. Também é birracial e bissexual, num contraste gritante com o Rob das antigas, branco e hétero. Estamos em 2020, e mudanças como essas são mais do que esperadas nas novas encarnações de personagens clássicos. Se até o Capitão Marvel e o Doctor Who ganharam versões femininas, por que não Rob?

Acontece que “Alta Fidelidade”, em sua concepção, era um estudo bem-humorado e carinhoso da insegurança masculina. No livro e no filme, Rob está sempre se sentindo inadequado para qualquer função, o que vai contra toda a educação que se costuma dar aos meninos. Ele também compartilha um traço com muitos outros rapazes, mas bem mais raro entre as moças: um vício por cultura pop, que se traduz na mania de fazer listas. Tudo para Rob vira hit-parade, que é uma forma de infantilizar o mundo.

“High Fidelity”, a série, tem duas mulheres no comando da sala de roteiristas: Sarah Kucserka e Veronica West, que trabalharam juntas em “Ugly Betty” (2006-2010). Se elas acham que um geek como Rob pode muito bem ser uma garota, não sou que vou duvidar. Mulheres também são inseguras. Mulheres também são fissuradas em discos de vinil. Vou controlar meu ciúme de gênero e dar uma chance a essa variante de Rob com dois cromossomos X.

Mais problemática foi a escolha de Zoë Krawitz para o papel. Conhecida no Brasil por sua participação na série “Big Little Lies” (HBO), a atriz também é a produtora-executiva de “High Fidelity”. E filha de duas celebridades: o cantor e compositor Lenny Krawitz e a atriz Lisa Bonnet –que, curiosamente, fez uma das namoradas de Rob no longa de 2000.

Zoë Krawitz é a quintessência do cool. Linda, descolada, ligeiramente blasé, com aquele eterno ar de “eu-sou-melhor-que-vocês”, mesmo que involuntário. Sua elegância natural faz com que até um saco de batatas lhe caia bem. Ou seja: é difícil que ela passe por uma moça insegura, que leva um pé na bunda atrás do outro e não sabe bem o que fazer da vida.

Esses dois problemas são visíveis no episódio de estreia, quando Rob exala algo inexistente em suas encarnações anteriores: antipatia. A Rob de Zoë Krawitz é maravilhosa, mas não é adorável.

A imprensa americana garante que “High Fidelity” vai melhorando ao longo da temporada e que até traz momentos do livro que foram ignorados pelo filme. Vou dar mais uma chance. Mas, por enquanto, a série ainda não entrou para a minha lista das cinco melhores do ano.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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