Tony Goes

Ciência e entretenimento não precisam ser incompatíveis

A ficção científica não tem a obrigação de ser realista mas quando é, melhora

Cena do filme "Interestelar" - Divulgação

O Dia Nacional da Ciência é celebrado em 8 de julho. Ao longo deste mês, vários colunistas da Folha estão aderindo à campanha #CientistaTrabalhando e cedendo seus espaços para um cientista. Hoje chegou a minha vez: convidei meu amigo J. Marcelo Alves, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e colaborador habitual da Folha, a traçar um breve retrato da relação da ciência com o entretenimento popular. Pois é, pessoal: parece que a ciência só não é mesmo compatível com o atual governo.

Alguns dos filmes e séries mais populares têm como base a ciência. Viagens no tempo, alienígenas, manipulações genéticas, buracos de minhoca, pragas e pestes, mundos paralelos, superpoderes ou tecnologias que parecem mágica. O sucesso de séries como "Dark" e "Black Mirror" ou filmes como "Interestelar" e "Contágio", exemplos da última década, mostra que tais elementos caem muito bem com o público.

Muitos livros e artigos já foram escritos falando dos erros e acertos de obras populares envolvendo ficção científica, e muita gente adora correr para a internet para criticar o último sucesso das telas.

Primeiramente, não podemos ser intransigentes nem cair no que os filósofos chamam de erro categorial, em que coisas de uma categoria são colocadas indevidamente em outra. Entretenimento não é obra acadêmica. Para se divertir, a gente tem que relaxar o senso crítico e soltar a imaginação. O realismo científico nem sempre resulta em bom cinema. Se as cenas de batalha espacial de "Guerra nas Estrelas" seguissem a física, o público sairia vaiando.

Por outro lado, um pouco mais de cuidado não diminui a diversão –como prova "Interestelar"– e ainda aumenta o sucesso da obra com o público, como mostrado em estudos acadêmicos. O espectador, mesmo não entendendo do assunto abordado, gosta de saber que está vendo algo com fama de realista, provável, legítimo.

Além dos conceitos e possibilidades, talvez mais importantes sejam a percepção pública do valor da ciência, como se dá o processo científico e, afinal, quem é cientista. O estereótipo do cientista maluco, homem velho de cabelos desgrenhados? Nada mais longe da realidade –embora, com o isolamento social, a parte dos cabelos esteja, digamos, na moda.

Para aproveitar o enorme impacto que o entretenimento pode ter no público leigo, a Academia Nacional de Ciências dos EUA tem, desde 2008, um programa de intercâmbio com os produtores de conteúdo. Nele, cientistas participam como consultores, tentando tornar os aspectos relacionados à ciência tão realistas quanto possível.

Um intercâmbio com o estúdio Marvel, por exemplo, levou a uma pequena, mas importante, mudança na história do filme "Thor". A personagem de Natalie Portman sempre foi enfermeira, mas, por sugestão dos consultores científicos, foi mudada para astrofísica. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, a atriz afirmou que era uma grande oportunidade, em um filme de enorme audiência, ter uma mulher cientista. "Pode parecer bobo, mas são essas coisinhas que fazem uma menina acreditar que é possível", afirmou.

O entretenimento não é inocente e pode ser usado para mudar a visão de mundo das pessoas. Um estudo mostrou que quem assistiu ao filme "O Dia Depois de Amanhã" passou a se preocupar mais com mudança climática e meios de limitar a emissão dos gases estufa, além de mostrar confiança maior em agências científicas como a NASA. O efeito ocorreu mesmo quando fatores como idade e preferência política foram levados em conta.

E temos finalmente o tempo e o modo de trabalho científicos, talvez os mais difíceis de encarar. Em filmes, ou mesmo séries, não há tempo para (ou emoção em) mostrar o trabalho maçante da ciência. Infelizmente, as coisas não são como no filme "Epidemia", onde (spoiler!) os heróis encontram o macaco infectado, sintetizam a cura em minutos, com a heroína se recuperando da doença mortal imediatamente após uma injeção. Talvez por isso, muita gente estranhe que ainda não haja uma cura ou vacina eficazes contra a Covid-19.

Na vida real, a ciência precisa de muita verba, equipamentos, boas universidades e institutos de pesquisa para treinamento de dezenas de milhares de profissionais, além de anos de trabalho contínuo e incerto para desenvolver e testar algo como um medicamento ou vacina. Difícil traduzir isso para ficção sem que todos caiam no sono. E infelizmente, assim como nos filmes de ação, costuma haver vilões tentando atrapalhar. Só que, aqui na realidade, eles só precisam cortar verbas.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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