Tony Goes

O que já aprendemos depois de um mês de BBB 20

Acertos na escolha do elenco e público mais antenado revigoraram o programa

Guilherme e Gabi conversam com sisters sobre divisão da comida - Globo

O Big Brother Brasil começou a ter sua morte anunciada já em 2002, o primeiro ano em que foi ao ar. O programa teve então duas edições, uma em cada semestre. Ambas fizeram sucesso, mas muita gente apostou que o formato logo se desgastaria.

E se desgastou mesmo, mas em câmera lenta. Ao longo de quase duas décadas, o BBB foi perdendo audiência, relevância e anunciantes. A cada ano, parecia que o próximo seria o último.

Acontece que, mesmo não sendo um fenômeno como antigamente, trata-se de um programa extraordinariamente rentável. O BBB é, antes de mais nada, uma maneira barata de preencher horas de programação. O cenário sofre apenas alterações cosméticas de um ano para o outro, os participantes ganham pouco e há sempre uma ação de merchandising para salvar a lavoura.

Mesmo assim, a produção já vinha há algum tempo tentando revitalizar o reality. O esforço mais visível se deu em 2019, com os concorrentes divididos entre conservadores e progressistas, refletindo a polarização política do país.  

Não deu certo. Os progressistas se recolheram e deixaram os conservadores dominarem a competição. O resultado foi a vitória de Paula, uma das personagens mais abjetas que já passaram pela casa.

Em 2020, tudo mudou. A entrada de influenciadores e semi-famosos como Pyong Lee, Manu Gavassi, Babu e Bianca “Boca Rosa” Andrade funcionou como uma injeção de adrenalina. Com experiência diante das câmeras e carisma comprovado, os integrantes do chamado grupo VIP agitaram o jogo.

Por isto, a primeira lição deste BBB 20 é a mesma de sempre: a escolha do elenco é o pilar de qualquer reality show competitivo, não importa quais sejam as regras. Este ano, o elenco foi melhor escolhido do que em outras vezes. Nem todos os integrantes funcionam –é impossível acertar 100%– mas, a maioria, sim.

Os outros ensinamentos são específicos desta edição. Aprendemos, por exemplo, que Manu Gavassi é uma estrela. Mesmo que não saia com o prêmio final, a cantora já é uma vencedora. Deu uma alavancada e tanto na própria carreira, e já tem shows agendados.

Também descobrimos que Victor Hugo é gay, apesar dele se definir como assexual. E que o público até torce pelo maranhense, que ousou revelar seu “crush” por Guilherme e, mesmo assim, escapou da eliminação. Já houve diversos jogadores homossexuais nos anos anteriores; uma historinha de amor gay não correspondido, como a que vemos agora, ainda era inédita.

Os espectadores também parecem ter compreendido, finalmente, que o Big Brother é um jogo, e que há muito dinheiro envolvido. Nas primeiras edições, nenhum concorrente podia manifestar interesse financeiro, nem ser pego manipulando os demais. Exigíamos deles uma total pureza de intenções. Os únicos argumentos que nos comoviam eram a necessidade extrema (“sou tão humilde, portanto mereço ganhar”) e a generosidade (“vou usar a grana para abrir um asilo de velhinhos”).

Agora não. Vemos o esperto Pyong Lee fazendo ilusionismo psicológico e nos divertimos. Entendemos que essas estratégias movimentam o programa. As famosas samambaias, que tentam não chamar atenção, não chegam mais muito longe.

Ainda faltam dois meses ao BBB 20. A saída consecutiva de Chumbo, Petrix, Hadson e Lucas pode ter esvaziado o componente machista dentro da casa. Para onde se voltarão as baterias dos internautas? De onde surgirá a próxima narrativa?

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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