Tony Goes

'Orgulho e Paixão' faz comédia a partir de Jane Austen

É uma mistura desavergonhada de tramas e personagens transplantados para o Brasil de cem anos atrás

cena da novela 'Orgulho e Paixão'
Ofélia (Vera Holtz), Felisberto (Tatu Gabus Mendes), Jane (Pamela Tomé), Mariana (Chandelly Braz), Cecilia (Ana Julia Dorigon) e Lidia (Bruna Griphão ) em cena da novela 'Orgulho e Paixão' - Globo/Estevam Avellar

A obra da escritora Jane Austen (1775-1817) é um manancial inesgotável para o cinema e a televisão produzidos em inglês. É raro o ano em que não é lançado um filme ou um programa baseado em algum livro seu.
 
Podem ser fiéis ao original, como o longa “Razão e Sensibilidade” (1995); adaptações para os dias de hoje, como “As Patricinhas de Beverly Hills” (que virou filme em 1995 e série de TV em 1996); ou até mesmo variantes bizarras como o “mash-up” “Orgulho, Preconceito e Zumbis” (2016).
 
Uma das razões é que a literatura de Austen se baseia nas relações humanas, que não mudaram tanto assim nos últimos 200 anos. A outra, é claro, é que seus romances caíram em domínio público faz tempo. Não é preciso pagar direitos autorais, nem se preocupar com as reclamações de nenhum herdeiro.
 
Por tudo isso, é até de se espantar que Jane Austen tenha demorado tanto para chegar às novelas brasileiras. Mas finalmente chegou, e em grande estilo: “Orgulho e Paixão”, a novela da faixa das 18h que estreou na Globo na última terça (20), é uma mistura desavergonhada de tramas e personagens de Austen, transplantados para o Brasil de cem anos atrás.

Escrita por uma equipe comandada por Marcos Bernstein, “Orgulho e Paixão” não se mantém fiel sequer ao período histórico em que se passa sua história. O fictício Vale do Café é uma versão romantizada da região cafeeira do Vale do Paraíba, entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Nomes como Jane, Elisabeta e Darcy remetem aos livros de Austen, mas eram raríssimos por aqui no começo do século 20.
 
Além do mais, títulos como “Orgulho e Preconceito” ou “Emma”, que servem de base à novela, têm momentos de leveza e ironia, mas não são exatamente de humor. Já “Orgulho e Paixão”, pelo menos em seus primeiros capítulos, optou pela comédia rasgada, beirando o pastelão.
 
O resultado é divertido de se ver, e muito bem-vindo depois da dramática “Tempo de Amar”. Dá até para descontar que o casal de protagonistas Nathália Dill (que tem 32 anos na vida real) e Thiago Lacerda (que tem 40) são bem crescidos para interpretar jovens que ainda não conhecem o amor.
 
Nathália, em especial, tem revelado uma pronunciada veia cômica, além da capacidade de dizer com naturalidade os diálogos mais rebuscados. Ela faz a espevitada Elisabeta, a mais velha das cinco irmãs Benedito, e a única que não tem pressa de encontrar marido.
 
Mais engraçada ainda é a dupla formada por Alessandra Negrini (como Susana, sua enésima vilã consecutiva) e Grace Giannoukas (como a criada Petúlia), digna de um desenho animado.
 
Há também um congestionamento de mocinhas e galãs, que podem gerar subtramas a perder de vista. E ainda veteranos como Vera Holtz e Ary Fontoura, em caracterizações esmeradas.
 
“Orgulho e Paixão” não se propõe a discutir as mazelas da época, nem refletir as atuais. É entretenimento em estado puro, sofisticado e despretensioso ao mesmo tempo.
 
E, se interessar a algum espectador os livros de Jane Austen, terá ultrapassado seus objetivos.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

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