Tony Goes

Algum dia a Globo vai se livrar da pecha de 'golpista'?

Apesar de ainda pertencer à família Marinho, a Globo mudou de postura

Destaque da Paraíso do Tuiuti com a faixa presidencial durante o desfile da escola no domingo (11)
Destaque da Paraíso do Tuiuti com a faixa presidencial durante o desfile da escola no domingo (11) - Mauro Pimentel-12.fev.2018/AFP

No sábado (17), o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) tuitou que a Globo não iria transmitir o desfile das escolas de samba campeãs do Rio de Janeiro. "Isso é inédito! É medo da Paraíso do Tuiuti!", escreveu o parlamentar em seu perfil na rede social.

Não era inédito. A emissora carioca não exibe o desfile das campeãs desde 2011, por causa da baixa audiência. Neste ano, assim como em 2017 e 2016, a transmissão ficou a cargo da TV Brasil, controlada pelo governo federal.

O senador depois apagou o tuíte equivocado e assumiu o engano, mas já era tarde. Como costuma acontecer, o desmentido não teve o mesmo impacto que a notícia falsa. Àquela altura, milhares de internautas já estavam repercutindo o suposto "medo" da Globo.

Não era uma repercussão injustificada. Os comentaristas da Globo ficaram meio sem saber como reagir ao desfile da Paraíso do Tuiuti, na madrugada do domingo (11) para a segunda (12) de Carnaval.

A escola apresentou um enredo extremamente politizado, "Meu Deus! Meu Deus! Está Extinta a Escravidão?", recheado de críticas ao atual governo. O "vampiro neoliberalista", destaque do carro que encerrou o desfile, foi manchete no mundo inteiro.

Mas, no dia seguinte, a Globo se emendou. Deu destaque à escola em seus telejornais. Explicou o que era a ala dos "manifestoches" e contou que o vampiro era uma alusão ao presidente Michel Temer. E seguiu assim ao longo da semana.

Só que, para quem vê a Globo como o QG dos golpistas, isso não quer dizer nada. Não importa que a emissora tenha pegado pesado contra Temer desde que estourou o "escândalo da mala". Para seus detratores, ela ainda é a mesma de quase 30 anos atrás, quando reeditou o debate entre Fernando Collor de Mello e Lula nas eleições de 1989 para beneficiar o primeiro.

Não é. Apesar de ainda pertencer à família Marinho, a Globo mudou de postura. E vem adotando uma linha jornalística muito mais imparcial e transparente desde que Carlos Henrique Schroder (vindo do jornalismo) assumiu a direção-geral da empresa. 

Mas ela também continua sendo a campeã absoluta de audiência, e isso a transforma em eterna vidraça. Suas concorrentes, muito mais subservientes ao Planalto (não importando quem seja o ocupante da vez), não sofrem um décimo dos mesmos ataques.

Foi para evitar um desgaste ainda maior que a cúpula da Globo avisou a Luciano Huck que ele e Angélica teriam que se desligar da emissora, caso o apresentador resolvesse concorrer à Presidência da República.

Os partidos de esquerda se refestelariam contra o “candidato da Globo”, e o esforço do canal para restaurar sua credibilidade sofreria uma intensa campanha contrária. 

O engraçado é que não é só a esquerda que se indispõe contra a emissora. Também está circulando na web um exemplo grotesco de "fake news", que afirma que está “na câmera (sic) de vereadores” um projeto para colocar a efígie de Pabllo  Vittar na nota de R$ 50. 

"Uma investigação mostrou que a Rede Globo e o PT estão por tráz (sic) disso!!!!", conclui o meme. Tudo não passa de uma brincadeira inventada pelo site e-Farsas.com, mas muita gente acreditou e passou adiante.

É contra essa percepção de que a Globo está "por tráz" de qualquer absurdo que a emissora tem que lutar. Mas, enquanto ela for a líder do mercado, não vai ser nada fácil.

Tony Goes

Tony Goes tem 56 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.blogspot.com

Final do conteúdo

Últimas Notícias

Comentários

Ver todos os comentários Comentar esta reportagem