Tony Goes

Bloqueio ao WhatsApp revela um Brasil autoritário e zombeteiro ao mesmo tempo

Já vimos este filme antes.

Em dezembro do ano passado, um juiz ordenou o bloqueio do WhatsApp em todo o país por 48 horas.

Parecia que um meteoro estava se aproximando.

Um clima de fim do mundo se alastrou pelo Brasil, como se não houvesse outro meio de compartilharmos "nudes" ou darmos "booom diiia" para a família.

Mas o pânico durou pouco.

Uma liminar suspendeu a suspensão, e o WhatsApp voltou a funcionar depois de apenas 12 horas.

Um suspiro de alívio coletivo ecoou do Oiapoque ao Chuí.

O Brasil foi um dos primeiros lugares a aderir em massa ao aplicativo.

Só depois de adquirido pelo Facebook que o WhatsApp se alastrou pela Europa e pelos Estados Unidos.

A essa altura, já estávamos totalmente viciados.

E é por isto que a decisão deste juiz sergipano nos afeta tanto.

​Não vou entrar no mérito da questão: o embate entre a privacidade dos usuários deste tipo de serviço e as demandas das investigações policiais é realmente complicado.

Mas suspender o WhatsApp por 72 horas me parece uma punição injusta e desproporcional.

Os usuários brasileiros somam nada menos do que 100 milhões: é gente demais sendo prejudicada ao mesmo tempo, seja quais forem as razões para a suspensão.

Na verdade, o Brasil lida bem mal com os avanços tecnológicos que esbarram em interesses estabelecidos.

Nosso ranço autoritário se revela nessas horas, e não apenas da parte do estado.

Quem não se lembra de Daniella Cicarelli, que em 2007 quis tirar o YouTube do ar para impedir as visualizações de um vídeo indiscreto gravado numa praia espanhola? Volta e meia algum político do interior também tenta derrubar o Facebook inteiro, só porque não gostou de alguma postagem a seu respeito.

Além disso, neste exato momento tramitam no Congresso dezenas de projetos de lei que visam restringir a liberdade de expressão na internet.

Sem falar nos protestos contra o Uber e outras inovações. Para que se adaptar, não é mesmo? Melhor proibir de uma vez.

Está no nosso DNA.

Por outro lado, também sabemos rir de nós mesmos.

Não param de surgir “memes” zoando do nosso vício em WhatsApp.

E, como da outra vez, é bem provável que este novo bloqueio sirva de inspiração para sites e programas de humor.

Também é provável que o aplicativo já tenha voltado a funcionar no momento em que você lê este texto.

Mas nada garante que um novo bloqueio não irá acontecer em breve.

Afina, somos a única democracia do mundo que proíbe serviços de mensagens em tempos de paz.

Tony Goes

Tony Goes tem 58 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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