Tony Goes

Por que não existe uma Beyoncé brasileira?

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Responda depressa: quem é a grande estrela negra da música brasileira? A diva que fatura alto e arrasta multidões?
 
Não vale responder Alcione ou Elza Soares. Ambas já venderam muitos discos e têm seus lugares garantidos no panteão da MPB. Mas suas carreiras contam com mais de 40 anos, ou seja, não são exatamente ídolos da garotada.
 
O fato, triste e estarrecedor, é que não temos um equivalente nacional de Beyoncé. Apesar da extrema importância dos ritmos africanos para a formação da nossa música, o Brasil não foi capaz de produzir uma cantora negra com status de “superstar”.
 
Claro que existem inúmeras vocalistas negras talentosíssimas e bem-sucedidas, como Negra Li, Karol Conká, Paula Lima ou Margareth Menezes. Mas nenhuma delas chegou ao primeiríssimo time, onde brilham nomes como Marisa Monte, Gal Costa ou Ivete Sangalo.
 
O caso de Ivete é sintomático. Ela faz parte da santíssima trindade da “axé music”, ao lado de Daniela Mercury e Cláudia Leitte. Um gênero musical que nasceu negro da cabeça aos pés na capital mais negra do país, Salvador. E, no entanto, seus três maiores expoentes são cantoras brancas.
Nada contra branco cantando música de negro. Sou totalmente a favor da miscigenação, em todos os sentidos (e acho ridículo o conceito de “apropriação cultural”, que vem se tornando moda entre alguns ativistas). Mas não é esquisito que um ritmo negro, oriundo de uma cidade com maioria negra, precise ser cantado por brancas para fazer sucesso em todo o Brasil?
 
Fora que o estilo que mais vende por aqui hoje em dia é o sertanejo, quase que totalmente dominado por homens brancos. Outro dado curioso, ainda mais num país que se gaba de ser muito menos racista do que os Estados Unidos.
 
Pois lá vicejam não só Beyoncé, como também Rihanna, Mary J. Blige, Janet Jackson, Diana Ross e tantas, tantas outras. Na história da música popular americana, a lista de deusas negras é imensa: Bessie Smith, Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan...
 
E no Brasil? OK, tivemos Elizeth Cardoso, Ângela Maria, Dolores Duran. Todas mulatas, nenhuma exatamente negra. Alaíde Costa? Hmm, pode ser, mas ela nunca superou o nível de “cult”. Veja bem, não estou discutindo qualidade musical, e sim o tamanho do estrelato conquistado.
 
Existem esperanças. Como, por exemplo, a funkeira carioca Ludmilla, que já mostrou não ser um fenômeno de um sucesso só. Ludmilla tem voz, beleza e carisma, e torço para que faça uma longa e bela carreira. Talvez, num futuro próximo, ela lance até uma canção-manifesto tão contundente quanto “Formation”, a bomba política que Beyoncé soltou na semana passada e que vem dividindo opiniões.
 
Falta muito para chegarmos a este ponto, e a razão é até singela. Sabe por quê não existe uma versão tupiniquim de Beyoncé? Porque somos racistas. Ponto.

Tony Goes

Tony Goes tem 60 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: tonygoes.com.br

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