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colunistas - tony goes

"Desperate Housewives" e "Revenge": novelas à moda americana

23/11/2011 - 16h42

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DE SÃO PAULO

Americano não gosta de novela. Pelo menos, não no formato consagrado na América Latina: episódios de segunda a sábado, poucos meses de duração, desfecho já previsto na sinopse (embora sempre aberto a alterações). Apesar de algumas tentativas de implantação --afinal, a novela quase-diária é uma ferramenta poderosa para fidelizar a audiência-- elas sempre fracassaram nos Estados Unidos. O horário nobre de lá continua dominado por séries semanais.

É verdade que uma prima em segundo grau da nossa novela sobrevive à tarde, a "soap opera". Mas as diferenças são gritantes. A principal é que a "soap" não tem data para acabar. Algumas já estão no ar há mais de quarenta anos, com elencos que vão mudando aos poucos e tramas que evoluem ainda mais lentamente. Mas é um gênero em extinção. Cada vez menos gente está em casa a esta hora, e, para seduzir esse público minguante, "talk-shows" como o recém-terminado de Oprah Winfrey têm produção muito mais barata.

Mas o folhetim sobrevive à noite, de um jeito diferente do que o telespectador brasileiro está acostumado. São as chamadas "primetime soaps", cujas origens remontam a "A Caldeira do Diabo", nos anos 60, e que explodiram nos anos 80 com as glamurosas "Dallas" e "Dynasty". Os cenários são diversos, mas a temática, não: adultério, luta pelo poder e dinheiro aos borbotões são ingredientes obrigatórios.

Duas séries exibidas pelo canal por assinatura Sony são bons exemplos de novela ao estilo americano. "Desperate Housewives" (sexta, às 22 h) acaba de estrear sua última temporada. Em seu auge, em meados da década passada, chegou a ser o programa mais assistido do mundo. Chega à reta final ainda embalada por boa audiência, mas com nítidos sinais de esgotamento.

Divulgação
As atrizes Emily Van Camp e Ashley Madekwe em cena do primeiro episódio de "Revenge", série que o Sony estreia no Brasil
As atrizes Emily VanCamp e Ashley Madekwe no 1º episódio de "Revenge", série que o Sony estreia no Brasil

O público está mais interessado em novidades como "Revenge" (terça, às 21 h), que se diz inspirada pelo clássico livro de Alexandre Dumas, "O Conde de Monte Cristo". Ou seja, é uma história de vingança: a protagonista, que sofreu uma enorme injustiça no passado, ressurge sob uma nova identidade para eliminar todos aqueles que lhe fizeram mal. Qualquer semelhança com a Norma de "Insensato Coração" não é mera coincidência: vinganças mirabolantes atraem os roteiristas desde os tempos do cinema mudo.

O maior problema do formato semanal é manter o interesse (e a qualidade) ao longo de várias temporadas. As primeiras vítimas são a coerência e a verossimilhança, que apanham por lá ainda mais do que nas novelas brasileiras. Vejamos o que aconteceu com a personagem Gabrielle (Eva Longoria), uma das principais de "Desperate Housewives".

Na primeira temporada, Gaby traía o marido com um jovem jardineiro, e não queria ter filhos para não estragar o corpão que lhe deu fama nos tempos de modelo. Na segunda, já estava obcecada por engravidar, mas não conseguia. Na terceira se divorciou para se casar com um político, só para voltar ao marido original depois de um acidente que matou o segundo e cegou o primeiro. Na quarta virou esposa exemplar e teve duas filhas, e assim por diante. Deu para entender?

Este é o grande desafio da recém-estreada "Revenge". Por enquanto a audiência está ótima, porque os episódios também estão. Mas, depois de se livrar de vários de seus desafetos logo na primeira temporada, será que a mocinha Emily/Amanda (Emily Vancamp) terá fôlego e motivação para continuar sua revanche por ainda muitos anos?

Eis a dor e a delícia das novelas à americana. Costumam ser incríveis na largada, mas queimam depressa seus cartuchos. E, para permanecer no ar, apelam para tantas reviravoltas que acabam alienando seus fãs. Mas, quando benfeitas, lembram as americaníssimas tortas de maçã: irresistíveis, apesar de não fazerem muito bem à saúde.

Tony Goes

Tony Goes tem 54 anos. Nasceu no Rio de Janeiro, mas vive em São Paulo desde pequeno. Já escreveu para várias séries de humor e programas de variedades, além de alguns longas-metragens. E atualiza diariamente o blog que leva seu nome: http://tonygoes.blogspot.com

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