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Krishna Mahon
Descrição de chapéu Sexo beleza

Tem muito pano de chão se achando edredom

Precisamos de pílulas de autoestima às mulheres e de bom senso aos homens

Deve ser gostoso demais crescer sem pressão estética - Instagram/@thalesfariapereira
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Saiu esses dias uma pesquisa mostrando que 47% dos homens brasileiros se acham bonitos, 44% na média e só 3% se acham feios. Autoestima on, noção off. E ainda tem os 28% que se acham mais inteligentes que a média. Aham... Questionados sobre o homem brasileiro que mais admiram, 7% responderam "eu mesmo". Mano do céu, eu quero fumar o que eles fumaram!

Será que entrevistaram só hétero, branco e pauzudo para o resultado dar essa percepção equivocada? Pior que não. O estudo "O Que Pensa o Homem Brasileiro", do Instituto Ideia, ouviu 663 pessoas entre 5 e 11 de abril de 2022. Foram ouvidos homens de 18 anos ou mais, residentes em todo o território nacional, com amostra segundo critérios do Censo 2010 e da PNAD 2021. Como eu queria ser iludida assim.

Imagina a mesma pesquisa com mulheres ou só com pessoas negras.

Sabe pobre com bom gosto? Papai é tipo o Caco Antibes do Sai de Baixo. Pode estar no cheque especial, ou devendo para agiota, que ainda assim vai falar que a melhor época para ir a Nova York e Paris é abril e setembro. Artista plástico fodão, mas sem nenhum tino comercial; ele é coberto de referências, sabe tudo de história da arte, mas tem senso estético eurocentrado, como a maioria dos ricos e, consequentemente, da classe média brasileira. É aí que eu me ferro desde muito pequena.

Meu avô paterno fisicamente era um Osama Bin Laden, um tipo meio Caetano. Mamãe deu uma desbotada, mas na minha infância era a Sônia Braga em Gabriela. Saí no mesmo pantone, meu Instagram @krishnamahon comprova. Mary Del Priore, uma das maiores historiadoras do Brasil, diz que as famílias brasileiras colocam a foto do bisavô europeu no porta retrato e a da bisa negra na gaveta. Se fizerem um exame de DNA em mim vão achar a ONU, sou o vira-lata caramelo, a cara do Brasil.

Sabe a figura da mãe judia do Woody Allen? Papai e vovó têm esse cordão umbilical tão estreito e tão forte que —não sei se é por ela ser loura ou só por racismo estrutural— para ele o ideal de beleza era esse, inalcançável para mim.

Detalhe: todas as famílias brancas falidas contam que eram para serem ricas, mas algum antepassado cagou. Cresci ouvindo do Brigadeiro Jordão de que Campos do Jordão todinha era para ser nossa, rs. Minha bisa, mãe da avó loura, foi cantada por um dos Marinho, mas preferiu meu bisavô porque ele tinha olhos azuis.

Apesar de bem morena, meus cabelos eram mel na infância, depois viraram "cor de burro quando foge". Aos 11, depois de cortar bem curtinho, eles vieram enrolados. E aos 12, sem saber que havia qualquer problema com os cachos, vovó me levou para alisar os cabelos a primeira vez. Era um ato de amor dela? Claro. Foi racista? Também. Descobri que com ele liso dava para cobrir a minha testa, que é do tamanho da autoestima dos boys da pesquisa. E apesar de achar o padrão massacrante, opressor e racista, não consigo não cobrir a testa desde então.

Aliás, só percebi que não era branca outro dia, e isso porque morei na Inglaterra e nos EUA, senão jamais saberia.

Padrão de beleza é tipo crack, não deveria existir, porque vicia e pode acabar com a vida da pessoa. Sabia que mulheres têm nove vezes mais anorexia e bulimia que os homens; e duas vezes mais compulsão alimentar? Uma das minha colegas da Band tem um processo de embranquecimento diário, beirando algo crônico. Ela não é vista nem em casa, nem nas fotos de casamento, ou do nascimento do filho, sem as lentes de contato, além dos cabelos alisados e pintados. Nem ela deve se lembrar de qual é sua imagem real. Lá se vão, junto do esforço, tempo e dinheiro, uma parcela da própria pessoa e de sua aceitação.

Voltando à pesquisa que foi encomendada pela GQ, já vejo o cara careca, pançudo, com fungo na unha do dedão à mostra no chinelo Rider, camisa de time em dia que não tem jogo, se achando gato, falando que não aceita mulher sem depilar, que odeia celulite e acha estria feio, e que, inclusive, usa isso para justificar brochada. Ow, deve ser gostoso demais crescer sem pressão estética, com todo um sistema a seu favor, com representatividade política e privilégio, né? Se inveja matasse eu estava mortinha, mas a minha raiva disso não me deixaria morrer por essa inveja.

Falei na coluna "O problema do peru comprido" que adoraria ter nascido com a autoestima média de um homem hétero, branco e pauzudo, lembra? A única correção depois de ver essa pesquisa é que basta ter peru que a autoestima vem junto.

Pois então a Phoda Madrinha quer cápsulas de bom senso dadas gratuitamente pelo SUS para os homens, dosagem maior para os brancos e ricos, mas, primeiro, as de autoestima para as mulheres. Com esse equilíbrio a gente ia se conectar, amar e transar mais, certeza. Enquanto isso não vem, precisamos cuidar das nossas meninas, principalmente as não-brancas como a que eu fui, para que elas não demorem quase 50 anos anos para enxergar a própria beleza.

PS: Muito obrigada à Tati Nascimento, que me leva para molhar os pés nos seus mergulhos estudando o racismo, e ao papai, que me deixou falar dele assim e ainda me emprestou suas pinturas para ilustrar a coluna.

Krishna Mahon

Jornalista e cineasta indicada ao Emmy, é apresentadora do SexPrivé Club da Band. Foi produtora da Discovery e diretora de conteúdo do History.

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